“Eu sou como você, que me ouve agora”, cantava Belchior, em 1976. Talvez nada fosse mais importante do que não sentir-se só naquele momento. A ditadura afirmara-se pela perseguição, pela tortura, pelo assassinato, pela imposição do medo. Eram tempos estranhos, onde alienar-se também podia ser uma solução. Mas não para alguns artistas e jovens “como eles”. Nem tudo era “divino e maravilhoso”, como dizia “uma canção do rádio, de um antigo compositor baiano”.
- Em homenagem aos 50 anos deste clássico da música brasileira
Entre o “sonho (acabou) hippie” pós-Woodstock e a dura luta contra a ditadura, havia Belchior e seu disco “Alucinação”, lançado naquele ano. Uma obra cheia de “toques”, como se falava na época, existenciais e políticos que falavam às mentes e corações de jovens e adultos. Poesia moderna, com referências culturais espertas, que alertava para “o perigo na esquina”, mas que acenava com a chegada de uma “nova estação”. “Eu quero é que esse canto torto corte a carne de vocês”. (Cadê alguém para cantar esses tempos em que vivemos?).
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Alguns títulos das músicas são suficientes para explicar a importância do disco: “Apenas um rapaz latino-americano” (sempre quis vê-lo no palco do festival El Mapa de Todos), “Velha roupa colorida”, “Como nosso pais”, “Alucinação”, “A palo seco” e “Fotografia em 3×4”. Se alguém daquela geração pode reivindicar o papel de “porta-voz” é Belchior com esse disco, ainda vivo e delirante em versos como em “Como o diabo gosta’: “nunca fazer o que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar”.
Outros discos foram importantes nos anos setenta, e são muitos, mas “Alucinação” merece estar entre os primeiros. Incrível como em 2026, com o mundo envolvido em guerras criminosas patrocinadas pelo “profeta do terror“, segue atual em tudo, nas letras, nos arranjos, na concepção, no sentimento que ainda desperta em sua convocação para o ver-se socialmente coletivo e sempre jovem. “Que fiquem sempre jovens, e tenham as mãos limpas, e aprendam o delírio com coisas reais”. “O novo sempre vem”. Belchior vive!
Alucinação
Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto, ou oba-oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos, sonhos matinais
Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia a dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais
Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite, revólver, cheira cachorro
Os humilhados do parque com os seus jornais
Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas dessas capitais
A violência da noite, o movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra, é demais
Cravos, espinhas no rosto, rock, hot dog
Play it cool, baby
12 jovens coloridos, dois policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor e nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor e nossa vida
Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite, revólver, cheira cachorro
Os humilhados do parque com os seus jornais
Carneiro, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas dessas capitais
A violência da noite, o movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra, é demais
Cravos, espinhas no rosto, rock, hot dog
Play it cool, baby
12 jovens coloridos, dois policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor e nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor e nossa vida
Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas me interessa mais
Foto: Divulgação.
- Texto originalmente escrito em 2016 (com pequenas atualizações temporais), e republicado a pedidos por sua atualidade.






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