Um disco de Caetano Veloso merece uma espécie de “revisão” histórica sobre seu papel na discografia nacional. 

No caso, “Bicho”, lançado em 1977, e criticado à época, apesar do sucesso de Odara, Tigresa, Um índio e Leãozinho, especialmente.

Na reedição em formato CD, o disco é apresentando como um dos álbuns “mais controvertidos de Caetano na década de 70”.

Em plena ditadura, às vésperas da anistia, a primeira faixa do disco, Odara, pregava “deixa eu dançar / pro meu corpo ficar odara”, soando como uma provocação.

Esta “versão” do disco é a que ficou para a história, na época acusado de descompromisso por seu clima de descontração estética e política.

O verdadeiro “Bicho”

O tempo, no entanto, se encarregou de revelar a verdadeira essência de “Bicho” e, hoje, reposicionar o disco histórica e culturalmente.

Na verdade, “Bicho” é resultado da conexão de Caetano com a África – e seus ritmos modernos-, “descoberta” In loco pelo baiano em 1977.

Nesse ano, à convite de Gilberto Gil, Caetano participou do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra, em Lagos, na Nigéria.

“Passei 12 dias na Nigéria curtindo o Festival de Arte Negra. Agora vou lançar um disco para todo mundo dançar. Eu acho bacana essa coisa de dançar, gosto muito”, disse Caetano ao Jornal do Brasil, na época.

“Talvez eu não seria capaz de fazer esse tipo de música muito bem, mas pensando bem, esse não é um disco para dançar, só feito por alguém que gosta de dançar. Entendeu?”

“Na África, as pessoas dançam e isso é bacana“, conclui Caetano, falando da música africana que juntava, ao mesmo tempo, dança e discurso político anticolonialista.

Trecho de documentário sobre o Festival de Arte Negra, na Nigéria

O festival foi considerado o maior evento cultural da mobilização dos povos africanos por independência do colonialismo europeu.

Gil liderou a delegação musical brasileira, acompanhado de João Donato, Perinho Santana, Djalma Corrêa, Robertinho Silva, Rubão Sabino , e Paulo Moura e banda.

A representação brasileira foi patrocinada pelo Departamento Cultural do Ministério de Relações Exteriores e pelo Ministério da Cultura, o que deve ter aumentado o “cancelamento” do disco.

Na época, o então governo do general Ernesto Geisel apostava nas relações diplomáticas e econômicas com a África, após reconhecer os governos revolucionários de Angola e Moçambique.

Assim como o mundo, Caetano sofreu a influência da moderna música pop africana, em especial a juju music, de King Sunny Ade (ouça acima) entre outros, e o highlife.

Como diz o texto da contracapa da reedição digital, aquela sonoridade que impactou Caetano, era o início da world music que uma década depois ganhou o mundo. 

Hoje, o disco de Caetano deve ser ouvido como um passo importante para a aproximação musical do Brasil com o continente africano, uma relação ainda em construção.

Outro bloco do documentário, com registro do show de Gil

Foto: manufactoriel.tumblr.com

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