Inesquecível para quem viveu a época, o jornal Rolling Stone marcou a geração dos anos setenta, naquele início de década ditatorial, paranóica, mas também muito louca, sob todos os aspectos. Versão nacional do original americano, a Rolling Stone brasileira tinha como editor Luiz Carlos Maciel, e entre seus jornalistas/escritores/poetas, Ezequiel Neves, autor da coluna ‘Toque’, provavelmente a mais lida, Rose Marie Muraro, Jorge Mautner, Joel Macedo, Gabriel O’Meara (depois guitarrista do grupo O Peso) e Capinam, entre outros. Ana Maria Bahiana foi secretária de redação e, no final, assistente de edição. Apesar de sua curta duração – praticamente um ano, apenas – é, sem dúvida, a mais importante experiência em matéria de jornalismo musical, cultural e comportamental da história da imprensa jovem.
Confira: Projeto Pedra Rolante – Hemeroteca Digital da Rolling Stone Brasil
Depois de um hoje raríssimo número zero, a primeira edição chegou às bancas em 1 de fevereiro de 1972, com seu tradicional formato de duas capas – a principal com o disc-jockey Big Boy, e a outra com o recém chegado de Londres, Caetano Veloso. Dentro, além de extensa entrevista com o maior dos dj’s brasileiros, fantásticas matérias falavam do grupo A Bolha, da coletânea “Beauty, Meaty, Big & Bouncy”, do The Who, assinada pelo próprio Pete Townsend e, ainda, das cabeleiras vigentes, na matéria “Cabelo”, assinada por Jorge Mautner, que discorre por duas páginas sobre a história dos respectivos, desde os tempos do Sansão. Ezequiel Neves, por sua vez, em sua coluna “Toque” – depois, cada vez mais ferina – apresentava pequenas biografias e comentários sobre Bob Dylan, Pete Townshend, Alice Cooper e Pink Floyd.
Sem preconceitos, além dos clássicos do rock, como Janis Joplin, Rolling Stones e Yes, entre outros, tinham vez em suas páginas os brasileiros Paulo Bagunça e A Tropa Maldita, Módulo 1000 e Jards Macalé, ou ainda Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal, Tom Jobim e Nelson Cavaquinho, que ganhavam duas, três páginas, com entrevistas e detalhadas informações sobre suas obras. Nas resenhas de discos, por suas edições passaram um grande número de obras que hoje integram as discotecas básicas de todos os tempos, como Rolling Stones/Exile on Main Street, The Who/Who’s Next, Chuck Berry/London Session, T. Rex/Eletric Warrior ou Yes/Fragile. Com excelente e adequada edição gráfica, a revista trazia em suas páginas os geniais desenhos de Lapi, especialmente a série “Urbanóides” – bicos de pena críticos e alucinados que ocupavam página inteira do jornal.
Nessa linha, depois de tornar-se semanal, e enfrentar toda sorte de perseguições, o jornal prosseguiu em sua cruzada de boas informações para a garotada, resistindo até o número 36 (de nosso conhecimento), tratando de assuntos como sexualidade, drogas, misticismo e loucura e os mais diferentes temas ligados ao cotidiano da juventude da época. Com seu fim, ficou uma enorme lacuna na imprensa musical nacional, que depois foi sendo ocupado por publicações como Rock – A História e a Glória, Jornal de Música, Revista Pop e, por fim, a revista Bizz, mas sem a mesma contundência e magia. Hoje, peça rara de colecionadores, ainda é fonte inesgotável de informações para quem a tem parcial ou integralmente, guardada a sete chaves, como na felizarda redação de Senhor F.
Foto: Produtora Musical Senhor F (coleção completa/acervo Senhor F)
* Matéria originalmente publicada na Revista Senhor F, no início dos anos 2000.






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