Nos bastidores da Cidade do Rock, longe dos holofotes dos palcos principais, um abraço sintetizou a vanguarda sonora da América Latina contemporânea. O pernambucano João Gomes e o argentino Milo J se encontraram nos camarins do Rock in Rio, em uma cena emocionante que transcende o registro informal de camarim.
À primeira vista, os universos poderiam parecer distantes. De um lado, o vaqueiro de Serrita, interior de Pernambuco, revelado pela cultura dos paredões de som e pelo pulso dançante do piseiro; do outro, o jovem prodígio de Morón, província de Buenos Aires, que emergiu no trap antes de mergulhar na chacarera, na milonga e no cancioneiro ancestral argentino.
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Historicamente, a música latino-americana enfrentou o abismo linguístico e comercial que separa o Brasil de língua portuguesa dos seus vizinhos hispânicos. Por décadas, as pontes continentais dependeram de esforços esparsos ou de iniciativas independentes, do que são exemplos os festivais Recbeat, El Mapa deTodos e Mucho.
Como disse João Gomes, durante o encontro, os dois enfrentam e superam preconceitos. O brasileiro, nordestino, não precisou abrir mão do chapéu de couro, da sanfona e da poeira do sertão para triunfar nos palcos e no algorítmo. Milo J, por sua vez, afirmou sua condição de “marrón”, misturando batidas eletrônicas com ritmos nativos.
O encontro nos bastidores do festival carioca evidencia que as raízes folclóricas e rurais deixaram de ser peças de museu ou mero exercício de nostalgia conservadora. Pelo contrário, tornaram-se matérias-primas de ponta, verdadeiros manifestos de resistência – cultural e geopolítica – e futuro.
Ao dialogarem de igual para igual no coração de um megaevento internacional, João e Milo desenham uma nova rota cultural sul-americana. A cena celebra o momento em que a sanfona nordestina e o bombo leguero portenho descobrem que pulsam na mesma frequência.
Foto: Imagem (das redes sociais)






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