Em uma demonstração alarmante de intolerância e preconceito travestida de “preocupação espiritual”, a atriz e vedete argentina Andrea Rincón protagonizou recentemente um ataque desconexo e preconceituoso contra o cantor Milo J.

Ao associar a estética e as escolhas sonoras do jovem artista argentino de 19 anos a uma suposta “possessão demoníaca”, Rincón não apenas cruza a linha do respeito, mas reacende estigmas perigosos contra religiões de matriz africana.

O “crime” de não sorrir

O estopim para o discurso de Rincón foi a inclusão de um ponto de macumba brasileiro (veja/ouça abaixo), uma referência rítmica e lírica às religiões afro-diaspóricas, no mais recente trabalho de Milo J. No entanto, a crítica da atriz não foi musical ou técnica; foi um julgamento moral e espiritual.

  • A música integra o disco “La vida era más corta”, lançado no final do ano passado, incorporando ao seu “trap” original as canções e sonoridades do tradicional folclore argentino, com grande repercussão junto a todos os públicos, no país e na América Latina, desde jovens até os pais e os avós.

Viste alguma vez o Milo J sorrir? Está totalmente possuído, disparou Rincón. A frase, que beira o ridículo, tenta transformar uma característica de personalidade (ou uma persona artística introspectiva) em sintoma de uma condenação espiritual.

A lógica apresentada é tão frágil quanto perigosa. Para Rincón, a seriedade é sinônimo de maldade, e a arte que foge aos dogmas conservadores é automaticamente rotulada como obra do diabo. É a redução do complexo humano a uma caricatura maniqueísta.

Cortina de Fumaça

Rincón ampliou seu ataque afirmando que a indústria musical “está comprando almas” e realizando “rituais”. Esse tipo de retórica conspiratória não é novo. Historicamente, o pânico moral é utilizado para deslegitimar o sucesso de artistas jovens, especialmente aqueles que trazem à tona elementos culturais marginalizados.

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Ao demonizar o que ela chama de “rituais”, Rincón ataca diretamente a liberdade de crença. O que para ela é “vender a alma”, para milhões de pessoas é ancestralidade, cultura e fé. Ao rotular a inclusão de um ponto de macumba como prova de que o artista está “podre” ou “possuído”, ela perpetua o racismo religioso.

Milo J, como qualquer artista, tem o direito inalienável de explorar as sonoridades e temáticas que desejar, sejam elas chacarera, bossa nova, R&B, trap ou os toques sagrados da umbanda e do candomblé.

  • O jovem argentino incomoda pela repercussão de seu disco e obra; apenas como exemplo, ele lotou por duas noites no final do ano o estádio Vélez (50 mil pessoas); e em janeiro deste ano fechou a última noite do Festival Nacional de Folclore de Cosquín (Córdoba), o maior da América Latina.

A “polêmica” levantada por Andrea Rincón diz muito pouco sobre a alma de Milo J e muito sobre a mente de quem a criou. Enquanto o cantor se expressa através da arte e da cultura, Rincón escolheu se expressar através do medo e do preconceito.

Foto: Divulgação.

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