Lançado em 1985 pela Continental, Recordar é Viver, de Aurélio do Sax, é um dos registros mais emblemáticos da música popular produzida no Amazonas durante a década de 1980. O álbum sintetiza a confluência entre as sonoridades nordestinas e o chamado beiradão, universo musical que floresceu nas cidades e comunidades ribeirinhas da Amazônia, onde gêneros como forró, xote, baião e lambada ganharam sotaque próprio.

Instrumentista de grande apelo popular, Aurélio do Sax utilizou o saxofone como voz principal para interpretar melodias dançantes e sentimentais, aproximando o lirismo do instrumento à pulsação festiva dos ritmos regionais. Em Recordar é Viver, seu fraseado caloroso e melodioso conduz um repertório marcado pela nostalgia e pela celebração, traduzindo em música as memórias afetivas e o cotidiano da Amazônia urbana e interiorana.

O disco foi gravado nos estúdios da Gravasom, em Belém, um dos principais polos fonográficos da região Norte naquele período. Aurélio contou com o acompanhamento da banda de Manoel Cordeiro, músico e produtor decisivo para a consolidação da moderna música amazônica. O toque de Cordeiro e seus músicos imprime ao álbum uma sonoridade refinada, na qual guitarras, teclados e percussões dialogam com o sax de Aurélio.

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A maior parte das composições é assinada pelo próprio saxofonista em parceria com outros autores, evidenciando seu papel não apenas como intérprete, mas também como criador. O repertório reflete a forte influência da música nordestina no Amazonas, presença histórica intensificada pelos fluxos migratórios e pelas trocas culturais entre Norte e Nordeste. No disco, essas influências resultam em uma linguagem genuinamente amazônica.

Mais do que um simples álbum instrumental, Recordar é Viver constitui um documento sonoro de uma época em que a música popular da Amazônia consolidava sua identidade e expandia seus horizontes. Ao lado do posterior Forró da Moçada (1988), o disco confirma Aurélio do Sax como um dos protagonistas dessa tradição, responsável por traduzir em notas e melodias a riqueza cultural do beiradão.

Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Produtora Senhor F Social Club).

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