Nos idos da década de 1940, ainda com o mundo em guerra, a polítítica de aproximação dos Estados Unidos com o Brasil no pós-guerra operava a todo vapor, pautado especialmente pelo soft power da música e da indústria do entretenimento, da qual Carmem Miranda foi a principal estrela.

É nesse cenário de “intercâmbio” que nasce uma das obras mais curiosas e emblemáticas da época, o já LP em 33 RPM – Souvenir Album. O registro documenta o encontro singular entre o suingue orgânico do conjunto brasileiro Bando Carioca (aka Bando da Lua) e a exuberância técnica da organista norte-americana Ethel Smith.

  • Aloysio de Oliveira: “Durante a década de 40 e começo da de 50, quando vínhamos gravando, fazendo filmes e shows com Ethel Smith, éramos obrigados a usar o nome de Bando Carioca por questões de contrato com as gravadoras norte-americanas que nos procuravam para acompanhamentos. Na verdade, para acompanhá-la não havia muita gente, lá, que pudesse fazê-lo devidamente, principalmente quando se tratasse de samba. E como a grande especialidade de Ethel era a música latino-americana, o Bando teve a incumbência de criar-lhe todas as coberturas rítmicas”. (por Paulo Sá Pereira).
  • Ethel Smith (1902–1996) – Organista norte-americana, famosa por popularizar o órgão Hammond na música pop e latina, especialmente com o sucesso “Tico-Tico” após o filme Bathing Beauty (1944),além de “Aquarela do Brasil”, “Bem-te-vi atrevido”, e “Blame It On The Samba”. Wkipedia.

De um lado, o órgão Hammond de Ethel Smith trazia sua articulação precisa, harmonias coloridas e acento quase percussivo. Do outro, o Bando Carioca bancava a “cozinha” com uma autenticidade, lastreada no samba, no choro e nas raízes afro-brasileiras.

A percussão viva e sincopada de pandeiros e surdos quebrava o verniz excessivamente cinematográfico e hollywoodiano, que salvava o repertório do mero exotismo tropical pasteurizado. O resultado é uma atmosfera leve, mas de profundo balanço.

  • O Bando Carioca foi um conjunto brasileiro de estúdio, ativo nos anos 1940, formado especialmente para gravações nos Estados Unidos. O grupo ficou conhecido por acompanhar a organista Ethel Smith em diversos registros, incluindo o Souvenir Album, lançado pela Decca Records.

A audição atenta de suas faixas que transitam fluidamente entre sambas estilizados e marchinhas de acento melódico forte revela por que Ethel Smith tornou-se a grande tradutora da música “latina” nos Estados Unidos daquele período.

O Bando Carioca, por sua vez, garantiu que a identidade de um Brasil vibrante e festivo fosse prensada no vinil com dignidade, deixando um importante documento sobre as pontes culturais construídas naquele momento da história.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

4 respostas para “Ethel Smith & Bando Carioca, um raro exemplar do período pós-guerra”

  1. Avatar de Paulo Sá Pereira
    Paulo Sá Pereira

    Excelente, Fernando! O Bando Carioca era o nosso Bando da Lua, dito pelo proprio Aloysio de Oliveira: “Durante a década de 40 e começo da de 50, quando vínhamos gravando, fazendo filmes e shows com Ethel Smith, éramos obrigados a usar o nome de Bando Carioca por questões de contrato com as gravadoras norte-americanas que nos procuravam para acompanhamentos. Na verdade, para acompanhá-la não havia muita gente, lá, que pudesse fazê-lo devidamente, principalmente quando se tratasse de samba. E como a grande especialidade de Ethel era a música latino-americana, o Bando teve a incumbência de criar-lhe todas as coberturas rítmicas.”
    Vida longa ao Senhor F e receba o meu abraço!

    1. Por onde andas? Outro abraço.

  2. Avatar de Paulo S S Pereira
    Paulo S S Pereira

    Para variar, excelente! como adição, o Bando Carioca era o Bando da Lua dito pelo Aloysio de Oliveira: “Durante a década de 40 e começo da de 50, quando vínhamos gravando, fazendo filmes e shows com Ethel Smith, éramos obrigados a usar o nome de Bando Carioca por questões de contrato com as gravadoras norte-americanas que nos procuravam para acompanhamentos. Na verdade, para acompanhá-la não havia muita gente, lá, que pudesse fazê-lo devidamente, principalmente quando se tratasse de samba. E como a grande especialidade de Ethel era a música latino-americana, o Bando teve a incumbência de criar-lhe todas as coberturas rítmicas.”
    Forte abraço!
    Paulo Sá Pereira

    1. Eita, valeu te rever. Quanto tempo? Valeu

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