* Ayrton Mugnaini Jr.
PARTE 1: JAGGER & RICHARDS (INTRODUÇÃO)
“Quando você chegar aos trinta/estará aparentando sessenta e cinco.” Não pude deixar de me lembrar destes versos de “Ride On Baby” ao atentar para o fato de seus autores, Mick Jagger e Keith Richards, chegarem aos 65 cada um em 2009. Jagger está muito bem (embora não chegue a inverter os versos da canção e aparentar trinta), e Richards, desde sempre pirata do Caribe e dos sete mares, pouco se importa em aparentar cem ou duzentos. Lembrei-me também de que “Ride On Baby”, gravada pelos Rolling Stones, não foi lançada por eles e sim pelo tão bom quanto subestimado cantor Chris Farlowe – e daí lembrei-me também de outras canções dos Stones lançadas por outros intérpretes, ótimo assunto para matéria na Senhor F e excelente demonstração de que a humanidade, inclusive o rock, já havia entrado na Era da Produtividade.
Como dizem os outros, não guarde todos seus ovos numa cesta só, do boi se aproveita até o berro e maximize seus talentos pois pelo menos um há de funcionar. Larry Page, Shel Talmy, Andrew Oldham e Mickie Most são apenas alguns produtores de discos que precisaram tentar brilhar como cantores para perceberem que sua vocação era a retaguarda. E, uma vez estabelecidos como produtores, seguiram o exemplo de colegas mais versáteis como George Martin e extraíram o máximo potencial de seus clientes, não somente um ou dois LPs e três ou quatro compactos por ano (onde, se possível, todos ou quase todos os integrantes de grupos cantassem e/ou compusessem), mas também filmes, jingles e comerciais, participações em festivais como San Remo e FIC, projetos solo e composições & produções para outros artistas.
Logo os novatos percebiam que compor era bom negócio, mesmo que fossem apenas lados-B para pegar carona no sucesso do outro lado, pois os direitos autorais eram repartidos por igual, com o lado-B rendendo tanto quanto o lado-A. E pensar grande rendia mais ainda; basta lembrar que as estreias dos Beatles e dos Stones na parada da Billboard no outro lado do Atlântico foram como compositores, os Beatles com “From Me To You” na gravação de Del Shannon e os Stones com “That Girl Belongs To Yesterday”, lançada por Gene Pitney. (Sem falar que a única vez que os Kinks residiram no Top 5 estadunidense foi com “Dandy” na interpretação dos Herman’s Hermits.)
E parece que nos anos 1960 o tempo realmente corria mais depressa. Em 1962-3 os Stones eram puristas do blues e rhythm & blues, não tocando nada mais pop que “La Bamba” e quase tudo de Chuck Berry, e até declarando à imprensa que composições próprias não estavam nos planos. Mas foi só assinarem contrato com uma gravadora para mudarem de opinião – ou melhor, adotarem uma opinião paralela. Tudo bem gravar clássicos de Willie Dixon ou Elmore James, mas pelo menos os lados-A dos compactos teriam de ser comerciais o suficiente para a gravadora dar-se por satisfeita. O primeiro compacto dos Stones, “Come On” de Chuck Berry, fez sucesso razoável, mas após gravarem para o “single” seguinte mais covers (“Fortune Teller” e “Poison Ivy”), Andrew Oldham, produtor e empresário dos Stones, farejou que para o segundo disco o ideal seria uma canção inédita, própria ou não. Daí veio o estalo e Oldham se lembrou das chamadas “ligações perigosas”.
Os Stones tinham sido contratados por uma gravadora (a Decca) que no ano anterior tinha cometido a façanha de recusar os Beatles, os quais em seguida foram contratados pela EMI e se tornaram a grande sensação do momento, e Oldham, antes de se tornar empresário, já havia trabalhado como assessor de imprensa para Brian Epstein. Então Oldham usou esta conexão e contatou os Beatles. O resto vocês já sabem: Lennon e McCartney compuseram a básica “I Wanna Be Your Man”, que, com um arranjo ainda mais básico dos Stones, catapultou de vez o grupo como alternativa mais blueseira, “suja” e direta ao pop dos Beatles e seus zilhões de colegas, seguidores e imitadores.
Faça você mesmo
O raposão Oldham estava atento: fazer sucesso é bem mais fácil que mantê-lo. Então alertou os Stones quanto às vantagens e à necessidade da auto-suficiência: era preciso que eles deixassem de depender dos Lennons & McCartneys da vida e de ficar regravando Chuck Berry, começando eles mesmos a compor. E compor para valer: o lado-B de “I Wanna Be Your Man”, “Stoned”, era composição do grupo, porém pouco mais que uma derivada de “Green Onions” de Booket T & The MGs. Tudo bem, como já dissemos, manter o purismo do blues e r&b nos LPs, lados-B e até num lado-A de vez em quando (como os Stones, por sinal, fariam em 1964 com “Little Red Rooster” de Willie Dixon), mas ao menos por enquanto era preciso que os Stones assumissem um lado mais pop e comercial. Não precisava ser popinho boboca, apenas comercial o suficiente. E o modelo dos Stones acabou sendo os Beatles – ou, como disse um pesquisador estadunidense, os Stones começaram a imitar as imitações que os Beatles faziam de grandes compositores pop dos EUA como Carole King, Del Shannon e Leiber & Stoller.
Mas para que os Stones começassem a compor foi preciso um grande incentivo. Mais que isso, uma imensa coerção mesmo. O episódio daria um bom filme – e seria uma bela mistura de Rutles com Spinal Tap. É verdadeira a história de que Oldham chegou a trancar Jagger e Richards na cozinha da casa onde moravam com um violão e um gravador, dizendo que só os deixaria sair e lhes daria algo para comer quando tivessem composto alguma coisa. “Voltei da casa da minha mãe e entrei bem de mansinho na casa”, recordou Oldham. “Fiquei feliz de ouvir Mick e Keith trabalhando. Eu podia ouvir um violão, uma voz, uma conversa; isso para mim significou uma canção.” Oldham perguntou aos dois se tinham composto alguma coisa e Jagger respondeu “Sim, compusemos esta p* de música, e é melhor você gostar, c*.” Jagger e Richards trabalharam tão contra a vontade, ou tão assustados, que nem se recordam direito de qual foi esta primeira cria, que pode ter sido “As Tears Go By” (segundo a lembrança de Richards) ou “It Should Be You” (conforme Jagger) – esta última a mais provável. Ambas, com certeza, eram cançonetas eminentemente pop, sem nada a ver com o blues e r&b dos Stones.
Keith Richards era tão bom discípulo de Chuck Berry que deve ter lhe imitado, conscientemente ou não, a frase “O dólar dita a música a ser composta”. Nem sei se Berry já havia dito essa sua frase em 1963-4, mas o fato é que quase todas as primeiras composições de Richards, geralmente melodias suas com letras de Jagger, eram bem comerciais mesmo. Jagger, porém, afirma que no fundo ele e Richards realmente gostavam de música pop. “Nós éramos puristas de blues que gostavam de coisas bem comerciais”, recordou Jagger em 1981, “mas nunca as tocávamos ao vivo porque éramos horríveis e éramos muito conscientes de sermos puristas do blues”. Nos idos de 1964-5 Jagger assim justificou as composições pop dos Stones: “Blues originais são mais difíceis de compor”, e “Achamos que canções estadunidenses são mais adequadas para nós mesmos que as canções que Keith e eu compomos. Quase todas as canções que compomos, nós as damos a outros artistas, pois são quase todas baladas e coisas assim.” E nem se preocuparam ao ser chamados por fãs de blues do equivalente sessentista e inglês de “traidores do movimento”...
Um por todos e todos contra um?
Na verdade, o incentivo inicial de Oldham à produtividade dos Stones não se limitou a Jagger e Richards. Antenado como ele só, ele havia notado que Lennon & McCartney não eram os únicos Beatles a compor; George Harrison já lhes seguia o exemplo, e Ringo Starr pelo menos mostrava serviço cantando em uma faixa por disco e desde 1964 vinha rabiscando alguma coisa. De modo que Oldham passou o restante de 1963 e o ano de 1964 inteiro cutucando todos os Stones para compor, e todos corresponderam – uns mais, outros bem menos.
Precisamente a 11 de setembro de 1963 foi oficializada a editora Nanker Phelge Music Limited, para administrar composições de Nanker Phelge – isso mesmo, pseudônimo coletivo para composições dos cinco Stones. Mas dois meses depois começaram a aparecer em disco obras assinadas por Jagger & Richards e, no começo de 1965, composições de Bill Wyman; em meados desse ano “Nanker Phelge” parou de assinar composições dos Stones – e também de outros, como “I’m Alright” de Bo Diddley e até a platéia cantando “We Want The Stones”! Realmente, uma grande lição que os Stones aprenderam com Oldham (e este, por sua fez, assimilou de seu herói Phil Spector) foi a cara-de-pau.
Charlie Watts contentou-se em colaborar com um ou outro instrumental em lados-B de compactos produzidos por Oldham (além de idealizar e desenhar uma capa de disco dos Stones, escrever um livro sobre o jazzista Charlie Parker e produzir um LP da People Band, grupo experimental antipop do tipo que era uma espécie de moda na Inglaterra na virada dos anos 1960 para 1970, na linha de grupos como o Everyone Involved - onde se revelou Ritchie Court - e até a Plastic Ono Band). Já Bill Wyman mostrou bastante serviço, produzindo e compondo para meio mundo e inclusive se tornando o primeiro Stone a ter carreira-solo regular; em 1964 os Stones até gravaram uma de suas composições, “Goodbye Girl” (lançada em discos piratas décadas mais tarde). Brian Jones emplacou uma ou outra pelo menos em alguns shows, gravações ou ensaios, como “Sure I Do”, a instrumental “Dust My Pyramids” (composta em parceria com Richards), “No One Knows” (com Richards e Jagger), a canção country “Hear It” (da qual sobrevive o acompanhamento instrumental em discos piratas) e nada menos que a melodia de “Wake Up in The Morning”, jingle dos Stones para a Kellogg’s.
Mas em 1966 Jones deixaria de compor para os Stones e, praticamente, de tocar guitarra ou violão, contentando-se em contribuir com arranjos e instrumentos exóticos para as composições de J&R. A explicação é um tanto complicada. Brian Jones foi o fundador, líder inicial e instrumentista mais versátil dos Stones, além de grande porta-voz do grupo nas primeiras entrevistas. Mas aos poucos foi esmorecendo, por vários fatores, especialmente seus problemas com as pressões do sucesso, a asma e o excesso de mulheres e drogas, além de seu temperamento que incluía uma combinação de talento com insegurança, mais o desgosto por ver sua liderança usurpada por Jagger & Richards (com grande apoio de Oldham, inclusive parceiro deles em algumas composições, e conivência por omissão de Wyman e Watts) e os Stones, a princípio um grupo de r&b liderado por ele, ser transformando em pop-rock liderado por outros. Não que Brian tenha sido tão vítima e coitadinho assim. Keith se lembra de que, logo que os Stones começaram a trabalhar com Oldham e Eric Easton, Brian foi fazendo um acordo com Easton de que ele, como líder, deveria ganhar mais. E Ian recordou: “Quando começamos a tocar fora de Londres, Brian disse ‘Sou o líder do grupo e acho que ficarei no melhor hotel, e todo o resto de vocês pode ficar num hotel mais barato’. É claro que o resto dos Stones riu, e daí acabou a liderança dele. Ele começou a se isolar por causa dessa atitude.”
Num círculo vicioso, o sucesso mundial de Jagger e Richards como compositores, inclusive regravados por outros intérpretes, rendia muito em direitos autorais e fazia crescer as vendas dos discos do grupo, aumentando o cacife da dupla nas decisões. Wyman lembra que, em 1967-68, quando ele ou Jones apresentavam alguma canção ao grupo, não recebiam críticas construtivas do tipo “dá para melhorar aqui e ali”, mas sim assertivas peremptórias do tipo “você não sabe compor!” – ao passo que as composições de Jagger e Richards ganhavam horas e horas de burilagem, inclusive com contribuições quase nunca creditadas dos outros Stones (e até de amigos como Nicky Hopkins e Marianne Faithfull) em letras, melodias e riffs para muito além dos tempos de Nanker Phelge. “Mick e Keith simplesmente apareciam em meu escritório com uma demo e diziam “escutem isto’; Brian nunca teve essa coragem”, lembrou Peter Jones, assistente de Andrew Oldham. Mas apoio não faltou, pessoal ou profissional.
“O rosto de Brian brilhava quando ele escrevia algo de que gostava”, lembra sua namorada Linda Lawrence. “Ele estava sempre escrevendo poemas e letras de música em pedacinhos de papel. É claro que eu amava. Eram românticas, meio espirituais, como as de Donovan, sobre seus sentimentos. Eu o incentivava a compor ele mesmo mas ele dizia ‘Estão inacabadas’. Era a desculpa que ele vivia dando.” (Ah, sim: Linda teve um filho com Brian e depois casou-se com Donovan, que adotou o menino.) “Charlie Watts e Eric Easton me disseram que Brian tinha ambições de ser compositor”, diz Oldham, “mas era assustado demais para mostrar sua canções. Jones não tinha a base firme que eu exigia.” Oldham chegou a pedir a Gene Pitney para que desse alguns toques a Brian, mas este não mostrava suas músicas por medo de ser gozado pelos outros integrantes do grupo.
Beatles genéricos
A indústria cultural, querendo ou não, sempre teve de ajustar-se a mudanças. Em 1962, graças ao sucesso e consagração de Cliff Richard & The Shadows, as gravadoras procuravam artistas similares, ou seja, um vocalista com grupo acompanhante. Lembremos que o primeiro grupo beat de Liverpool a emplacar nas paradas inglesas seguia esta linha, ele mesmo, Gerry (Marsden) and The Pacemakers, e que George Martin contratou os Beatles (ex-Johnny & The Moondogs, lembra-se?) pensando em extrair deles um bom artista-solo, acompanhado pelos outros ou não. (Como disse Bill Wyman, os EUA são o único lugar do mundo onde os Stones eram conhecidos como “Mick Jagger and The Rolling Stones”.) Em 1963, com o estouro dos Beatles, o foco mudou: gravadoras passaram a procurar grupos beat na mesma linha.
Em 1964, como já lembramos, o sucesso dos Stones mostrou seu estilo básico, sujo e direto como alternativa ao pop limpinho dos Beatles. Antes disso, porém, Oldham tentou transformar os Stones num Beatles mais blueseiro e com a vantagem de um vocalista gatão e desinibido. Fazê-los usar ternos bonitos e iguais como os dos Beatles não deu certo; os Stones se rebelaram esquecendo coletes, derramando pudim nas calças ou simplesmente atirando paletós ao lixo. Oldham foi esperto o bastante para perceber que os Stones deveriam ser os Stones mesmo. Mas conseguiu convencê-los a serem eles mesmos em seus próprios discos e, ao mesmo tempo, criarem cançonetas pop para diversos intérpretes. (Música popular se compõe de fórmulas, ainda mais o pop comercial. Os Stones, aparentemente seguindo o exemplo de seu primeiro grande sucesso, “I Wanna Be Your Man”, cujo refrão se resumia a esta frase repetida quatro vezes, fizeram o mesmo em pelo menos três de suas composições beat: “It Should Be You”, “Tell Me (You’re Coming Back)” e “You Must Be The One”.)
Falamos dos Stones serem eles mesmos em seus próprios discos. Bem, eles quase sempre foram. Mas bem que em muitas ocasiões tentaram ser os Beatles. Se Keith Richards queria apertar um botão e virar Chuck Berry e Andrew Oldham gostaria que a câmara de eco pudesse transformá-lo em Phil Spector, Mick Jagger foi resumido por John Dunbar, primeiro namorado de Marianne Faitufull, como “apenas um Beatle de dez centavos”. Faithfull confirmou isso em sua autobiografia, se bem que em termos mais afetuosos: “Mick idolatrava os Beatles. Ele sempre quis ser John Lennon”. Lennon, por sua vez, ficou num meio-termo em sua famosa entrevista para o Rolling Stone em 1971: “Eu gostaria de fazer uma lista de tudo que os Beatles fizeram e Mick Jagger imitou dois meses depois.” (Esta lista daria um texto para a Senhor F; por sinal, me rendeu um para a extinta revista Revolution. Mas suponho que Jagger deve ter se sentido vingado quando surgiu Steven Tyler querendo apertar um botão e virar Mick Jagger.)
O divulgador da Costa Oeste (e Leste também)
O estouro dos Stones no fim de 1963 fez com que a Decca desse a Andrew Oldham poder de mando quase ilimitado durante os três anos seguintes, e ele produziu de tudo, inclusive LPs inteiros de versões orquestrais dos Stones. Os resultados foram de qualidade e sucesso extremamente variáveis; muitas destas gravações consolidaram a reputação dos Stones como alternativa “suja” e “carnal” para os “limpinhos” e “inocentes” Beatles, sempre com algo desafinado ou discordante mas com um fascínio inexplicável – parafraseando o escritor inglês A. J. Cronin, as gravações dos Stones atraíam justamente porque repeliam. As primeiras baladas dos Stones eram realmente básicas em todos os sentidos; a revista Billboard definiu “Tell Me (You’re Coming Back)” como “o melhor em música neandertal” e “um canto cru com o som mais roqueiro que há por aí”, e para o jornalista novaiorquino Mitchell Cohen tanto “Tell Me” quanto “That Girl Belongs To Yesterday” são de uma “crueza um tanto desarmante”.
Empreendedor como ele só, Oldham percebeu a necessidade de investir não só em casa, mas também nos EUA, o maior mercado fonográfico do mundo. Enquanto os Beatles pagaram o preço do pioneirismo, passando mais de um ano com sucesso apenas na Inglaterra e só então estourando nos EUA e daí mundialmente, Oldham não perdeu tempo em preparar o terreno para os Stones no Novo Mundo, já a partir de contatos com artistas, produtores e empresários estadunidenses na Inglaterra e dos primeiros shows do grupo nos EUA em junho de 1964.
É verdade que outros artistas ingleses também trataram de criar raízes na Terra das Oportunidades, como a firma Seltaeb criada para o merchandising local dos Beatles e Larry Page negociando gravações de músicas de seus clientes Kinks por artistas estadunidenses como Bobby Rydell, Peggy Lee e Sonny & Cher. Mas Oldham foi mais fundo, a ponto de os LPs dos Stones lançados nos EUA serem mais bem cuidados que álbuns semelhantes dos Beatles, Kinks e outros grupos ingleses De 1964 a 1967 muitas gravações nos Stones foram feitas nos EUA e várias foram lançadas primeiro nesse país (em alguns casos até décadas antes de saírem na Inglaterra!) da Inglaterra, incluindo clássicos como “Satisfaction” e “Get Off Of My Cloud”.
E foi nos EUA que Jagger e Richards estrearam em paradas de sucesso como compositores, na gravação de “That Girl Belongs to Yesterday” pelo cantor Gene Pitney, que fizera amizade com Oldham e os Stones quando se apresentou na Inglaterra e Oldham atuou como seu assessor de imprensa. (Mais precisamente, esta estreia na Billboard coincidiu com a de Lennon & McCartney: “From Me To You”, regravada por Del Shannon, adentrou a parada na mesma edição da revista, de 18 de janeiro de 1964, quando fora da Europa Ocidental só os mais antenados tinham noção de quem eram esses tais Beatles.)
Oldham abriu as portas dos EUA para os Stones graças a Pitney e Phil Spector, outro ilustre artista de lá em passagem pela Inglaterra; mal chegado aos EUA, Oldham se enturmou com grandes talentos locais como o tecladista e arranjador Jack Nitzsche, que participaria de várias gravações dos Stones, e o produtor Bob Crewe, de quem alguns clientes gravaram composições dos Stones em primeira mão. E vejam só como é a famosa “teoria do pingue-pongue no pop-rock” de que sempre falo: enquanto os Stones tentavam soar como bluesmen de Chicago ou soulmen de Memphis, alguns artistas pop locais tentaram reagir ao estouro da beatlemania e à Invasão Inglesa assimilando o que pudessem de influências inglesas – inclusive solicitando a Oldham canções inéditas dos Stones! Oldham atendeu a vários pedidos, dizendo “aqui está uma canção dos Stones que eles não pretendem lançar.”
Notem que ele nunca disse “esta é exclusiva para vocês”, e ele não se avexou em presentear a mesma canção a mais de um artista. Três casos típicos foram “Blue Turns To Grey”, cedida a nada menos que três artistas, o grupo The Mighty Avengers na Inglaterra e a cantora Tracey Dey e a dupla vocal Dick & Dee Dee nos EUA; “Some Things Just Stick In Your Mind” foi outra doação para Dick & Dee Dee, enquanto era gravada simultaneamente pela cantora inglesa Vashti, cada artista nem sabendo do outro; e “I’d Much Rather Be With The Boys”, que o grupo inglês Toggery Five recebeu sem sequer imaginar que a cantora estadunidense Donna Lynn havia recebido e gravado a canção poucos meses antes.
PARTE 2: 1964
It Should Be You
Derivada do clássico de r&b “One Mint Julep” gravado pelos Clovers e por Ray Charles, esta foi a primeira composição de Jagger e Richards a chegar ao disco, mais precisamente um compacto da Decca, lançado em janeiro de 1964, na voz de George Bean, velho amigo de Oldham e que entrou para a “panela” dos Stones (consta que ele canta em dueto com Jagger na demo original de “That Girl Belongs To Yesterday”).
Will You Be My Lover Tonight
Este foi o outro lado de “It Should Be You”, e ninguém deu à mensagem deste rock-balada (“Você vai ser minha amante esta noite?”) a mesma atenção que daria a “Let’s Spend The Night Together” (“Vamos passar a noite juntos”) poucos anos depois. Ambas as faixas foram gravadas em 7 de dezembro de 1963 no Regent Sound, estúdio londrino bom-e-barato ótimo para gravar demos elaboradas o bastante para eventualmente servirem também como produtos finais.
Após este disco, George Bean fez algum sucesso como compositor de folk-rock (“Why Must They Criticise”), além de integrar o grupo Trifle (que incluiu Rod Coombes, futuro Strawbs e Rigor Mortis de John Entwistle); infelizmente, Bean faleceu em 1972.
Shang-a-Doo-Lang
Só os grandes aficionados de anos 1960 se lembram da cantora e atriz inglesa Adrienne Poster (que no meio da década mudou a grafia profissional para Adrienne Posta). Nascida em 1948, suas aparições em séries e dramatizações na televisão inglesa (além de canjas no grupo The Moments com um namoradinho chamado Steve Marriott) chamaram a atenção de Andrew Oldham, que conseguiu para ela um contrato na Decca. Seu segundo disco foi justamente esta homenagem aos “girl groups” de Phil Spector composta por Jagger e Richards. Oldham botou tanta fé na cantora e no disco que promoveu uma baita festa de lançamento – sim, foi onde Oldham e Jagger conheceram uma jovem chamada Marianne Faithfull.
Apesar de seus discos nunca terem visto a cara das paradas, Adrienne se deu bem como atriz, em filmes associados ao pop-rock inglês como Ao Mestre Com Carinho (com música de Lulu e os Mindbenders), Here We Go Round The Mulberry Bush (Traffic e Spencer Davies Group), Up The Junction (Manfred Mann) e Percy (os Kinks)..E ela continua trabalhando na televisão inglesa. (Ah, sim: ela gravou uma canção chamada “Backstreet Girl” que não é a mesma dos Stones.)
As Tears Go By
Ao contrário das duas cançonetas beat gravadas por George Bean, “As Tears Go By” tornou-se clássico pop absoluto. O sempre atento Andrew Oldham lançou Marianne Faithfull como uma resposta inglesa à intimista Françoise Hardy, e Marianne acabou sendo equivalente britânica de Nico e outras cantoras pop mais introspectivas e até sombrias.
O título original desta balada era “As Time Goes By”; Oldham assina parceria com Jagger e Richards, e sua contribuição foi mínima mas decisiva, mudando o título ao perceber que o original já havia sido usado numa canção dos anos 1930 popularizada em determinado filme estrelado por uns certos Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Lionel Bart, compositor de sucesso (não de rock, e sim musicais, especialmente o grande sucesso Oliver) que havia entrado para a “máfia” de Oldham, afirmou ter dado uma ajuda na letra, resumindo a feitura da canção como “um assunto de família”.
Oldham havia conseguido encaixar “As Tears Go By” no lado-B do primeiro disco de Faithfull. O lado-A previsto era “I Don’t Know How (To Tell You)”, uma valsa portentosa de Lionel Bart – por sinal, Oldham conseguira uma boa ajuda financeira de Bart prometendo-lhe o lado-A do primeiro disco de sua nova contratada; inclusive foi Bart quem financiou esta sessão de gravação, já que o lado-A do disco seria composição dele. Seria, mas não foi: na hora da gravação – feita ao vivo no estúdio, e sem ensaio prévio – percebeu-se que a canção nada tinha a ver com Marianne e ela não conseguiu cantar a contento. A saída de Oldham foi promover “As Tears Go By” para o lado-A e o maestro e arranjador Mike Leander improvisar um arranjo para o clássico de Britpop pré-histórico “Greensleeves” – que foi gravada duas semanas depois, já que Bart, generoso até a página seis, não financiaria mais uma sessão de gravação que não fosse de música dele.
Marianne Faithfull foi uma das primeiras a comentar que “As Tears Go By” parecia “música de Françoise Hardy”; curiosamente, um dos sucessos posteriores da própria Hardy, “Je Ne Suis Là Pour Personne”, lembra um pouco “As Tears Go By” – mais um exemplo de “pingue-pongue” no pop-rock. Por falar em França, “As Tears Go By” ganhou uma parte do meio (“middle-eight”) na versão em francês (“Puis Que Je Pense Encore A Toi”) lançada por Richard Anthony e regravada no Brasil por Jerry Adriani (“Não Tenho Ninguém”). E La Hardy logo voltará à nossa conversa.
That Girl Belongs To Yesterday
Como dissemos, Oldham fez tão bom trabalho na conexão Inglaterra-EUA – e os Stones estavam tão dispostos a entrar no mercado estadunidense – que a estréia de integrantes do grupo como compositores em paradas de sucesso deu-se nos EUA, quando “That Girl Belongs To Yesterday” foi gravada por Gene Pitney. Marianne Faithfull diz que os Stones fizeram o “Curso Intensivo de Composição de Gene Pitney”: eles apresentaram a Gene uma demo desta canção, ainda intitulada “My Only Girl”, ele mudou o título e mexeu em partes da letra e melodia.
Consta que na demo dos Stones Jagger canta em dueto com George Bean, que iria lançar a canção em disco, mas Oldham achou que ela teria mais futuro com o já consagrado Pitney. E, como sabemos, Pitney e os Stones se deram tão bem que ele participou das gravações do primeiro LP do grupo.
E Keith Richards deve cismar que sua primeira parceria com Mick Jagger foi “As Tears Go By” por nunca ter gostado muito de “That Girl Belongs To Yesterday”, como resumiu: “‘Essa garota pertence ao passado’? Pertence mesmo. Eu sei porque fui em quem a compus.”
You Must Bte The One
Cançoneta beat derivada de “Fortune Teller” de Allen Toussaint (que, por sinal, também foi gravada pelos Stones) e lançada em disco pelos Greenbeats, banda irlandesa tentando a sorte na Inglaterra. A música saiu no lado-B de um de seus compactos, em novembro de 1964, completando um quarteto de discos fracassados do grupo para a gravadora Pye; alguém (provavelmente Oldham) conseguiu que “You Must Be The One” fosse editada nos EUA em junho de 1965 (pelo selo Jerden), quase um ano depois, mas também sem sucesso.
Give Me Your Hand
Tanto a canção quanto seu lançador, Teddy Green (em março de 1964), voaram rapidamente para o esquecimento. A esta altura Jagger e Richards já compunham canções no estilo Beatle tão bem quanto os próprios Beatles dois ou três anos antes. “Give Me Your Hand” tem algum interesse para grandes fãs de “Love Me Do”, “I’ll Get You” ou “From Me To You”, mas no começo de 1964 os Beatles já estavam avançando em termos de composição de música popular, até mesmo com canções baseadas no r&b como “Can’t Buy Me Love”.
Diz o folclore que “Give Me Your Hand” foi composta especialmente para ser lançada pelos... Beatles, como retribuição por “I Wanna Be Your Man”, mas eles teriam polidamente recusado, e não sem bons motivos.
So Much In Love
Simpática canção buddyholliana lançada pelos Mighty Avengers e que inspirou outras gravações, como a do Herd e, mais recentemente, The Lonely Boys, grupo solo de Per Gessle, a metade masculina da dupla sueca Roxette.
All I Want Is My Baby
Mais que incentivar os Stones a compor, Oldham chegou a escrever algumas canções em parceria com o Stone mais produtivo, Keith Richards. Um dos resultados foi esta imitação dos Beach Boys imitando Phil Spector e como tal uma mistura – até no título – de “Be My Baby” com “Don’t Worry Baby”. Oldham confessou que a introdução é baseada em “Rag Doll” dos Four Seasons – que por sua vez também lembra “Be My Baby”. Não foi à toa que Oldham caiu nas graças de Bob Crewe (produtor dos discos dos Four Seasons) a ponto de este produzir algumas gravações de canções de Oldham e Richards por artistas locais.
“All I Want Is My Baby” foi lançada por outro cantor dos EUA de passagem pela Inglaterra, Bobby Jameson, mas não fez sucesso algum. Uma das pessoas que não gostaram da canção foi o próprio Jameson, apesar de seu esforço na hora de cantar sobre o acompanhamento previamente gravado. “Há alguma controvérsia sobre o solo de guitarra ter sido tocado por Jimmy Page ou Keith Richards”, comenta Jameson. “Minha opinião é de que é Page, que Oldham havia pego emprestado de um grupo chamado The Poets.” A gravação do vocal, segundo Jameson, foi um trabalho de parto, “Fiz sinal pra Andrew [Oldham] parar a fita para eu falar com ele, e o estúdio ficou em silêncio. ‘Algum problema, Bobby?’, ele perguntou. ‘Olha, Andrew, eu não acho que este seja meu tipo de música. Eu não poderia te mostrar alguma coisa que eu compus para você ter uma ideia de como eu canto?’ Ele olhou para mim e disse ‘Não, não estou interessado em ouvir tuas músicas no momento. Quero que você se concentre nesta canção e cante bem, porque eu sei que você pode.’” lembrou Jameson. No fim conseguiram um resultado aceitável, com a ajuda de Jagger e Oldham nos vocais de fundo.
Each and Every Day of The Year
Na mesma sessão Jameson gravou outra obra de Jagger e Richards, a mais elaborada “Each And Every Day Of The Year”, tão diferente quanto possível de “All I Want Is My Baby” – e bem melhor, embora menos comercial. Ambas as gravações saíram no mesmo disco da Decca em novembro de 1964, e nada aconteceu. No mês de março seguinte a canção ganhou segunda chance com o grupo Thee, também na Decca.
Anos depois, Jameson conseguiu ainda outro fracasso por associação, gravando duas composições próprias com arranjos de Frank Zappa, “Reconsider Baby” e “Gotta Find My Roogalator”. E o rebuscado acompanhamento instrumental da gravação de Jameson de “Each And Every Day” foi o mesmo usado na demo dos Stones que está no álbum Metamorphosis.
Congratulations
Para sermos rigorosos, esta boa e simples (não simplória) balada beat foi lançada pelos próprios Stones em LP e compacto em 1964, mas somente nos EUA, esperando quase dez anos para sair na Inglaterra numa daquelas muitas coletâneas. Na velha Albion a canção foi lançada por um grupo chamado West Five, cuja interpretação é boa – exceto o solo de guitarra (ouçam e depois não digam que não avisei). O disco deu em nada, mas a banda fez algum sucesso anos depois com nova formação e nome, The Ferris Wheel.
Blue Turns to Grey
Valeu o esforço: os Srones não tardaram a apresentar composições de qualidade, e esta é uma delas, como atestam as muitas regravações; talvez a melhor, certamente a de mais sucesso, tenha sido a de Cliff Richard, e sei que não sou a única pessoa a aguardar ansiosamente pela gravação de Françoise Hardy, feita em 1969 e ainda inédita.
A maioria dos artigos e livros sobre os Stones diz que “Blue Turns To Grey” foi lançada pelo grupo inglês The Mighty Avengers ou pela dupla vocal californiana Dick & Dee Dee. Mas após alguns dias de entrevistas e mergulhos nas Billboards da vida, posso anunciar: a honra coube à cantora novaiorquina Tracey Day, injustamente obscura e lembrada no Brasil apenas como a lançadora de “Teenage Cleopatra”, regravada por Meire Pavão como “Cleópatra”. A gravação de “Blue Turns To Grey” por Tracey foi um dos dois resultados concretos da já mencionada amizade de Andrew Oldham com o produtor Bob Crewe, e saiu no comecinho de janeiro de 1965, pelo menos um mês antes do disco dos Mighty Avengers – e pelo menos algumas semanas antes da gravação de Dick & Dee Dee, que usou o mesmo acompanhamento instrumental dos Mighty Avengers, produzido por Oldham na Inglaterra (e, segundo alguns, com participação de pelo menos alguns dos Stones).
Dick & Dee Dee faziam sucesso nos EUA, mas com a Invasão Inglesa de 1964 resolveram se “modernizar” com influências britânicas; Dick, achou que os Stones seriam uma boa conexão, e tão empreendedor quanto Oldham, engraçou-se com ele e pendurou-lhe na orelha pedindo composições dos Stones. Oldham, para ao mesmo tempo atender o pedido e se livrar dessa peste, acabou cedendo à dupla os playbacks de “Blue Turns To Grey” e “Somethings Just Stick In Your Mind”, avisando “nem sei se os tons são os mesmos de vocês”, e Dick respondeu “não se preocupe, daremos um jeito”. E deram, mas as canções (lançadas no mesmo compacto) não fizeram sucesso.
Este que vos escreve, ao entrevistar pela primeira vez Wanderléa nos anos 1990, perguntou sobre ela ter gravado versões dos Seeds e Monkees e ela respondeu que nem sabia disso, “os produtores vinham com a versão pronta para a gente gravar”. Isso vale para artistas de todo o planeta, inclusive Tracey Day, conforme ela disse agora em 2009 a este mesmo que vos escreve: “Faz muito tempo… Lembro-me de ter ouvido uma porção de canções enviadas a meu produtor, Bob Crewe, que também produzia os sucessos dos Four Seasons na época. Eu estava me aprontando para uma nova sessão de gravação, ouvi esta música e adorei. Achei que ela tinha jeito de blues e um pouco de country. Também adorei a ideia de ela ter sido composta por Keith Richards.”
Temos aí mais um reconhecimento de que, apesar de Brian Jones ter fundado os Stones e Mick Jagger aparecer mais por ser o vocalista, Keith Richards foi, e ainda é, seu grande criador. Detalhe: o parceiro de “Blue Turns To Grey” creditado nas primeiras gravações é Andrew Oldham, não Mick Jagger como nas seguintes, inclusive a dos próprios Stones, que inclusive mudaram um pouco o refrão. Outra coisa que muda conforme as edições é a grafia do título: “Grey”, com “e”, segundo a ortografia inglesa, ou “Gray”, com “a”, mais usual nos EUA.
Wastin' Time
Os Stones sempre gostaram não só de blues, mas também de country, inclusive o blues rural. “Wastin’ Time” é uma inofensiva valsinha meio caipira lançada em outubro de 1965 pelo comediante inglês Jimmy Tarbuck, e a demo dos Stones foi aproveitada no disco Metamorphosis com título “We’re Wastin’ Time”.
(Walkin' Thru The) Sleepy City
Outra demonstração do apreço dos Stones por música rural; apesar da marcação marcial de uma batida por tempo e o começo da melodia lembrarem o sucesso “Have I The Right” dos Honeycombs, o arranjo sugere música de filmes de faroeste – imagine Phil Spector produzindo algo assim. “Sleepy City” foi lançada pelos Mighty Avengers em julho de 1965. “Gravamos numa tomada só, com pelo menos 40 músicos de estúdio e produção com tudo que se possa imaginar”, lembrou o guitarrista Tony Campbell. A gravação não fez o sucesso esperado e merecido, e o grande público dos Stones só tomou conhecimento da canção com a demo dos Stones incluída no LP Metamorphosis.
Some Things Just Stick in Your Mind
Jagger e Richards tentaram de tudo: merseybeat, pop spectoriano, balada romântica, r&b, country e folk. “Some Things Just Stick In Your Mind” foi uma incursão pelo folk, que na primeira metade dos anos 1960 fazia muito sucesso, bastando lembrar Bob Dylan, Peter, Paul & Mary, Trini Lopez e Barry McGuire, para não falar em outros exemplares ingleses como “Colours” de Donovan, “You’ve Got To Hide Your Love Away” dos Beatles e “A Well-Respected Man” dos Kinks e no folk-rock dos Byrds e outros. Oldham cedeu “Some Things” à cantora folk inglesa Vashti Bunyan e à citada dupla californiana Dick & Dee Dee; a gravação da dupla foi lançada meses antes da de Vashti. Curiosamente, Vashti soa como precursora do folk-rock suave de Mary Hopkin.
I'd Much Rather Be With The Boys
Ao lado de “Blue Turns To Grey”, esta é outra boa composição dos Stones lançada primeiramente nos EUA por artista local com produção de Bob Crewe. O grupo de Manchester Toggery Five passou décadas pensando que “I’d Much Rather Be With The Boys” foi dada a eles por Oldham com exclusividade. Quando eles gravaram a canção no estúdio Abbey Road em 21 de janeiro de 1965, mal poderiam imaginar que a cantora estadunidense Donna Lynn havia feito sua gravação (como “I’d Much Rather Be With The Girls”) do mesmo tema em 16 de novembro; o disco de Donna saiu dias mais cedo que o dos “Toggs”.
Donna Lynn havia feito algum sucesso com “My Boyfriend’s Got A Beatle Haircut”, mas esta gravação de “I’d Much Rather Be”, embora excelente, deu em nada. “Eu só fui saber desta gravação de Donna Lynn faz poucos anos, quando meu amigo Olaf Owre, da Noruega e também jornalista musical, contou-me a respeito”, conta Frank Kershaw (também conhecido como Frank Young) a este que vos tecla. “Parece que a versão de Donna Lynn também saiu em 1965, quando saiu a nossa. Não sei onde e como ela a conseguiu. Só sei que o Toggery Five estava fazendo uma sessão de fotos, na laje do escritório de Andrew Loog Oldham em Londres. Ele era amigo da pessoa que fotografava. Começamos a conversar com Oldham, e ele disse ‘êi, estou com esta demo dos Stones com esta canção, mas eles não querem lança-la, acham que não iria adiantar em nada para a imagem deles’. Oldham nunca nos contou que já havia dado a canção para outra pessoa, de modo que por todo esse tempo eu nunca fiquei sabendo.”'
As três primeiras notas da melodia (“here I am”) lembram o começo da parte do meio de “A Hard Day’s Night” (“when I’m home”); por sua vez, a melodia da parte do meio de “I’d Much Rather” foi reciclada para o refrão de “Waiting On A Friend”, sucesso dos Stones de 1981.
PARTE 2: 1966
Think
Até 1965 menos da metade dos álbuns dos Stones era de obras compostas pelo grupo, e o primeiro LP de 1966, Aftermath, foi uma bela surpresa, só de composições próprias – embora nem todas fossem estritamente inéditas. Ao lado de Rubber Soul, Revolver e Face To Face, Aftermath completou a quadra de álbuns que se revelaram grandes mananciais de canções regraváveis por outros artistas, muitas vezes com sucesso.
Dissemos que nem todas as canções de Aftermath eram inéditas porque algumas foram presenteadas para serem lançadas por outros (inclusive algumas estrearam no primeiro LP solo de Keith Richards, The Aranbee Pop Symphony Orchestra). “Think” (bastante influenciada por Rubber Soul) é uma delas, lançada pelo cantor Chris Farlowe, um dos primeiros contratados da Immediate, gravadora fundada por Oldham.
Take It or Leave It
Para continuarmos sendo rigorosos (afinal, é a Senhor F), esta canção (levemente inspirada em “King Of Clowns”, sucesso de Neil Sedaka, até no arranjo espanholado e no “lalalá” do refrão sem palavras) foi lançada no já citado primeiro álbum-solo de Keith Richards (The Aranbee Pop Symphony Orchestra, ideia de Oldham para promover Keef como o “cabeça” e diretor musical dos Stones – o que ele era mesmo), que passou despercebido a ponto de a canção poder ser considerada inédita ao ser presenteada por Richards aos Searchers.
Segunda banda mais importante de Liverpool e a única que não parou de fazer shows desde os anos 1960 até hoje, os Searchers iniciaram 1966 no fim de sua onda de popularidade. O saudoso Chris Curtis, baterista, principal compositor e líder de ideias do grupo, estava cada vez mais distante dois outros integrantes, devido a uma combinação de inquietude criativa e excesso de pílulas – além do desgosto de fazerem shows em vários países com os Stones e a plateia não esconder que preferia estes últimos. “Dá para imaginar uma escalação mais absurda que os Rolling Stones junto com os Searchers?”, lembrou Curtis. “A gente não podia competir com Mick Jagger ou Keith Richards. Eles sabem lidar com a plateia, de modo que ela cantava ‘We want the Stones’ durante nossa apresentação, e eu não pude suportar isso. Gostei de ficar com Keith porque ele tocando violão é um sonho, maravilhoso, coisa que a gente não conseguia fazer. O sucesso dos Stones deve-se a ele. As letras de Mick Jagger costumam ser bem estúpidas mas eles sempre capricham no acompanhamento instrumental. Keith me pediu para experimentar ‘Take It Or Leave It’.”
Frank Allen, guitarrista dos Searchers, complementa a este que vos escreve: “Os Stones haviam acabado de gravar o álbum Aftermath e o mostraram a Chris Curtis, que andava com eles mais que nós. Não havia muita comunicação com Mick, Keith ou Brian, embora eu tenha passado tempo com Charlie e Bill. Não foi culpa deles. Nós estávamos um tanto isolados e inseguros, pois nossa carreira havia caído um pouco. Chris achou que ‘Take It Or Leave It’ daria um bom compacto para nós. Quando voltamos à Inglaterra ele saiu do grupo. Resolvemos seguir o plano de experimentar a canção com John Blunt, sucessor de Chris, à bateria. O resultado final foi muito agradável e cativante.” De fato, “Take It Or Leave It” foi o penúltimo sucesso dos Searchers nos anos 1960 – e se tornmou o maior sucesso do grupo na Holanda. “Ainda gostamos da canção e a tocamos de vez em quando”, diz Frank Allen.
Sittin' On a Fence
Esta canção country foi outra lançada quase em segredo no LP da Aranbee Pop Symphony Orchestra (que, aliás, era todo instrumental); fora isso, a primeira gravação a chegar às ruas foi com a dupla vocal inglesa Twice As Much, em maio de 1966, e fez algum sucesso.
Out of Time
Embora a estreia em disco desta canção tenha sido no LP Aftermath, a regravação de Chris Farlowe merece ser incluída aqui por ter sido supervisionada por Mick Jagger. Por sinal, esta gravação chegou ao primeiro lugar no hit-parade inglês.
Em 1975, aconteceu na Inglaterra um fato curioso, que se fosse programado não daria certo: saíram às ruas nada menos de cinco discos com versões diferentes de “Out Of Time”. A saber: o relançamento da gravação de Farlowe; a demo dos Stones (com o mesmo acompanhamento instrumental de Farlowe); uma versão reggae com Johnny Wakelin; outra mais pesada com Don McCafferty, vocalista da banda escocesa Nazareth; e uma interpretação acidental do cantor Kris Ife.
Acidental? Kris explicou a este repórter: “Foi estranho o jeito como cheguei a gravar ‘Out Of Time’. Um amigo meu, J. Vincent Edwards, tinha agendado uma sessão para Maxine Nightingale, assim como um acompanhamento instrumental de ‘Out Of Time’ no tom de Maxine, mas ela acabou não gravando a canção. Me perguntaram se eu colocaria a voz, e coloquei. O tom dela nada tinha a ver comigo, e eu fiquei realmente surpreendido por eles terem lançado essa gravação em disco.”
I am Waiting
Em meados dos anos 1960 Kris Ife integrou uma banda, The Quiet Five, que regravou outra composição do disco Aftermath, “I Am Waiting”. “Participamos de duas das excursões dos Stones, de modo que eles nos conheciam muito bem. Acho que foi Mick quem sugeriu que gravássemos ‘I Am Waiting’, então ele a deu para nosso empresário, que por sua vez a deu para Ron Richards [produtor dos discos do grupo]”, conta Kris.
Kris Ife seguiu em frente escrevendo versões para gravações européias de cantoras como Nicole Croisille e Petula Clark, e acaba de montar uma banda, The Beaver Street Hatband, com o citado J. Vincent Edwards. Mais detalhes em < http://www.kollektionist.net/Krisife/ >.
Ride on Baby
A produtividade dos Stones em 1965-66 foi muito além das faixas de Aftermath e de “Have You Seen Your Mother Baby”, “Paint It Black” e outras faixas de compactos contemporâneos; quase todas as composições do grupo nesse período foram gravadas e lançadas em discos do próprio mais cedo ou mais tarde, embora algumas estreassem em lojas na interpretação de outros. Outro bom exemplo é o que citamos no começo desta odisséia: “Ride On Baby”, que antes de aparecer no LP Flowers dos Stones fez sucesso com Chris Farlowe.
PARTE 3: 1967 A 1969
Back Street Girl
Hoje para lá de obscuro, o cantor Nicky Scott teve uma dupla com a cantora negra Diane Ferraz, no tempo em que duplas interraciais eram raridade. Sua gravação da bela valsa “Back Street Girl”, do LP Between The Buttons, foi lançada no mesmo dia que este LP (do qual, segundo Jagger nos anos 1970, esta é a única boa canção).
She Smiled Sweetly
Outra do LP Between The Buttons, com uma regravação praticamente simultânea, com o grupo The Love Affair. “Tínhamos dois empresários que na época trabalhavam para a Decca”, contou Steve Ellis, vocalista do Love Affair, a este que sempre vos lembra quem teclou. “Eles apareceram nos ensaios com essa gravação e sugeriram que a gravássemos para um compacto. Foi produzido por Mike Vernon, famoso pelo selo Blue Horizon, mas ficou no tom errado e o resultado foi bem horroroso, mas a gravadora pareceu satisfeita, embora a banda não tenha ficado. O disco fracassou e cópias agora vendem no E-Bay por até cem libras quando aparecem.”
Sister Morphine
De acordo com Marianne Faithfull, Mick Jagger teve a idéia da melodia em 1967 durante uma temporada em Roma com Faithfull, Keith Richards e Anita Pallenberg, e se encantou com ela a ponto de ficar cantarolando-a meses a fio. “Chegou a um ponto em que se ninguém colocasse uma letra teríamos que ficar ouvindo a melodia pelos dez anos seguintes”, comentou Marianne. “Alguém tinha que colocar uma letra, e acho que Mick estava esperando que fosse eu.” De modo que esta se tornou a estreia de Marianne como compositora, e ela resolveu fugir do lugar-comum escrevendo uma letra sobre os últimos momentos de um paciente de hospital para quem a morfina alivia a dor. A inspiração veio de mais uma viagem de Jagger, Faithfull, Richards e Pallenberg; esta, grávida de Marlon, teve um grande sangramento e entrou em pânico; foi preciso que o médico a acalmasse injetando-lhe morfina, e Richards depois comentou “uau, você conseguiu um pico de morfina!”
A canção foi lançada pela própria Marianne, e sua gravação (com participação de Mick Jagger e Charlie Watts) saiu no lado-B da mais otimista e positiva “Something Better”; mesmo assim a gravadora se arrependeu e recolheu o disco apenas dois dias após o lançamento. Os próprios Stones regravaram a canção e a lançaram anos depois em Sticky Fingers; a faixa foi proibida em países como Espanha e (na segunda tiragem do disco) Brasil, mas não nos EUA e Inglaterra. “Pode ser sido o timing, ou porque os Stones eram homens”, comenta Marianne.
Boa parte da renda de Faithfull, em sua pior época de junkie, veio dos direitos autorais de “Sister Morphine”. Mas a canção saiu creditada somente a Jagger e Richards na edição estadunidense do compacto de Marianne e nas primeiras tiragens de Sticky Fingers. “Foi a humilhação máxima”, disse Faithfull, que colocou a boca no mundo; Allen Klein, novo empresário dos Stones, explicou que ela recebia direitos autorais do mesmo jeito, mas não crédito nos discos, devido a uma briguinha entre Klein e o então empresário e editor de Marianne. O piratão Keith interveio e Marianne ganhou crédito nos discos a partir da negociação seguinte do contrato dos Stones com gravadoras. Por sinal, Jagger afirmou que Faithfull compôs apenas trechos da letra (“Cousin Cocaine”) e não só ela dizia ter composto toda a letra, mas vivia reclamando que a canção nunca lhe rendia o suficiente. Bem, eles que são ingleses, e de famílias ricas, que se entendam.
PARTE 4: ANOS 1970 EM DIANTE
Após a febre de atividade construindo a carreira de 1963 a 1967, fazendo shows à noite, gravando à tarde ou madrugada, compondo a qualquer hora, os Stones ganharam o direito de produzirem menos e ganhar mais; diminuíram as quantidades de shows, discos e canções novas. Mas de vez em quando continuaram pipocando composições dos Stones lançadas por outros.
Wild Horses
Os Stones, grandes fãs de country music, acabaram ficando amigos do pessoal do grupo estadunidense Flying Burrito Brothers, que inclusive participou do show em Altamont promovido pelos Stones e ganhou deles uma canção inédita, “Wild Horses”. Gram Parsons, o saudoso guitarrista dos Burritos, pensou até o fim que a canção foi inspirada nele, o que Keith Richards negou, dizendo ter sido composta sobre a dor de, gravando e fazendo shows nos EUA, deixar em Londres seu filho, Marlon, e a mãe dele, Anita Pallenberg. A gravação dos Burritos saiu no LP Burrito DeLuxe, em 1970, meio ano antes de Sticky Fingers.
Silver Train
O guitarrista texano de blues-rock Johnny Winter nunca escondeu ser fã dos Stones; consta que eles compuseram “Silver Train” em 1970 especialmente para ele, inclusive no título, “trem de prata”, alusão à sua condição de albino, totalmente incolor na pele e cabelo. A gravação de Winter desta canção saiu no LP Still Alive And Well, meses antes do disco Goat’s Head Soup dos Stones, que inclui a dita, e ambas as versões saíram também em compactos.
Act Togheter / Sure The One You Need
Em 1974 Ron Wood estava a um passo de se tornar um Rolling Stone, e seu primeiro disco-solo, I’ve Got My Own Album To Do, incluiu dois presentes de Jagger e Richards, a balada “Act Together” e o rockão “Sure The One You Need”. J&R também participam do disco, ao lado de Rod Stewart e outros companheiros de Woody no grupo Faces e de George Harrison.
Zulu Warrior
Se você for à África do Sul, não ficará mal usar uma cabeleira afro. John Phillips, após passar a segunda metade dos anos 1960 fazendo com os Mamas & Papas uma síntese de folk, music-hall e Beatles, na década seguinte resolveu experimentar com outros ritmos e ambientes. Em 1976 ele chegou a gravar um LP inteiro com produção de Jagger e Richards, incluindo uma parceria com Jagger, “Zulu Warrior”, uma ode à raça negra – ao que consta a única composição engajada de John Phillips. Dizem que Phillips estava ainda mais afundado nas drogas que J&R, de modo que a canção seria mais deles que dele. O disco (intitulado Pay, Pack & Follow) só foi lançado em 2001, após a morte de Papa John.
High Roller
Este rockão lançado pelo guitarrista Leslie West em seu LP The Great Fatsby (1975) precisou de um time de futebol, composto em parceria de West com Jagger e Richards, Corky Laing (companheiro de West no West, Bruce & Laing) e Sandra Palmer. Curiosamente, a seqüência de acordes é a mesma de “Oh Baby (We Got A Good Thing Goin’)” de Bárbara Lynn Ozen, gravada pelos Stones em 1965. O próprio West definiu a composição como “’Brown Sugar’ ao contrário”.
Better Days
Bela balada soul, lembrando “That’s How Strong My Love Is” e outras regravadas pelos Stones (além de composições do grupo como “Heart Of Stone” e “No Use In Crying”). Jagger quase lançou a canção (composta com o guitarrista Jimmy Rip) em seu álbum Wandering Spirit, mas acabou cedendo-a a King Ernest, que a lançou no CD King Of Hearts, em 1995.
Just Wanna Hold
Rock simples e funcional em parceria com Mick Jones, fundador da banda Foreigner e autor de composições lançadas por artistas como Johnny Hallyday e a nunca demais citada Françoise Hardy, além de participar de discos de George Harrison e ter integrado o Spooky Tooth e a banda de Leslie West. “Just Wanna Hold” fez sucesso ao ser lançada em 1989, e está assinada por Jones em parceria com Ian Hunter e “M. Philips” – nada a ver com Papa John, e sim com o nome completo de Michael Philip Jagger.
Tanqueray
Falamos sobre Keith Richards querer apertar um botão e virar Chuck Berry. Bem, ele chegou a participar de discos e shows com seu herói, e em 1991 deu uma canja em Johnnie B. Bad, álbum de Johnnie Johnson, o saudoso pianista de Berry (e talvez a maior influência sobre o pianista inglês Nicky Hopkins), inclusive compondo com ele o blues “Tanqueray”.
…On With The Show
Voltaremos (espero que logo) falando sobre as composições de Bill Wyman lançadas por outros, que merecem um estudo à parte. Ride on, baby...
Agradecimentos
Aos pesquisadores: Mauricio Watts Lhamas, Phil X. Milstein, Olaf Owre.
Aos artistas entrevistados: Frank Allen (dos Searchers), Frank Kershaw Young (do Toggery Five), Steve Ellis, Tracey Dey, Kris Ife.
Aos contatos: Ronnie Allen (http://www.jerseygirlssing.com/RonnieAllen.html), Wendy Burton (do fã-clube It’s The Searchers www.the-searchers.co.uk).
Fontes que vale a pena você consultar também
Livros
THE ROLLING STONES, editado por David Dalton (Inglaterra, 1972)
THE ROLLING STONES CHRONICLE, Massimo Bonnano (Inglaterra, 1990)
THE ROLLING STONES – AN ILLUSTRATED RECORD, Roy Carr (Inglaterra, 1976)
THE ROLLING STONES: BLACK AND WHITE BLUES, 1963, David Hinckley, Debra Rodman e Gus Coral (EUA, 1995)
ROLLING STONES IN THEIR OWN WORDS, editado por David Dalton e Mick Farren (Inglaterra, 1985)
MICK JAGGER – PRIMITIVE COOL, Christopher Sandford (Inglaterra, 1988)
JAGGER – UNAUTHORIZED, Christopher Andersen (EUA, 1993)
STONE ALONE: THE STORY OF A ROCK AND ROLL BAND, Bill Wyman (Inglaterra, 199.)
STONED: A MEMOIR OF LONDON IN THE 1960s, Andrew Oldham (Inglaterra, 1998)
FAITHFULL – AN AUTOBIOGRAPHY, Marianne Faithfull e David Dalton (EUA, 1994)
THE BRITISH INVASION, Nicholas Schaffer (EUA, 198.)
ENCYCLOPEDIA OF e Mick Farren (Inglaterra, 1980)
Páginas na internet
Rolling Stones Database http://www.nzentgraf.de/books/tcw/
http://timeisonourside.com
* Ayrton Mugnaini Jr. é jornalista, pesquisador musical e um dos maiores especialistas em rock da imprensa brasileira.