Nascida no Rio de Janeiro, The Bubbles – formada por Cesar (solo), Renato (ritmo), Ricardão (baixo), logo substituído por Lincoln, e Ricardo (bateria) – é uma das maiores lendas da história do rock brasileiro.
Desde o início da carreira, em meados dos anos sessenta, a banda passou por todas as fases do rock daquela época, da invasão britânica ao hard rock, passando pela psicodelia e pelo semi-progressivo.
Em 1966 lançaram o raríssimo compacto com as faixas “Não Vou Cortar o Cabelo”/”Porque Sou Tão Feio“, versões para Los Shakers (“Break It All”) e The Rolling Stones (“Get Out of My Cloud”), respectivamente.
Após participar de shows e programas de TV – abriram para os Herman’s Hermits, no Rio de Janeiro – e, principalmente, de reinar (ao lado dos Analfabitles) no tradicional circuito de shows e bailes na periferia do Rio de Janeiro, acompanharam Gal Costa como banda de apoio.
Em 1970 foram assistir ao Festival da Ilha de Wight, ficando impressionados com o que viram. De volta ao Brasil, resolveram mudar radicalmente a sonoridade da banda, resultando no clássico compacto simples com as faixas “Sem Nada”/”18:30 (Parte I)” e “Os Hemadecons Cantavam em Coro Chôôôôôôô”, lançado em 1971.
Nesse meio-tempo, a banda ainda participou do histórico álbum Vida e Obra de Johnny McCartney, com o cantor da Jovem Guarda Leno (ex-Leno & Lílian), produzido por Raul Seixas.
Em 1972 ganharam o prêmio de melhor banda no Festival Internacional da Canção (FIC), o que garantiu melhores condições para gravar o primeiro LP, batizado de Um Passo à Frente (reeditado em CD e também em edição especial da gravadora portuguesa Groovie Records, com bônus track), trazendo um rock básico, com algumas faixas numa linha bem progressiva, lançado em 1973.
Nessa época a banda contava com Pedro Lima (guitarras, harmônicos, vocal), Renato Ladeira (órgão Hammond, Farfisa, Vox, guitarras, vocal), Lincoln Bittencourt (baixo, vocal) e Gustavo Schroeter (bateria, vocal).
Em 1975 participaram do lendário festival Banana Progressiva, realizado no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, entre os dias 29 de maio e 1º de junho.
Em 1977, após alguns altos e baixos e mudanças de formação, gravaram seu segundo e último disco – É Proibido Fumar – no qual adotaram uma sonoridade um pouco mais pesada, abandonando definitivamente o progressivo.
Mas as vendas não foram muito boas, decretando o fim do grupo, que ainda tocou como banda de apoio de Erasmo Carlos em uma turnê pelo Brasil. Renato também integrou o grupo gaúcho Bixo da Seda (ex-Liverpool) e, depois, o Herva Doce, já nos anos 80.
Observação: entrevista realizada e publicada na então Senhor F – A Revista do Rock, em sua edição nº 49, de dezembro de 2005.

A entrevista
Senhor F – Quando surgiu The Bubbles, e por que esse nome?
Cesar Ladeira – Lá por volta de 1963 a gente ouvia, desbundado, o Chubby Checker cantando “The Twist” ou “Let’s Twist Again”, e qual não foi nossa surpresa ao ver o compacto “She Loves You”/”I Want to Hold Your Hand” na lojinha de discos em frente à porta do nosso colégio. A partir daí foi uma verdadeira loucura. A gente colecionava fotos deles, recortava e colava na parede do nosso quarto. Tudo o que víamos impresso em jornais, revistas e fotos conseguidas da distribuidora do filme e do disco era tudo para a parede. Como o sucesso deles estava começando, nas festas que frequentávamos víamos o que eles eram capazes de fazer com as meninas, que enlouqueciam quando levávamos os discos e todo mundo dançava sem parar. A resolução de criar o grupo veio quando estávamos conversando sobre eles numa festa e surgiu a ideia de montar um “conjunto”. Essa era a definição de banda naquela época. Mas tínhamos um grande problema: não sabíamos tocar guitarra, muito menos outros instrumentos. E, com todo nosso jeitinho, fomos ao papai e à mamãe rogar para que eles nos oferecessem um curso de violão, para podermos montar nosso grupo. Como exceção aos padrões da época, nossos pais também nos colocaram para fazer aulas de canto — canto lírico. Dá para perceber que ninguém do nosso grupo de amigos acreditava, mas era a pura verdade. Passados alguns meses, continuávamos a ouvir tudo que aparecia do ‘London Beat’ e resolvemos encontrar amigos, ou amigos dos nossos amigos, que tocassem violão, baixo e bateria, pois já tínhamos ideia de como queríamos a formação da banda. Você não tem ideia do que era pedir para a nossa professora de violão nos ensinar uma música dos Beatles: “I Don’t Want to Spoil the Party”. Esse realmente foi um sacrifício para ela. É bom lembrar que essa professora havia sido professora do Wilson Simonal e de outros grandes astros da época. Durante o primeiro período de ensaios, a primeira formação era: Cesar (solo), Renato (ritmo), Ricardão (baixo) e Ricardo (bateria). Porém, logo nas primeiras semanas, Ricardão não se encaixou com as nossas ideias e foi substituído por Lincoln Bittencourt no baixo. Supermúsico, ligado em Beatles, encaixou-se com um baixo Hofner em nossa formação. Isso era demais! Igualzinho ao do Paul. A partir daí os ensaios, na sala de nossa casa, começaram a acontecer diariamente, num trabalho exaustivo de tirar as músicas que gostaríamos de tocar e convencer nossos pais (de todos) de que precisávamos de bons instrumentos para nos apresentar nos bailes da vida. Quanto ao nome, lembro-me de que, depois de tanto conversarmos e pesquisarmos, chegamos ao seguinte: “precisamos de um nome em inglês que fosse fácil de lembrar, que tivesse irreverência e que começasse com B, pois na bateria queríamos o logo da banda com a mesma logotipia dos Beatles”. E assim foi… lembro que minha mãe (NR – Renata Fronzi) deu a palavra final… nós éramos uns bolhas, mesmo. Uns pentelhos.
Senhor F – Você tinha que idade?
Cesar Ladeira – Por volta de 13, 14 anos. Isso era 1963/64.
Senhor F – Quem fazia e fez parte da banda, da primeira e das demais formações? E quem tocava o quê?
Cesar Ladeira – A primeira formação era: Cesar Ladeira (guitarra solo), Renato Ladeira (guitarra rítmica), Ricardão (baixo) e Ricardo 1 (bateria); a segunda: Cesar (guitarra solo), Renato (guitarra rítmica), Lincoln Bittencourt (baixo) e Ricardo 1 (bateria); a terceira: Cesar (guitarra solo e gaita), Renato (guitarra rítmica e teclados), Lincoln (baixo) e Ricardo Reis (bateria); a quarta: Pedro Lima (guitarra solo), Renato (gaita, guitarra rítmica e teclados), Lincoln (baixo) e Ricardo Reis (bateria); a quinta e última: Pedro (guitarra solo), Renato (gaita, guitarra rítmica e teclados), Arnaldo Brandão (baixo) e Johnny (bateria).
Senhor F – E o repertório, além de Beatles, Stones… o que rolava?
Cesar Ladeira – A ideia era tocar tudo dos Beatles, mas as novidades iam aparecendo e se transformando em repertório: The Rolling Stones, Trini Lopez, The Troggs, Herman’s Hermits, The Animals, Dave Clark Five, Gerry and the Pacemakers, The Kinks, Los Shakers, The Yardbirds, Johnny Rivers, Peter and Gordon, Peter, Paul and Mary, The Turtles, The Association, Chuck Berry, Mamas and the Papas, (The) Lovin’ Spoonful (John Sebastian), The Byrds, The Monkees, Jan and Dean, Steppenwolf, The Hollies, The Zombies, Procol Harum, The Who, The Bee Gees, The Beach Boys, The Rokes (grupo italiano), dentre outros menos votados.
Senhor F – Quais eram as influências; o que vocês ouviam?
Cesar Ladeira – Fora ouvir Beatles o dia inteiro, indo e voltando nas faixas para descobrir nuances, todas as novidades eram ouvidas. O que com certeza nos influenciou foram as “maravilhas musicais” dos Beatles, a tal da ‘British Invasion’, do ‘Merseybeat’, os Byrds (com aquele som das doze cordas da Rickenbacker do Roger McGuinn) e os a.
Senhor F – Vocês faziam shows, festas, bailinhos de escola?
Cesar Ladeira – Sim, tudo o que aparecia: Clube Monte Líbano com os Analfabitles; Associação Atlética Banco do Brasil; Quitandinha (shows exclusivos em Petrópolis, na boate do hotel onde meu pai havia realizado muitos shows com artistas estrangeiros e nacionais na época dos cassinos); Canecão (tocávamos com a banda do Canecão, o grupo Azimuth — do baterista Mamão — que tocava MPB; os Hangmen do Maurício Kaiserman — depois Morris Albert — e os Sunshines, dos filhos do comediante Walter D’Ávila); Cervejaria Shinitt; Escola Americana; Esporte Clube Radar (com Guilherme Lamounier, All Star Band; Renato Terra, Os Nômades; e seu grupo, Mamães e Papais — onde Fernando Adour e uma menina faziam conosco vocais maravilhosos nas músicas dos Mamas and the Papas); Boliche 300 com a garotada do The Bottles; The Goofies (Dady, da Cor do Som; Pedro Lima, depois d’A Bolha; e Rick Ferreira, ex-Raul Seixas, o superguitarrista muito requisitado hoje em dia); Grajaú Tênis Clube; Escola Estadual André Maurois, depois das sessões de cinema do Bruninho Barreto, com a banda do americano Bruce Henry (The Outcasts) e o Sound of San Francisco (com um guitarrista careca americano cujo nome não me recordo) que fazia projeções psicodélicas com óleos e tintas no fundo do palco com um retroprojetor num imenso lençol branco — uma loucura na época, o povo ficava todo de boca aberta; e, ainda, o Colégio Aplicação. Também fizemos uma excursão pelo Espírito Santo, tocando em Cachoeiro do Itapemirim, Mimoso do Sul, Alegre e Castelo, junto com o cantor da Jovem Guarda Ricki Ricardo (que cantava uma música chamada “Quero Apodrecer Contigo Num Túmulo Qualquer” — algo dark, meio punk já na época) para agradar gregos e troianos.
Senhor F – Como pintou a gravação do compacto? Por qual gravadora e em que ano?
Cesar Ladeira – Durante uma apresentação do grupo em 1966, no programa Mário de Andrade, na TV Globo do Rio, num sábado à tarde, um representante da gravadora Musidisc (o senhor Rosenblit) nos convidou para gravarmos um compacto ali na cozinha do palco antes de atacarmos. E assim foi. Dois meses depois entramos no estúdio e, em um dia, gravamos as duas versões. Letras essas que foram feitas por amigos nossos que frequentavam os nossos ensaios e que, depois dessa tentativa, nunca mais escreveram nada (William Salvador e o Ameba — não me recordo seu verdadeiro nome). (NR: segundo William, em e-mail pós-edição original, a versão é de autoria de Murilo do Rego Antonio Carlos Rodrigues de Almeida, o Ameba).
Senhor F – Como era a sensação de um grupo de meninada lançar disco?
Cesar Ladeira – A gente não tinha essa impressão. O que queríamos era estar nos programas de TV e sermos considerados ótimos músicos, virtuosos… O que hoje sei que não chegamos a atingir: nem o sucesso, nem a qualidade das nossas interpretações. Porém, mais tarde, nossa meta mudou; criamos, nos bailes (quatro horas), um momento especial quando interpretávamos somente Beatles. Que inveja hoje dos covers!
Senhor F – O compacto teve repercussão na época?
Cesar Ladeira – Para a época do lançamento, nada arranhou nossa perspectiva de fazer sucesso. A gravadora não dava jabá, e nós também estávamos mais ocupados em preparar bons repertórios para as nossas vesperais do que em andar de rádio em rádio divulgando nosso compacto, o que na época achávamos que era obrigação da gravadora.
Senhor F – Por que versões dos Stones e dos Los Shakers? Por que gravar os uruguaios Shakers?
Cesar Ladeira – Bem, para ser sincero, quanto aos Stones eu mesmo não estava muito contente com a música escolhida, pois a achava brega. Mas fui vencido pelo grupo e pela gravadora; a letra estava pronta e era fácil de “pegar”. Quanto aos Shakers, tenho a dizer que, na primeira vez que os ouvi, pensei que era um grupo inglês, ou mesmo os próprios Beatles. Todos nós achávamos excepcional o disco onde essa música estava, sem falar de “Never, Never”, que naquele momento acreditávamos ser uma obra-prima — o que, apesar dos anos, continuo acreditando. Anos mais tarde soubemos que se tratava de um grupo uruguaio. Mas ainda os considero um grupo excepcional.
Senhor F – Além do compacto, The Bubbles gravou mais alguma coisa?
Cesar Ladeira – Até a minha saída, além do compacto, fomos a banda que realizou um sonho de artista. Fomos convidados por Márcio Greyck e pelo produtor Durval Ferreira, da Philips/Polydor (um craque da bossa nova), para gravarmos todos os instrumentais de um LP de versões dos Beatles, que seria cantado pelo Márcio, com vocais dos seus irmãos, que tinham um grupo vocal. Me recordo de contar com um estúdio muito mais moderno do que aquele em que gravamos o primeiro compacto, com técnicos e produtor muito mais preparados, sem limites para tentar chegar o mais perto das gravações originais, contando com um maestro (se não me engano, era o maestro José Paulo, da TV Tupi do Rio) e com todos os recursos para podermos copiar os efeitos, tanto nos instrumentos quanto nas vozes que gravamos. O engraçado é que nunca consegui ouvir a bolacha. Só me recordo de ouvi-la mixada no estúdio. E foi só.
- Os dois covers dos Beatles, além de outras raridades podem ser ouvidas na coletânea “The Bubbles – Raw and Unreleased” lançada em 2010 pelo selo Groovie Records, de Portugal. Veja os detalhes sobre cada registro e também ouça das músicas aqui.
Senhor F – E programas de TV, você se recorda de alguns dos principais programas em que tenham participado?
Cesar Ladeira – Foram vários programas, entre eles o da Hebe, onde tocamos “Piange Con Me” (Record SP); a canção italiana original do grupo The Rokes fez tanto sucesso que a banda veio ao Brasil. Foi bis no programa ao vivo. Também “Família Trapo” (Record SP; algumas vezes fazíamos par com o grupo do Ricardinho Corte Real — Os Pulguentos), ensaiando durante o programa e aproveitando a ideia de que toda semana eles apresentavam uma personalidade. “Embalo”, do maestro Erlon Chaves (TV Rio): programa de música onde se apresentavam todos os tipos de atrações; tocamos todas as semanas por cerca de um ano. “Jovem Guarda”: “Wild Thing” (Record SP); foi uma tremenda apresentação… Renato cantava com umas maracas nas mãos e os bregas todos se assustaram; pediram bis, e nós tocamos de novo e as paulistas gritavam. “Fahrenheit”: Taiguara e Eliana Pittman apresentavam (TV Tupi Rio); toda semana dividíamos o palco com outros grupos, como The Brazilian Bitles, Os Mugstones (será que alguém lembra do bichinho?), Os Sunshines etc. Festival Universitário (aquele com Ivan Lins, Gonzaguinha, Belchior etc.): “Eu Quero” (TV Tupi Rio), música minha, escrita durante meus anos na Escola de Teatro, com arranjo e orquestra do maestro Guerra Peixe e com coro dos integrantes d’A Bolha. Programa do Chacrinha e programa Mário de Andrade (TV Globo Rio): em um dos programas do Mário lembro de uma passagem curiosa. Estávamos programados para tocar antes do maior lançamento do Leno & Lílian, mas ninguém nos avisou e sapecamos “Hang on Sloop”. Ao final da nossa apresentação, o Leno quase nos encheu de porrada lá mesmo nos bastidores, pois o próximo número, que seria deles, era o lançamento de “Pobre Menina”, que era a versão em português do mesmo hit. Nunca mais nos vimos… Programa Jair de Taumaturgo: TV Rio, quase todos os sábados à tarde. E ainda o programa “Vesperal da Juventude”: TV Excelsior Rio de Janeiro aos sábados à tarde.
Senhor F – Vocês chegaram a participar do Primeiro Festival de Conjuntos da Jovem Guarda, organizado pela TV Record em 1966 e apresentado por Roberto Carlos?
Cesar Ladeira – Não que eu me lembre.
Senhor F – Como vocês reagiram à mudança sonora provocada por Sgt. Pepper’s e por toda a produção de 1967?
Cesar Ladeira – Pirante. Mas devo lembrar que o álbum “Revolver” já havia deixado marcas profundas em todos os participantes do grupo, fazendo com que iniciassemos um período de profundos estudos para realizarmos os melhores sons que já havíamos tentado até então. Gravávamos todos os nossos ensaios em um gravador de rolo para depois podermos ouvi-los e repensar as harmonias, os acordes, as interpretações e os novos efeitos que teríamos que comprar ou adaptar, etc. Cabe lembrar que, até mais ou menos nessa época, eram poucos os locais onde fazíamos shows que tinham equipamentos de voz e iluminação. Por várias vezes fizemos bailes e shows sem microfones para as vozes. Eu me pergunto: e quem ouvia alguma coisa?
Senhor F – Como foi a transição do beat, até certo ponto ingênuo, para a psicodelia e para o hard rock?
Cesar Ladeira – Aí morou o perigo! Jimi Hendrix se transformou em nosso ídolo. Eric Clapton, do Cream, nosso príncipe. O que fazer? Quando voltamos de uma viagem a Los Angeles, onde tocamos durante uma semana num restaurante (Four Seasons) — onde um dos maiores amigos de meu pai tocava todas as noites, o famoso Joe Carioca, aquele mesmo que era do Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda e serviu de modelo ao personagem Zé Carioca da Disney — compramos o disco do Cream (o prateado) e novos instrumentos, pedais e acessórios, inclusive uma bateria Ludwig novinha, amplificadores novos etc., e isso mexeu muito com nossa cabeça. Logo no primeiro dia queriam que a gente tocasse bossa nova. Afinal, éramos um grupo do Brasil! Imaginem nossa cara quando o dono do restaurante viu que a gente tocava aquelas músicas inglesas e não as famosas composições de Tom Jobim. Voltamos completamente psicodélicos, com roupas floridas, desgrenhados, e resolvemos rever nosso repertório totalmente. Foi aí que as cabeças começaram a mudar. No drugs at this time…
Senhor F – Como era o lance dos shows-baile que rolavam na periferia do Rio de Janeiro?
Cesar Ladeira – Uma loucura. Como não moro há mais de 25 anos no Rio, não sei se ainda são assim, mas naquela época, nas domingueiras, o Rio de Janeiro lotava essas festas com cerca de 5.000 pessoas nos clubes. Fora que, nos bailes às sextas ou sábados, o número era maior. O clima era curtir os novos ritmos, as novas danças, o hully gully, a surf music, enfim, as novidades que os grupos traziam a cada baile.
Senhor F – Junto com os Analfabitles, The Bubbles era uma das mais requisitadas?
Cesar Ladeira – Exatamente, sem dúvida alguma. Convencionou-se que duas bandas eram melhores do que uma, pois cada uma tocava uma hora e intercalavam até o final do evento. Era uma verdadeira competição: o melhor som, a melhor roupa, as músicas novas, a iluminação — enfim, o show que cada um poderia realizar mesmo com os escassos equipamentos e quase nenhum cachê. Era por pura diversão e por amor à música. Roadie? Nem pensar. Técnico de som e luz? O que é isso? Microfones? Uma vez fomos ao representante da AKG no Rio de Janeiro comprar dois microfones para a banda. Os caras não entenderam nada. “Pra quê? Vocês são de alguma rádio ou TV?” Bem, foram os últimos cachês que recebemos para comprar aquelas maravilhas.
Senhor F – A que se devia esse sucesso?
Cesar Ladeira – Quando realizávamos esses bailes, a gente sempre parava a rapaziada e pedia para que se sentassem no chão do local para que pudessem assistir a um momento muito especial. Quando todos estavam quietinhos, nós mudávamos a iluminação e fazíamos um show só com Beatles. O povo vibrava, aplaudia de pé, gritava como nas sessões de cinema de “A Hard Day’s Night”, meio na brincadeira, mas curtindo adoidado. Os que nos conheciam e frequentavam nossos shows ficavam aguardando quais as novas músicas que iríamos apresentar. Esse era o nosso momento. Essa adrenalina jamais vou esquecer. Lembro-me de que, alguns anos atrás, uma de minhas filhas me contou que um de seus professores da faculdade era nosso fã e não perdia uma domingueira. Que loucura. Estamos ficando velhos…
Senhor F – Que outras bandas se destacavam neste circuito?
Cesar Ladeira – Para lembrar de algumas: Analfabitles, Brazilian Bitles, The Bottles, The Sunshines, The Hangmen (NR – já apareceu no programa Senhor F, na Usina do Som), Os Mugstones, os Cougars (do Gustavo e da Milena), os Red Snakes (NR – idem), os Jet Black’s, Renato e Seus Blue Caps, os Fevers e os Fanks (Roupa Nova).

Senhor F – Como era o público desses bailes?
Cesar Ladeira – Era o Rio. A cara do Rio de Janeiro dos anos 60. Todo mundo ia nesses bailes, domingueiras e pequenos shows improvisados em clubes menores como o Radar. Esse era o nosso “Cavern Club”. Nesse local, que nem sei se ainda existe, a turma se juntava e tocava as músicas mais legais. Fazíamos jam sessions com membros de outros grupos que se sobressaiam na cena carioca. A juventude do Rio comparecia em peso. A Jovem Guarda, para o carioca, era brega, cafona, meio chata, muito paulista… Por isso, grandes músicos e bandas apareceram depois. O rock and roll estava em todos os cantos da cidade; sempre alguém conseguia um compacto novo com algo ainda não ouvido, e logo na semana seguinte algum conjunto apresentava.
Senhor F – Até quando você, Cesar, ficou na banda? É isso mesmo; o que exatamente aconteceu? O que você foi fazer, então?
Cesar Ladeira – Até 1968/69, quando resolvi estudar cinema e prestar vestibular para Direção Teatral na Escola de Teatro do Rio de Janeiro. Acabou a magia… Minhas ideias iam longe, e somente a música não me completava; queria abrir novas fronteiras. E foi o que fiz. Iniciei minha carreira no cinema, trabalhando no estúdio do meu avô (Adhemar Gonzaga), um dos pioneiros do cinema brasileiro. Fui assistente de direção em um longa-metragem produzido e dirigido por ele, e gerente do estúdio durante um bom tempo. Nesse longa-metragem, “Salário Mínimo”, The Bubbles, já com Pedro Lima na guitarra solo, Arnaldo Brandão no baixo e Johnny na bateria, fazem um número musical — raridade. Não consigo recordar qual música tocaram… O Renato com certeza deve lembrar.
Renato Ladeira – Não lembro…
- Get out of my land, de Pedro Lima. Foi abertura do filme Salário Mínimo de Adhemar Gonzaga em 1969. Formação dos The Bubbles: Pedro Lima – guitarra, Arnaldo Brandão – baixo, Renato Ladeira – orgão e Johnny Telles – bateria. Abaixo, o lado b do single da mesma trilha sonora (por Renato Ladeira)
Senhor F – Você, Cesar, abandonou a música nessa época? Ou continuou tocando?
Cesar Ladeira – De jeito nenhum. Tempos depois, antes de me casar e mudar para São Paulo, tentei armar um grupo no Rio tocando baixo, mas a coisa não evoluiu. Somente em 1988 toquei aqui em Sampa com uns amigos do grupo Sunday, no Victoria Pub, mas foram poucas vezes. Ainda tenho minhas guitarras, violões, amplificadores e pedais, mas só me divirto sozinho ou em alguma festa de fim de ano da empresa em que trabalho.
Senhor F – Como foi a história da Ilha de Wight?
Renato Ladeira – Os integrantes d’A Bolha na época acompanharam Gal Costa no show da boate Sucata, no Rio de Janeiro, junto com músicos como Naná Vasconcelos, Márcio Montarroyos, Yon Muniz e Ricardo Garcia, com direção musical de Jards Macalé. Nesse show Gal cantou pela primeira vez a música “London, London”, de Caetano Veloso. Gal nos chamou para ir ao festival. Foram Arnaldo Brandão (Hanói Hanói), Pedro Lima e Gustavo Schroeter (A Cor do Som). (NR – na próxima edição teremos superentrevista com Arnaldo Brandão, com detalhes sobre a ida à Ilha de Wight).
Senhor F – O que fizeram por lá, além de assistir ao festival? Tocaram, fizeram shows, conheceram músicos?
Renato Ladeira – Sei que eles se juntaram num local do festival com músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e outros brasileiros. O pessoal gostou e os convidou para subir ao palco do festival numa das tardes. Tocaram durante meia hora — um “happening” brasileiro.
Senhor F – Qual foi o balanço da experiência na época?
Renato Ladeira – A banda resolveu que teria que trocar todo o repertório, que ia de Led Zeppelin a Grand Funk Railroad, e compor nossas próprias músicas.
Senhor F – Na volta, vocês trocaram o nome da banda para A Bolha, ou seja, aportuguesaram o nome?
Renato Ladeira – Foi uma virada radical.
Senhor F – Reza a lenda que o público carioca não gostou nem um pouco; que chegava a vaiar a banda nos bailes. Isso é verdade?
Renato Ladeira – No primeiro lugar que tocamos (Clube Mauá, em São Gonçalo) estava anunciada a volta do The Bubbles, que enchia qualquer ginásio da época. Tinham umas cinco mil pessoas. Quando anunciamos que a banda agora só tocaria repertório próprio, em português, o público começou a ir embora aos poucos. No final, acredito que tinham umas 350 pessoas. Mas não houve vaias. Ah, o povo…
Senhor F – A troca de nome teve por trás uma mudança de conceito — compor e cantar em português? Como rolou isso e que receptividade vocês tiveram junto ao público?
Renato Ladeira – Claro. Era mudança de postura e a maneira de mostrar nossa criatividade. Depois daquele primeiro impacto, resolvemos fazer a mudança de maneira menos radical, pois precisávamos ganhar dinheiro e adorávamos tocar para um número maior de pessoas. Então mesclamos nosso repertório nacional com sucessos que o público adorava nos ver tocar, como Rolling Stones, Grand Funk, Led Zeppelin, Hendrix, Cream etc. Deu certo.
Senhor F – A Bolha, de certa forma, antecipou a formatação do que veio a ser o rock brasileiro dos anos 70?
Renato Ladeira – Acredito que nós e alguns grupos underground ajudamos a forçar a entrada do ‘acid rock’, o rock lisérgico brasileiro. Lembro que uma vez tocamos num subúrbio do Rio abrindo para Os Mutantes. As pessoas iam embora durante o show deles. Acredito que o nosso era mais pesado e impactante; o deles era mais pop. Nessa época não havia PA; juntávamos vários amplificadores e caixas e criávamos nosso próprio retorno. Retorno? Retorno era o som que a gente ouvia de volta do ginásio.
Senhor F – A banda participou de algum festival nessa época, como Guarapari, por exemplo? Como eram esses festivais?
Renato Ladeira – Nós éramos os malditos. O pessoal que fazia o som do Festival de Guarapari desligou nosso equipamento três vezes porque eu, Renato, rodava o microfone pelo fio, como Roger Daltrey do The Who, e eles acreditavam que eu quebraria o equipamento. Mas foi um festival fantástico. Teve a presença dos Novos Baianos, do grupo Soma (Bruce Henry, Alyrio e Jaime) além de várias bandas. Ah… claro que o ápice foi o salto do palco do Tony Tornado.
Senhor F – Antes do primeiro LP de 1973, vocês gravaram um compacto (com “Sem Nada”)?
Renato Ladeira – Sim. “Sem Nada” e “18 e 30”, de Eduardo Souto Neto e Geraldo Carneiro, com produção de Ademir Lemos, para a Top Tape. Com “18 e 30” participamos do Festival Internacional da Canção da TV Globo e ganhamos o prêmio de revelação do festival.
Senhor F – Nessa época A Bolha gravou mais alguma coisa?
Renato Ladeira – Acho que só a participação no disco solo do Leno.
Senhor F – Alguma participação em coletâneas, por exemplo?
Renato Ladeira – Acredito que não.
Senhor F – Depois do primeiro LP, você, Renato, foi tocar com o Bixo da Seda, continuidade do Liverpool? Como rolou isso?
Renato Ladeira – Eles vieram até o Rio e me convidaram para participar da banda e do disco que gravamos.
Senhor F – Como foi a experiência de tocar com o grupo?
Renato Ladeira – Fantástica. Músicos de primeira linha: Mimi, Marcos Lessa etc.
Senhor F – Como foi gravar o único disco da banda, pela Continental?
Renato Ladeira – Ótimo. Adoraria ver esse disco em CD. Era uma mistura de rock com rock progressivo.
Senhor F – Você, Renato, chegou a participar do segundo LP da Bolha, lançado em 1977? Se participou, como foi gravar aquele disco com uma pegada meio voltada para a Jovem Guarda?
Renato Ladeira – Não. Só como compositor.
Senhor F – Qual foi a receptividade do disco?
Renato Ladeira – O disco chegou a tocar um pouco nas rádios AM do Rio, mas não deslanchou. Então a banda foi acompanhar Erasmo Carlos em sua excursão do ano, e lá estava eu de volta na banda.
Senhor F – No final da década você, Renato, tomou outro rumo musical e foi tocar com o Herva Doce, no começo dos anos 80?
Renato Ladeira – Eu trabalhava na época como diretor de TV na TV Bandeirantes do Rio e tinha músicas minhas gravadas pelo grupo Roupa Nova. Marcelo Sussekind, que trabalhava como técnico de estúdio e PA, me chamou para gravarmos um tape durante o carnaval de 1982, se não me engano. Eu saía da Marquês de Sapucaí, trabalhando na TV, e ia para o estúdio do Chico Batera, onde Marcelo trabalhava, e gravamos quatro músicas, a princípio com uma bateria eletrônica emprestada por Arnaldo Brandão. Gravamos todos os instrumentos e depois chamamos nosso amigo Sérgio Della Mônica, que inseriu sua inconfundível bateria.
Senhor F – Quem integrava a banda junto com você?
Renato Ladeira – Eu e Marcelo queríamos fazer como o Steely Dan, que era uma dupla de músicos, arranjadores e produtores que gravavam em estúdio com convidados. Mas a gravadora não aceitou a ideia, que era muito moderna para os moldes brasileiros, e nos convenceu a montar a banda.
Senhor F – E como foi a experiência de tocar com e para uma nova geração?
Renato Ladeira – Foi estimulante. Os músicos que criaram o Herva Doce comigo eram da minha geração: Marcelo Sussekind (A Bolha), Paul de Castro (Veludo e Mutantes) e Sérgio Della Mônica (Tutti Frutti). Só depois entraram Pena e Roberto Lly (músicos mais jovens).
Senhor F – Havia diferença entre o início da carreira, nos anos 60, e os anos 80?
Renato Ladeira – A grande diferença dos anos 80 foram as rádios FM, que abriram um espaço enorme para o nosso rock e o nosso pop.
Senhor F – O que você fez além disso?
Renato Ladeira – Toquei em discos de outros artistas, compus e produzi alguns discos.
Senhor F – Que avaliação vocês, Renato e Cesar, fazem da evolução do rock brasileiro desde os anos sessenta?
Cesar Ladeira – A evolução é evidente. Mas ainda falta voltarmos às raízes do rock e, com o nosso talento, redescobrirmos os verdadeiros expoentes da nova onda do rock nacional.
Renato Ladeira – Acho que as gravadoras hoje em dia estão muito imediatistas. Faltam pessoas competentes que descubram novos talentos e acreditem que eles farão carreira. São raros os exemplos de novos artistas que se estabeleceram no mercado à duras penas, porque nem sempre o público entende a sua música na primeira vez que a ouve. Muitos ficaram por aí, sem chance, pelo simples fato de não terem alcançado um patamar de vendas satisfatório para a gravadora no primeiro disco. Tem muita gente boa por aí.
Senhor F – O Brasil construiu uma linguagem própria no terreno roqueiro, digamos assim?
Cesar Ladeira – O que acredito é que, com toda essa base que relatei, os mais novos aproveitaram para beber dessa fonte. Com letras fantásticas em português conseguimos criar um rock nacional de altíssima qualidade, e ainda hoje, de vez em quando, surgem músicas excepcionais. Com certeza isso não é MPB. Isso é Rock and Roll feito com legítimas raízes brasileiras. Afinal, ele é universal. O único problema deste país é não ter história.
Senhor F – O que vocês acham da Jovem Guarda?
Cesar Ladeira – Bem, para mim, quando ouvi pela primeira vez achei cafona. Os caras pareciam suburbanos, e a gente se vestia como os Beatles, tinha uma atitude diferente, mais londrina, mais groove; esses carinhas só queriam agradar as fanzocas da TV. Mas, quando comecei a perceber alguns sujeitos, tal como o Gato (ex-Jet Black’s e guitarrista do grupo que acompanhava o Roberto), aí a coisa começou a mudar. Quando os Mutantes apareceram, o mundo mudou. Tentamos em vão encontrar o irmão do Sérgio Dias, que fazia as guitarras do grupo, para tentar usar alguns efeitos que ouvimos… e nada. Nesse momento começamos a ouvir as versões gravadas por Erasmo e por outros artistas que cantavam rock de raiz e, nesse instante, passamos a respeitá-los.
NOTA DA REDAÇÃO – Esta entrevista foi publicada no início dos anos dois mil na Senhor F – A Revista do Rock. Infelizmente o link original se perdeu, então, republicamos o conteúdo original. A entrevista foi feita com os irmãos Cesar e Renato Ladeira. Em memória de Renato Ladeira.
Fotos: Divulgação (cedidas na época pelos entrevistados)






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