A coletânea dupla lançada pela Analog Africa dedicada a Antoine Dougbé é uma espécie de peça arqueológica, que só podia chegar ao século XXI pelas mãos da Analog África. Não se trata apenas de resgatar um artista obscuro, mas de revelar uma figura quase mítica dentro da cena de Cotonou (Benim)— musical e espiritual.

A coletânea reúne material dos três LPs lançados entre o fim dos anos 70 e início dos 80, além de singles raros — registros que, à época, tiveram circulação limitada. Apesar de um sucesso moderado com “Nounignon Ma Kpon Midji”, Dougbé nunca alcançou reconhecimento amplo e acabou desaparecendo da cena musical ainda nos anos 80.

A base dessa coletânea, segundo o texto de apresentação do selo, é o encontro entre Dougbé e a lendária Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou. Embora assine as composições, Dougbé não canta nem toca instrumentos, concebe as músicas, enquanto a banda, sob direção de Mélomé Clément, impulsiona arranjos densos, hipnóticos e altamente rítmicos.

O resultado é um afro-funk singular, onde guitarras e metais dialogam com estruturas repetitivas que evocam rituais, com ecos de son cubano, rumba e música congolesa e ritmos ligados ao Vodún local. Ao longo das 12 faixas do disco, um som vribrante avança entre celebração e transe — como se cada faixa estivesse a um passo de se tornar cerimônia.

Primeiro ministro do Diabo

Nascido em Abomey, mudou-se jovem para Cotonou, onde absorveu influências diversas, da música latina aos ritmos africanos urbanos,também segundo o selo. Mas foi sua ligação com o vodu que definiu sua identidade artística e pessoal e o que ajudou a construir sua reputação de figura temida e respeitada.

> Siga o canal “Senhor F Social Club” no WhatsApp

Iniciado e profundamente envolvido nas práticas espirituais, ele se autodenominava “o primeiro ministro do diabo”, de acordo com o texto do disco. Relatos indicam que, no início da carreira, Dougbé intimidava músicos que não correspondiam às suas expectativas, o que dificultou a formação de parcerias.

  • Vodum, vudu ou vodu / voodoo – Dicionário Inglês-Português (Brasil), termo que se refere aos vários ramos de uma tradição religiosa baseada nos ancestrais (negros antilhanos de origem animista) que tem as suas raízes primárias entre os povos Jeje-Fon do Benim, atual religião nacional, com mais de 7 milhões de adeptos (Wikipedia).

Curiosamente, Dougbé encontrou abrigo justamente na Poly-Rythmo, cujos integrantes também tinham vínculos com o Vodún, explícitos em sua vasta obra discongráfica. Ao invés de conflito, houve um alinhamento raro, que se traduz em performances intensas e disciplinadas, como se ouvir nesta coletânea.

Outro traço singular é que Dougbé não cantava suas próprias músicas, devido ao seu envolvimento ritualístico que o impedia de usar a voz fora de contextos sagrados. Assim, os vocais ficaram a cargo de cantores da banda, como Lohento Eskill e Amoussou William, enquanto ele permanecia como uma espécie de arquiteto invisível.

Foto: Produtora Senhor F (acervo Produtora Senhor F).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Trending