Raul Seixas, ídolo dos mendigos
* Carlos Pinduca

Na noite do último dia 3/12, assisti na Rede Globo ao programa Por Toda Minha Vida, dedicado ao cantor e compositor Raul Seixas. Em 21 de agosto deste ano, completaram-se duas décadas que o grande roqueiro baiano nos deixou e o programa conseguiu resgatar muitos fatos interessantes de sua vida, por meio do depoimento de amigos (como o parceiro Paulo Coelho) e familiares (as três filhas e duas ex-esposas do cantor).

Não sou exatamente um fã devoto de Rauzito, mas posso dizer que gosto (do que conheço) de sua obra e até guardo simpatia por sua personalidade. Nessas minhas incursões superficiais pelo universo “raulseixiano”, pude observar um aspecto intrigante no legado deixado pelo cantor: Raul Seixas se tornou uma espécie de ídolo dos mendigos. Comecei a notar essa peculiaridade há quase quinze anos, quando meus companheiros do Maskavo Roots e eu paramos o carro em um sinal (ou farol?) perto da avenida Rebouças, em São Paulo. Um morador de rua veio em nossa direção pedir esmola e, quando viu nossos instrumentos, nos disse animadamente: — Vocês são músicos? Então, devem gostar de Raul Seeeiiixas. É aí, ele começou a cantar o sucesso Gita (1974), fazendo um movimento de air guitar com as mãos. Depois desse episódio, passei a notar vários outros mendigos – refiro-me àqueles que não têm necessariamente origem pobre, mas, por diversas questões, passaram a viver nas ruas e à margem da sociedade – com o repertório de Rauzito na ponta da língua, inclusive um que cantava na saída da minha formatura de faculdade.

Mas de onde vem essa empatia entre Raul e os moradores de rua? Acredito que o visual do roqueiro baiano já dê pistas sobre tal fenômeno: a barba mal feita, as roupas meio envelhecidas e/ou em tom marrom e o cabelo desgrenhado fazem com que o parceiro de Paulo Coelho seja uma espécie de imagem e semelhança dessa peculiar facção do seu público. Isso faz com que o roqueiro baiano adentre um terreno no qual galãs, como Roberto Carlos, Fábio Jr. e Brian Ferry - caras que costumam cantar de terno e barba feita – nunca conseguiriam.

Porém, mais determinante do que o próprio visual talvez seja o conteúdo das canções de Raul: músicas que propõem uma sociedade alternativa, que celebram caubóis foras-da-lei, que falam sobre a experiência de ser um maluco beleza. Quando resolve aliviar e penetrar no universo infantil, qual personagem Rauzito escolhe? O Carimbador MALUCO, é óbvio. Essas características fazem com que a música de Raul Santos Seixas seja um prato cheio para quem não se liga muito em regras, se tornando uma espécie de retrato do “way of life” dos maltrapilhos.

Como não sou profundo conhecedor da obra de Raul, antes de escrever esse texto resolvi pesquisar nos sites de busca uma possível relação do roqueiro baiano com os moradores de rua e acabei me deparando com uma canção chamada “Diamante de Mendigo” (1979). Com título e temática servindo talvez de contraponto ao sucesso “Ouro de Tolo” (1973), a letra fala sobre a importância da família, evocando valores, de certa forma, tradicionalistas. Chega a ser até contraditório que a letra mais careta de Raul trate exatamente dos mendigos – imagino que essa facção “outsider” do seu público deva ter rejeitado veementemente a “homenagem” feita por Raul, da mesma forma que os punks execraram a equivocada canção “Punk da Periferia” (1983), de Gilberto Gil.

Voltando aos 20 anos sem Raul Seixas, lembro até hoje do dia de sua morte: era uma segunda-feira e, se não me engano, recebi a notícia às 13h, assistindo ao Jornal Hoje, da Rede Globo. À noite, no programa Boca Livre, apresentado por Kid Vinil na TV Cultura (retransmitida pela TVE em Brasília), a banda Maria Angélica, comandada pelo jornalista/músico Fernando Naporano - e tendo Kid Vinil como convidado - encerrou o programa tocando duas pérolas do grande roqueiro baiano: "Aluga-se" e "Rock das Aranha" (1980).

Um grande amigo meu costuma dizer que é um contrassenso chamar Raul de “o grande roqueiro brasileiro” ou o “pai do rock brasileiro”. Na visão dele, Raulzito era um exímio cantor de...boleros! De fato, do inicío com Os Panteras até o fim de sua carreira, Raul Seixas foi maneirando as guitarras em seu som e enveredando por caminhos que quebram qualquer visão mais ortodoxa do que seja considerado rock. Discussões de rótulos à parte, o mais importante talvez seja a singularidade e a criatividade contidas na obra do compositor e cantor baiano, frutos de uma salutar mistura de referências, que iam de Elvis Presley a Luiz Gonzaga. É essa marca muito pessoal que faz Raul Seixas figurar entre os grandes nomes da música brasileira.

A popularidade de Raulzito, mesmo nos dias de hoje, é de chamar a atenção, tanto pelo lado musical quanto pelo aspecto mítico que ronda sua personalidade. Fazendo uma pesquisa informal com amigos, notei que, ao zapear pelos canais, vários resolveram “parar” na Rede Globo quando se depararam com o programa sobre Raul Seixas. Isso porque sua música, sua vida e suas histórias ainda são alvos de curiosidade de seu público – seja este formado por maltrapilhos ou não. Afinal, não é qualquer artista que se transforma em uma espécie de grito de guerra genérico da platéia (já um tanto batido, é verdade) em shows do mais variados gêneros musicais: – Toca Rauuuuulllll!!! - berram os espectadores, a plenos pulmões.

* Carlos Pinduca é músico e jornalista e publica o blog Pinduca´s Blog, desde Brasília.

 
 
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