Antes da explosão nacional de Lambada Complicada (1983), o guitarrista Aldo Sena, então refinando uma identidade que oscilava entre a reverência a Mestre Vieira e suas próprias inflexões caribenhas, lançava seu primeiro LP, o hoje cultuado, e por muito tempo inalcançável, Ripa na Chulipa.
- Discos Raros da Amazônia é uma série de 20 obras raras da música do Norte, abrangendo os gêneros lambada, beiradão, carimbó e brega, lançados nos anos 70 & 80.
Veja a lista completa, com os links das resenhas atualizadas.
Lançado em 1982, pelo selo Amazon Records, com distribuição da gravadora Fermata, o disco Ripa na Chulipa é um daqueles casos clássicos de “obra de transição” que, por décadas, permaneceu restrita ao conhecimento de colecionadores e frequentadores dos bailes de Belém.
Sem a força de distribuição de uma major como a RGE (que o contrataria logo depois), Ripa na Chulipa circulou de mão em mão, ficou limitado praticamente à Belém, tornando-se um item de desejo na arqueologia musical amazônica.
- Em 1988, a RGE relançou o disco sob o título de Dance Lambadas (Volume 1), com outra capa e ordem das músicas alteradas. A RGE lançou mais dois álbum sob este título, o Volume 2 (reedição do segundo disco, com a mesma capa, 1988), e Volume 3 (com inéditas, 1990).
A capa do disco traz Aldo empunha o modelo mais célebre da guitarra nacional Snake, uma releitura nacional da inglesa Burns Bison, fabricada em São Paulo, objeto de desejo dos guitarristas da Jovem Guarda e da música regional.
A obscuridade do álbum foi tamanha que, durante anos, a única forma de ouvir essas faixas era através da garimpagem física ou de digitalizações precárias. O próprio criador recentemente teve acesso à sua criação, ainda que em cópia digital caseira, pelas mãos do DJ e pesquisador Antônio Barbe do Couto (@antoniobarbedocouto).
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Sonoramente, Ripa na Chulipa é o som de um mestre em busca de sua identidade sonora. Se falta ali o “hit” radiofônico avassalador que viria no ano seguinte, sobra a busca por uma linguagem. É a guitarrada em estado bruto, antes da formatação pop, onde o virtuosismo servia estritamente ao balanço dos dançarinos.
As faixas do disco:
Lado A
- Ripa na chulipa (Aldo Sena / Jesus Couto)
- Som magneto (Aldo Sena)
- Por um amigo, você me deixou (Aldo Sena / Mary Macapá)
- Sinhá Mariquinha no salão (Aldo Sena / Jesus Couto)
- A menina do Waldir (Aldo Sena / Mary Macapá)
Lado B
- Baila Combeira (Aldo Sena / Mary Macapá)
- Lamento de uma guitarra (Aldo Sena / Jesus Couto)
- Estrada sem fim (Aldo Sena / Jesus Couto)
- Meio pau, meio tijolo (Aldo Sena / Jesus Couto)
- Melô do Simico (Aldo Sena / Mary Macapá)
Felizmente, a era do esquecimento parece ter chegado ao fim. Com os recentes esforços de digitalização e a entrada de sua discografia em plataformas como o Spotify, o álbum deixa de ser um mito de sebo para assumir seu lugar de direito: o marco zero da discografia de um dos maiores guitarristas do hemisfério sul.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).






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