O guitarrista, John Flavin é um dos mais importantes instrumentistas de sua geração. Ao lado de Júnior e Coquinho, integrou a Patrulha do Espaço quando o power trio alinhou-se a Arnaldo Baptista.

Ele também está no clássico disco de estreia do grupo Secos & Molhados, um clássico do rock nacional, lançado nos anos setenta – tocando guitarra e violão e assinando arranjos.

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John Flavin chegou às páginas de Senhor F no início os anos dois mil, falando da sua carreira e da importância de Arnaldo Baptista para o rock e para a música brasileira.

Mais de vinte anos depois, Senhor F Social Club republica a entrevista na íntegra realizada por Fernando Rosa, editor da então Senhor F – A Revista do Rock, e atualmente de Senhor F Social Club.

A Entrevista

Senhor F – Antes de mais nada, passamos décadas lendo sobre você como “o guitarrista irlandês”… Bem, como é isso? Você é natural da Irlanda? Veio para o Brasil com que idade?

John Flavin – Nasci em São Paulo, no Brasil. Mãe inglesa, porém de pais irlandeses (ou seja, para todos os efeitos, irlandesa); ela conheceu meu pai, brasileiro, no Canadá. John Flavin é também o nome do meu avô irlandês. Fui para a Inglaterra com meses de vida e voltei ao Brasil aos cinco anos. Falávamos inglês em casa e na igreja americana; no clube inglês, todo mundo achava que eu era gringo. Como eu era meio briguento e gostava de um trago, o carimbo de irlandês veio a calhar, suponho.

Senhor F – O que o despertou para a música? Particularmente para a guitarra? Quais eram seus heróis nessa época? Como foi o início da carreira?

John Flavin – Minha mãe tocava muito bem piano: Chopin, Beethoven, Mozart… Ouvir música era como comer e beber lá em casa. Houve um Natal em que ganhei um violão, uma vitrola e um disco da Elenco, Vinicius visita Caymmi. Meu herói mesmo era um índio canadense chamado Gordon Lightfoot, que compunha músicas impressionantes, tocava violão e cantava com uma voz grave e sofrida. Eu tocava em festas de consulados e em aniversários. Tinha uns quinze anos. Numa delas, onde também tocou o Made in Brazil, conheci o Palhinha, que foi um parceiro musical significativo durante muito tempo. Aprendi muito com ele.

Senhor F – Nos anos sessenta, você tocou no grupo Broadcast (ex-Ação 4)? André Geraissati, que depois ficou conhecido como violonista, era seu companheiro de grupo? Os dois tocavam guitarra? Como foi isso?

John Flavin – Nem me lembro da indicação, mas, quando cheguei lá, o guitarrista era o Egídio Conde (Moto Perpétuo, Som Nosso, etc.). Nem sabia que o André tinha tocado lá. Fui convidado para ser o cantor. Não poderia ser o guitarrista porque não tinha equipamento. O Egídio saiu e entrou o Manteiga (Milton, irmão do Carlinhos, do grupo Memphis), que tinha um Marshall de 200 watts e uma Telecaster linda, toda branca. O Milton quebrou o braço e tive que ensaiar todo o repertório de baile em três dias, o que me valeu um convite para entrar no Kompha, que era considerado o melhor grupo do Círculo Militar (NR: local onde aconteciam as “domingueiras” – shows-bailes aos domingos à tarde). O convite foi feito pelo Tuca (guitarra, ex-Baobás), o qual fui obrigado a recusar, pois havia sido convidado pelo Cacho Valdez (Beat Boys) para fazer a segunda guitarra na peça A Viagem, de Carlos Queiroz Telles. Conheci o Cacho e o Willie quando fui tocar em Jesus Cristo Superstar, substituindo o Palhinha.

Senhor F – Você tocou em mais algum grupo nessa época, antes de participar da Patrulha do Espaço, com Arnaldo Baptista? Como foi esse final de década em São Paulo? Quais outros grupos você destacaria?

John Flavin – Sem dúvida, o Secos & Molhados foi o maior estouro. Mas toquei em bandas com músicos fantásticos muito antes disso. Lembro sempre da primeira banda com o Sizão Machado, o Duda Neves, o Robertinho e eu; o grupo era The Glass Stones Game, e tocamos rock pela primeira vez no auditório do MASP. Havia o Onomatopéia, com três guitarras, duas baterias e uma seção de sopros flutuante. A Banda Tentáculo, com o Wilcox e o Pete Wooley; com o Guilherme Vergueiro e o Zé Eduardo Nazário — músicos da pesada! E o Humahuaca, com o Willie, o Emílio, o Marcinho e o Dudu Portes, e depois o Chicão Medori.

Senhor F – Como foi a aproximação e a entrada no grupo Patrulha do Espaço? Como era a relação com Arnaldo Baptista? Como eram os shows da banda?

John Flavin – Eu conheci o Arnaldo e a Rita em Ubatuba, em 1972. Lembro-me de ele ter dito que estaria fazendo um investimento musical, enquanto fazíamos uma jam. Alguns anos depois, ele mesmo ou o Coquinho me ligaram para fazer o que seria uma audition (audição). Fui lá à noite e achei engraçado o fato de o Arnaldo estar de pijama. Ele me mostrou as músicas que queria trabalhar e eu topei.

Senhor F – Como foi gravar o disco Elo Perdido? Como era gravar guitarras como aquelas, mais “rock” do que o vigente na época? Para nós, trata-se de um marco não só do rock, mas da guitarra no rock nacional. O que você acha do disco hoje?

John Flavin – Foi uma grande farra, delicioso, porque a banda era muito boa. O Júnior é uma fera; o Arnaldo, sem comentários, as pessoas desconhecem até hoje o seu potencial pianístico. O cara é um negócio muito sério! Um artista maior! E ainda de quebra o Coquinho (que Deus o tenha), que tinha o coração do tamanho de um bonde. Eu tinha um Fender Super Reverb antigo, que tinha um belo som, e a minha Les Paul, nada mais. A ideia era tocar rock and roll. Sem playbacks, tudo direto e sem maquiagem.

Senhor F – O que levou ao fim da banda? Você saiu logo após a gravação do disco? Como foi esse processo?

John Flavin – Recebi uma proposta do Sérgio Sá para trabalhar no Beco com a banda que faria o show da Vanusa. Eu estava duro e precisava pagar as contas. Fiquei triste, mas a vida é do jeito que ela é.

Senhor F – Como foi a sua participação no disco dos Secos & Molhados? Somente mais recentemente as pessoas se deram conta da sua presença no disco, assim como a de Zé Rodrix e a de Willie Verdaguer. Você participava das turnês da banda? Se participava, como eram?

John Flavin – A banda que gravou os discos dos Secos & Molhados — Marcelo Frias, Willie, Emílio Carrera e eu — já tocava junto desde 1971. Eu era muito moleque, de 19 para 20 anos, quando estourou, e para mim era um sonho (apesar de ter recusado entrar na banda formalmente; eu não ia pintar a cara, né?). Tocar rock para milhares de pessoas. Eu ganhava mais dinheiro do que conseguia gastar (sex, drugs and rock and roll), fatos que acabaram me levando para uma rehab medieval em 1974.

Senhor F – Nos anos setenta, você participou de diversos projetos. Quais os mais importantes que você lembraria? Você chegou a gravar discos solo?

John Flavin – Toquei em todos os musicais importantes: Jesus Cristo Superstar, A Viagem, Hoje é Dia de Rock, Godspell. Fui guitarrista e arranjador do início ao fim da formação clássica dos Secos & Molhados, e em especial com a querida e saudosa Elis Regina. Patrulha do Espaço…

Senhor F – Como prosseguiu a sua carreira musical a partir dos anos oitenta? Com quem você tocou, de algum grupo em especial?

John Flavin – Como sempre, acompanhando e gravando artistas de A a Z. Trabalhei bastante com o Raul Seixas; a gente brigava muito, eu entrava e saía da banda. Tem muita história com ele. Fui envolvido pelo monstro da publicidade, quase perdi a minha alma. Fiz trilha premiada, ganhei bastante dinheiro e perdi tudo depois.

Senhor F – O que você faz atualmente? Continua tocando guitarra, vivendo de música? Tem algum projeto em especial?

John Flavin – A primeira coisa que faço depois do café é tocar o que aprendi recentemente. Estudo harmonia com o Lanny Gordin (gênio). E trabalho com o que chamo de musical coaching. Instruo as pessoas a exteriorizar aquilo que elas querem tocar ou cantar. Um tipo de personal trainer musical. É muito recompensador. Ultimamente, estou estudando muito. Nenhum projeto em especial.

Senhor F – Como você vê a cena musical moderna? O que acha da mudança do padrão tecnológico? Da internet, do download?

John Flavin – Eu acho extraordinário. É louco demais você ver o que ouve. Olha que resisti até uns dez anos atrás, mas pego de leve. Ainda tenho uma personalidade analógica!

Senhor F – Quais são os seus guitarristas preferidos de todos os tempos? E dos brasileiros, algum em especial?

John Flavin – Tem “o” cara, né, e os outros. O cara é o Jimi Hendrix (santo). Os outros: Jeff Beck (pai de todos), Jimmy Page, John McLaughlin, Steve Howe, Santana e esses fabulosos corredores modernos, Steve Vai e Joe Satriani. Gosto bastante do Eric Johnson.

Senhor F – Um disco clássico de guitarra de todos os tempos?

John Flavin – Band of Gypsys, de Jimi Hendrix, e (mais um, vai!) My Goal’s Beyond, de John McLaughlin.

  • Entrevista realizada e publicada em Senhor F, no início dos anos dois mil.

Foto: Reprodução de Youtube.

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