A encruzilhada dos 'Guidis'
* Carlos Pinduca

A banda gaúcha Superguidis lançou nesta semana um single, composto por três músicas, que abre as portas para a chegada do seu terceiro disco, em março, pela gravadora Senhor F. Já tinha escutado algumas das novas canções nos shows que eles fizeram em Brasília no ano passado, mas não havia conseguido “interiorizá-las” ainda. Geralmente, preciso de mais de uma audição, de preferência no aconchego do meu lar, para sacar o que uma composição oferece aos meus ouvidos (que frescura, né?).

O fato é que os Superguidis são uma banda suficientemente relevante para que a chegada de um disco gere uma certa expectativa e seja fruto de comentários entre seus admiradores (nos quais me incluo), principalmente aqui em Brasília, espécie de segunda casa dos gaúchos de Guaíba. Dona de dois ótimos discos (com destaque para o primeiro) e de shows arrasadores, a banda conta com uma dupla de compositores-guitarristas inspirados, uma cozinha pra lá de competente e um vocalista com afinação e timbre foras de série. Pela amostra que ouvi nos shows e do que saquei agora pelo single, está clara a intenção de dar novos rumos ao som e chacoalhar um pouco a fórmula “cozinha reta e guitarras entrelaçadas influenciadas por Guided by Voices e Pavement”, que orientou os dois primeiros álbuns da banda. Agora, as referências parecem mais amplas, englobando desde canções levadas ao violão até um lado mais esporrento do grunge (talvez a maior influência do vocalista/compositor Andrio Maquenzi).

O single é composto de duas músicas inéditas – “Não Fosse o Bom Humor” e “Visão Além do Alcance” – e uma versão acústica de “Malevolosidade”, hit do primeiro disco da banda. Se em uma primeira escutada, as canções inéditas parecem não se diferenciar tanto assim das músicas dos discos anteriores, mais atentamente pode-se obter pistas significativas para algumas mudanças no som da banda.

“Não Fosse o Bom Humor”, num antagonismo com o título, parece trazer uma letra mais séria, deixando para trás a ironia juvenil e pra cima dos álbuns anteriores. O som também parece mais direto, num jogo de guitarras um pouco menos torto a la Stephen Malkmus e mais “superfuzz bigmuff”. Os riffs espertos, certeiros e pegajosos, tão característicos dos Guidis, continuam lá guiando a música, mas um pouco menos na cara.

Já “Visão Além do Alcance” traz o lado baladeiro já revelado em canções dos álbuns anteriores, como “O Banana” e “6 Anos”. A música se inicia com um bordão puxado de guitarra, numa afinação que parece ser na nota Ré (em vez do tradicional Mi) – para quem não conhece, vale explicar: a banda é “mestra” em mudar afinações – e os instrumentos entram em seguida, compondo o tradicional entrelace sonoro dos Guidis. Um ataque de toda a banda anuncia a estrofe, que é cantada sobre uma base meio “solta”. O chão da música volta entre as estrofes e se reforça no refrão. Quando se acha que pegou a música, ela nos surpreende com a entrada de cordas onde normalmente seria o solo de guitarra.

A versão acústica de “Malevolosidade” vem para provar a popularidade da banda no underground: a partir da segunda estrofe, quem canta é a platéia, que leva a música até o fim. Aficcionados por música independente que são, os Superguidis recorrem à escola indie para manter de forma criativa e irreverente na mesma faixa tanto os aplausos e a conversa com o público quanto uma segunda versão da música, desta vez cantada de cabo a rabo pelo vocalista Andrio.

De fato, os Superguidis conseguem unir qualidade e (potencial de) popularidade, algo raro no rock brasileiro atual. No entanto, o que parece ser o melhor dos mundos à primeira vista, acaba colocando a banda numa encruzilhada. O problema é que talvez eles precisem ampliar o seu público para se profissionalizarem (no sentido financeiro e prático da coisa). Bala na agulha e carisma para isso o grupo tem de sobra, mas talvez precise fazer certas concessões para penetrar no duro jogo do mercado musical.

Por outro lado, podem negar a crueza do mercado e se fixar somente na música. Mas, caindo na realidade, até quando uma banda consegue se manter junta sem retorno financeiro? Ainda mais jovens como são, a tendência é que as futuras profissões ditem os rumos de suas vidas, caso deixem a música somente como hobby.

Obviamente, há uma terceira via, mais honesta talvez, que faz com que uma banda “vença” pela consolidação de sua obra. Então, o que restaria seria ter paciência, tranqüilidade e ir lançando os discos de forma despretensiosa até que a coisa tome pernas. Mas, sinceramente, acho que isso quase tão raro e imprevisível quanto ganhar na loteria. Até porque uma banda é composta por vários membros (os Guidis são quatro), que tendem a mudar seus desejos e necessidades ao longo dos anos.

Ainda não ouvi o terceiro disco inteiro do Superguidis e não sei para que lado, ao certo, apontam as mudanças que senti no single. Estarão eles mais pops ou mais herméticos? Mais sérios ou conservarão um pouco da sua ironia juvenil? E de onde viria exatamente essa mudança: de uma necessidade interior ou de algo mais direcionado para o mercado? Pelo que conheço dos caras, sempre me chamou a atenção em seus perfis apenas uma boa e salutar ambição artística – nunca financeira ou mercadológica. Por outro lado, o verso que fecha, de forma meio melancólica, a música “Visão Além do Alcance” talvez entregue um pouco do dilema vivido pela banda neste momento: “Com tanto artifício assim, é difícil ser você mesmo”.

Do meu lado, torço para que os Superguidis continuem sendo eles mesmos - embora saiba que a batalha seja dura.

* Carlos Pinduca é músico e jornalista e publica o blog Pinduca's Blog, desde Brasília.

 
 
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