Atahualpa Yupanqui, nome artístico de Héctor Roberto Chavero Aramburo (1908–1992), permanece como uma das figuras mais influentes da música e da cultura argentina. Cantor, compositor, poeta e pesquisador das tradições populares, Yupanqui transformou o folclore em linguagem universal, revelando ao mundo a profundidade espiritual do campo argentino e a força simbólica das culturas indígenas e criollas.

Atahualpa Yupanqui canta El Poeta e Luna tucumana no Festival Cosquin, na Argentina.

Filho de pai indígena quechua e mãe basca, cresceu entre Tucumán e Santiago del Estero, absorvendo ritmos, narrativas e sonoridades das comunidades rurais. A partir dos anos 1930, Yupanqui iniciou longas viagens pelo interior do país, recolhendo histórias, registrando estilos regionais e moldando um repertório que se tornaria referência, com clássicos como “Los ejes de mi carreta”, “El arriero va”, “Piedra y camino”, “Luna tucumana” e a peça “El Payador perseguido” (abaixo).

  • El payador perseguido é um longo poema narrativo em que Yupanqui assume a voz do payador, o cantor popular do campo argentino, para contar sua vida marcada pela pobreza, pela estrada e pela luta por justiça.
  • A obra recupera a tradição oral do canto repentista, combinando memória pessoal e identidade coletiva. Yupanqui transforma sua própria biografia em metáfora da repressão contra artistas e trabalhadores rurais.
  • O texto é permeado por um forte sentimento de resistência, ética e compromisso social. A crítica ao autoritarismo se soma à exaltação da liberdade de expressão.
  • Com linguagem direta e poética, o poema reafirma o papel do artista como guardião da verdade. É, por fim, uma defesa apaixonada da cultura popular latino-americana.
  • Facundo Cabral foi um cantor, compositor, poeta e filósofo popular argentino, considerado um dos maiores representantes da canção de autor na América Latina. Tornou-se conhecido mundialmente por seu estilo direto, reflexivo e espiritualmente libertário, combinando música, narrativa e humor filosófico. Em 2011, Cabral foi assassinado na Guatemala, episódio que chocou a América Latina.

A voz da memória popular

Filiado ao Partido Comunista e perseguido pelo governo da época, viveu períodos de censura e exílio, especialmente na França, onde consolidou sua carreira internacional. No entanto, jamais abandonou a convicção de que o artista deve ser uma ponte entre o povo e sua memória. Sua obra musical, poética e literária contribuiram para formatar a identidade cultural do país.

Atahualpa Yupanqui foi também figura essencial na modernização e atualização estética da música rural argentina no século XX. Influenciou gerações, de Mercedes Sosa a León Gieco, passando por Víctor Jara e Violeta Parra, que encontraram em sua obra um modelo de combinação entre arte, ética e compromisso social. Também cruzou fronteiras regionais, incluindo o Sul do Brasil.

Ao completar mais de três décadas de sua morte, Yupanqui permanece como uma referência moral e artística. Sua obra, atravessada por solidão, dignidade e paisagens míticas, segue oferecendo ao público uma interpretação singular da América Latina profunda. Um território onde a música nasce da terra, da resistência e do silêncio.

  • Ao vivo no festival Cosquin, Lula tucumana extraída do DVD “Soledad 20 años”, com Soledad, Chaqueño Palavecino, Luciano Pereyra, Abel Pintos, Los Nocheros e Los Manseros Santiagueños, entre outros.O show foi gravado durante a celebração dos vinte anos de carreira da cantora argentina.

Especial:entrevista histórica para televisão espanhola:

Foto: Senhor F Social Club (imagem de LP de acervo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Trending