Além da revolução musical e comportamental, a década de 1960 também mudou a concepção visual das apresentações dos discos. Se, nos anos 1950, a pobreza estética era total, com a Beatlemania e, especialmente, com a psicodelia, as capas dos LPs ganharam status de arte. É uma ideia que, apesar do espaço físico reduzido, a era digital tenta manter com nos CDs — em muitos casos, com sucesso, como no material da Rhino Records.

As mudanças ocorreram em vários momentos e de diversas formas, envolvendo os principais artistas da época. Os Beatles lançaram um dos primeiros álbuns com capa dupla (Beatles For Sale); os Rolling Stones omitiram o nome da banda na capa de seu disco de estreia; e Jimi Hendrix incluiu um encarte com letras em Axis: Bold As Love. Pouco depois, os próprios Beatles lançaram o álbum Let It Be dentro de uma caixa com farta parafernália gráfica. Já os Stones colocaram um zíper (fecho-éclair) de verdade na capa de Sticky Fingers, enquanto o Jefferson Airplane embalou o disco Bark em um saco de papel de supermercado.

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As décadas de 1960 e 1970 foram palco de uma verdadeira “guerra de capas”, que resultou em obras eternizadas na memória visual coletiva. Entre elas, vale citar a banana de Andy Warhol no primeiro disco do Velvet Underground; a vaca de Atom Heart Mother, do Pink Floyd; e as janelas vazadas de Physical Graffiti, do Led Zeppelin. No entanto, o mais inventivo de todos foi Sgt. Pepper’s, com sua galeria de personalidades, que gerou uma série infindável de tributos e sátiras até os dias de hoje.

No Brasil, também surgiram experiências interessantes, como a caixa contendo três discos dos grupos The Beggers e The Black Stones, por volta de 1966 — talvez o primeiro box set da história fonográfica nacional. Mais tarde, a capa de A Banda Tropicalista do Duprat, com sua estética inspirada em Sgt. Peppers, destacou-se na segunda metade dos anos sessenta. Em 1972, Caetano Veloso radicalizou a experimentação com o disco-objeto Transa, cuja capa se desdobrava em um triângulo.

Por trás de cada banda e gravadora, havia artistas que já atuavam em outras áreas ou que fizeram fama no mundo do rock. Entre eles, o ícone da pop art Andy Warhol (Velvet e Stones), o cartunista Robert Crumb (responsável por Cheap Thrills, de Janis Joplin) e a agência Hipgnosis, célebre pelas viagens visuais nas capas do grupo Yes. No Brasil, um dos principais criadores foi Rogério Duarte, cujas capas foram fundamentais para consolidar a estética do movimento Tropicalista.

No mundo “moderno”, para alimentar a paixão dos amantes do vinil, a indústria passou a lançar CDs reproduzindo os formatos originais em papel (as chamadas edições mini-LP). Um exemplo radical é o álbum duplo Exile on Main St., dos Rolling Stones, reeditado com encartes e até a cartela de postais da banda em miniatura. Outros clássicos também ganharam edições em papel para atiçar a nostalgia dos fãs e manter o mercado aquecido com os mesmos produtos sob nova roupagem.

Essa volta ao passado, que alimentou a saudade, antecipou para os nostálgicos a realidade da música virtual: sem objetos, sem capas, sem nada para tocar — apenas som em computadores e celulares. Contudo, isso não sepultou os velhos “bolachões”. O vinil nunca deixou de ser editado e continua a alimentar o fetiche tátil e visual de antigos e novos colecionadores.

Foto: Produtora Senhor F (acervo Produtora Senhor F Discos).

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