O cenário musical de 2026 tem nos apresentado curiosidades que vão além da simples canção, adentrando o terreno da performance conceitual. O caso mais recente a capturar a atenção dos garimpeiros de novas sonoridades é o da mexicana Ximena Castro.

Em seus “documentos” virtuais, como Spotify e Facebook, Ximena Castro que se apresenta como “cocinera y pintora mexicana”, radicada na Cidade do México, marcada pela pintura naïf e pela panificação artesanal, encontrou na tecnologia uma porta insólita para o universo pop.

Sob a alcunha de projeto ou selo XaathAI, Ximena opera em uma frequência onde a autoria humana colide — e colabora — com a execução algorítmica. Se nos anos 60 e 70 a vanguarda estava nos pedais de fuzz e nos sintetizadores moog, a ferramenta de Castro é a Inteligência Artificial generativa.

Ouça mais: acompanhe o perfil de Ximena Castro no Spotify

É ela quem compõe a lírica e define a estética visual, enquanto o processamento de dados se encarrega de materializar as harmonias e a vocalização. O resultado dessa alquimia pôde ser conferido em janeiro deste ano com o single “Manos Blancas”.

A faixa, que rapidamente circulou em blogs especializados e playlists de diggers virtuais, apresenta uma sonoridade que flerta com o folk latino e o pop atmosférico, mas com um acabamento polido que denuncia sua origem digital. Não há a “sujeira” analógica das garagens, mas há uma estranha e cativante precisão melódica.

As letras, carregadas de uma poética sobre identidade e liberdade, ganham vida através de vozes sintéticas que, paradoxalmente, soam emotiveis. É a tecnologia a serviço de uma expressão naïf, permitindo que uma pintora “pincele” canções sem tocar um único instrumento físico.

Para os ouvintes atentos à evolução da música independente, Ximena Castro levanta um debate extremamente atual, similar àquele enfrentada pelos pioneiros da música eletrônica no passado. Onde reside a “alma” da obra?

Ao ouvir o repertório recente, que inclui ainda títulos como “Te dejo mi voz” e “Raza de Bronce”, a resposta parece pender para a visão artística. A ferramenta mudou, mas a necessidade de expressão — crua, direta e culturalmente enraizada — permanece a mesma.

Ximena Castro é, portanto, um documento vivo destes tempos de transição, um nome para se manter no radar não apenas pela excentricidade do método, mas pela eficácia do resultado pop que entrega.

Imagem: Divulgação/reprodução.

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