Reza a lenda – e a história confirma – que a patente da expressão power pop pertence ao veterano Pete Townshend. O líder do The Who buscava definir aquelas suas fantásticas canções de três minutos, que uniam o peso das guitarras a harmonias vocais celestiais.

Mas a genealogia do estilo vai além, bebe na fonte dos Beatles, claro, e passa por referências sessentistas essenciais como Beach Boys, os Hollies da fase Graham Nash, Turtles e pérolas menos óbvias, como o Creation (de Ron Wood), Tommy James & The Shondells e o cultuado The Remains.

Nesse caldeirão sonoro, os seguidores do gênero não economizaram nas doses de Burt Bacharach, cuja sofisticação melódica influenciou uma geração inteira, chegando a render um tributo antológico pelo finado selo Big Deal, com bandas do calibre de Wondermints, Barely Pink e Gladhands.

A explosão setentista

Com o passar do tempo, o power pop foi aglutinando influências e conquistando fiéis adeptos. Os anos setenta foram o palco para gigantes como Badfinger, Raspberries (de Eric Carmen), Stories (de Michael Brown, ex-Left Bank), Flaming Groovies e Cheap Trick.

A lista de honra segue com Knack, Shoes, 20/20, Beat, Blue Ash, Rubinoos, Records, Scruffs, XTC, Vipers, Dwight Twilley Band e, acima de todos, a seminal Big Star, de Alex Chilton, verdadeiro farol para tudo o que viria depois.

Nem mesmo a fúria do punk conseguiu tirar o gênero de cena. Pelo contrário, houve uma simbiose genial. O resultado aparece na energia dos Undertones, por exemplo, que em seu álbum de estreia homenageou visualmente a banda de Townshend .

Também em versões mais “swingadas” e nervosas como Romantics, Plimsouls, Bangles, Holly & The Italians, dB’s e Smithereens. Merece destaque também o Spongetones, talvez a mais fantástica “banda beatle” que já pisou na terra.

O renascimento nos 90

A década de noventa trouxe uma lufada de ar fresco, revelando ao mundo nomes fundamentais como Jellyfish, Matthew Sweet, Posies, Redd Kross, Ride (lar do futuro baixista do Oasis) e o imprescindível Teenage Fanclub.

O garimpo revela ainda joias como Wondermints (que prestou tributo a Arnaldo Baptista no CD Bali), Gigolo Aunts, Material Issue, os canadenses do Zumpano, Velvet Crush, Green Pajamas e os veteranos australianos do DM3, liderados pelo ex-Stems, Dom Mariani.

Uma infinidade de bandas, operando nos espaços alternativos dos EUA, Austrália e Suécia, manteve a chama acesa bebendo na santíssima trindade “Beatles/Byrds/Beach Boys”. São obras-primas que, muitas vezes, circulam em tiragens limitadas a mil exemplares, verdadeiros tesouros para colecionadores.

  • Entre os destaques absolutos dessa safra estão Cotton Mather (uma reencarnação do espírito Lennon & McCartney), Push Kings, Myracle Brah, Pearlfishers, Shazam, Mockers, Rooks, Merrymakers, Grip Weeds, Beatifics, Baby Lemonade, Martin Luther Lennon, Apples In Stereo, Sloan, Ice Cream Hands, Linus of Hollywood, Moptops, Loud Family, Jiffpop, Starbelly e Sun Sawed in 1/2.
  • No front dos intérpretes e compositores, brilham Darin, Owsley, Brad Jones, David Grahame, Michael Carpenter, Jason Falkner (ex-Jellyfish e Grays), Mark Bacino, Brendan Benson e Bill Lloyd – este último lançou o álbum Standing On The Shoulders Of Giants muito antes do Oasis se apropriar do título.

Selos e coletâneas

Nada disso seria possível sem os visionários da indústria independente. Nos anos setenta e oitenta, o grande motor foi Greg Shaw (falecido em 2004), o homem por trás da Bomp Records. Ao lado de Lenny Kaye e do pessoal da Rhino Records, Shaw foi um dos primeiros arqueólogos do som de garagem e da psicodelia.

Já na virada dos anos oitenta para noventa, o bastão passou para o selo Black Vinyl, dos irmãos Murphy (do grupo Shoes), que bancou reedições e lançamentos de bandas como Critics, 98 Degrees e Fun With Atoms.

Entretanto, a grande “usina” do power pop moderno atendia pelo nome de Not Lame. Comandada por Bruce Brodeen direto de Denver, Colorado, a Not Lame foi selo, loja e santuário, distribuindo clássicos e novidades para o mundo todo.

Leia mais: “Nuggets” do Power Pop independente dos anos 90

Somam-se a ele selos australianos, suecos e o lendário selo neozelandês Flying Nun (casa de The Verlaines, The Chills, The Bats), responsáveis por manter a produção alternativa pulsante.

Para coroar essa história, a Rhino Records teve a sacada magistral de lançar a caixa definitiva: Poptopia! – Power Pop Classics Of The ’60s, ’70s & ’80s. São três volumes essenciais, com fichas técnicas detalhadas e textos de quem viveu a cena.

Antes disso, a série DIY (volumes American Power Pop I & II) e as coletâneas da Bomp (Destination Bomp!!! e Roots Of Power Pop) já haviam preparado o terreno, ao lado da saudosa série Yellow Pills da Big Deal, documentando as novidades daquela época dourada.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

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