Se o rock e o funk estavam reescrevendo a gramática da música jovem no ocidente durante os anos 60, no coração do continente africano uma revolução similar, porém esteticamente única, estava em curso.
Esqueça a cadência suave da rumba tradicional; nas ruas de Kinshasa, a ordem era acelerar.
Foi nesse caldeirão de ebulição cultural que emergiu o Soukous, e no centro desse furacão sonoro, um coletivo se destacou como os verdadeiros arquitetos de uma nova era, o grupo Zaiko Langa Langa.
A gênese do “Secouer”
Para entender o papel seminal do Zaiko Langa Langa, é preciso dissecar a própria etimologia do gênero. O termo vem do francês “secouer” — que significa “tremer” ou “sacudir”.
A gíria, corrompida para “soukous” nas esquinas da capital da República Democrática do Congo (antigo Zaire), definia perfeitamente a nova proposta, uma versão turbinada da rumba congolesa.
Enquanto grupos pioneiros de meados dos anos 60, como o Los Nickelos (formado por estudantes influenciados pelo rock e funk) e a Orchestre Sinza (do guitarrista Jacques Kimbembe), construíam a ponte entre o tradicional e o moderno, foi a geração seguinte que realmente eletrificou o continente.
A estética do “ataque”
O Zaiko Langa Langa não apenas tocou soukous; eles definiram a sua estética de “ataque”. A grande inovação do gênero, consolidada por este grupo, estava na base instrumental.
Ao contrário das big bands de rumba que dependiam fortemente de naipes de metais, o soukous moderno apostou tudo nas guitarras elétricas flamejantes.
A sonoridade do Zaiko era construída sobre uma arquitetura de cordas intrincada, geralmente duas ou três guitarras entrelaçadas em levadas rápidas, com improvisações longas e hipnóticas (o famoso sebene).
A isso, somaram-se instrumentos contemporâneos que deram peso ao som. Especialmente, o contrabaixo elétrico pulsante e uma bateria mais agressiva. Era a música tradicional africana vestindo a jaqueta de couro do rock n’ roll.
Um celeiro de lendas
O impacto do Zaiko Langa Langa na construção do gênero vai além de sua discografia; o grupo funcionou como uma verdadeira universidade para o pop africano.
A partir dali, e da cena que eles ajudaram a fomentar, surgiram gigantes como Papa Wemba (uma lenda que transcendeu fronteiras), Isifi Lokole e Pepe Kalle & Empire Bakuba.
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A cena de Kinshasa tornou-se uma fábrica de virtuosos. Seguindo a nobre tradição africana dos grandes guitarristas, o soukous revelou ao mundo mestres das seis cordas.
Nomes como Manuaku Waku (figura chave na sonoridade do Zaiko), Diblo Dibala e Lokassa Ya Mbongo transformaram a guitarra congolesa em uma entidade própria, caracterizada por timbres agudos e dedilhados velozes que fariam qualquer guitarrista de surf music suar frio.
História e legado
O que o Zaiko Langa Langa e seus contemporâneos — como Orchestre Shama Shama, Sam Mangwana e Kanda Bongo Man — fizeram foi cristalizar a identidade da música dançante da África Central.
Eles pegaram a elegância da rumba, injetaram a urgência elétrica urbana e criaram o soukous. Um gênero que não pede licença, mas que obriga você a dançar.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club.





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