A edição nacional número 4 do jornal Rolling Stone (21 de janeiro de 1972; veja abaixo) trazia, em sua página 2, um anúncio de página inteira que anunciava: “Nosso som é o som do mundo para ser sacado e curtido”. Logo abaixo, a foto do quarteto e a reprodução da capa do LP traziam as credenciais: Módulo 1000 – Não Fale Com Paredes. Era uma estreia que prometia barulho, mas que acabou enfrentando resistências. Inclusive de setores mais puristas da mídia da época, entre eles a própria RS.
A razão da reação adversa de alguns é, paradoxalmente, o grande trunfo do álbum. Um som progressivo e altamente técnico que, ao contrário do que apontavam os críticos daquele período, nunca deixou de manter os dois pés fincados no rock pesado e na psicodelia. Em suas nove faixas, Não Fale Com Paredes é um exercício de criatividade instrumental que hoje bate de frente com os melhores discos do gênero produzidos no exterior.

Integravam o grupo Luiz Paulo (órgão, piano e vocal), Eduardo (baixo), Daniel (guitarra) e Candinho (bateria). A produção, ficou a cargo do disc-jockey Ademir, um dos nomes mais destacados das pistas e do rádio. Ou destaque de produção foi a fidelidade da gravação, com registro na capa. “O tempo de duração de cada face do disco foi limitado a 16 minutos para proporcionar uma excelente reprodução sonora”.
- “Turpe Est Sine Crine Caput”, cantada em latim e conduzida por um impressionante trabalho de guitarra, abre o disco mostrando o cartão de visitas da banda.
- “Não Fale Com Paredes”, com letra de Vitor Martins (“…Uma pessoa / É uma figura / É uma imagem / Numa moldura / Minha imagem quer sair do quadro / Dessa vitrine sem profundidade”), mergulha em um clima quase hard rock à la Grand Funk Railroad, expondo a face mais pesada do grupo.
- “Espelho”, na contramão do peso, surge como uma viagem acústica de vocais suaves, flertando com a sonoridade mística dos Mutantes.
Ainda hoje, causa surpresa a novos ouvintes o peso e a clareza do resultado final do disco, gravado sob sabidas limitações técnicas dos estúdios nacionais do início dos anos setenta — e por jovens cuja idade média era de apenas 20 anos. Com o tempo, Não Fale Com Paredes tornou-se figura carimbada nas want lists (listas de desejos) de colecionadores internacionais de psicodelia e progressivo.
A arte de sua capa ganhou destaque no lendário livro 2000 Record Collector Dreams, do austríaco Hans Pokora. A faixa “Lem-Ed-Êcalg” (Glacê de Mel, ao contrário) foi parar na prestigiada coletânea internacional Love, Peace & Poetry – Latin American Psychedelic Music, ao lado de gigantes como o Som Imaginário. Mesmo com todo esse reconhecimento tardio, a sina do Módulo 1000 parece ser o mistério.
Lançado originalmente pela Top Tape, o álbum ganhou uma reedição caprichada em CD, antes da febre das reedições em vinil. O disquinho remasterizado, com formato mini-LP em papel e encarte com letras — pela Zaher Zein / Projeto Luz Eterna, cumpriu seu papel. Mesmo com uma tiragem pequena, chegava aos cdplayers uma das joias mais secretas e fascinantes do rock subterrâneo brasileiro.
- Abaixo, a versão original com faixas bônus:
Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)





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