Fundada no final da década de 1960 pelo governo revolucionário de Ahmed Sékou Touré, a Syliphone Records foi o braço sonoro de um dos projetos culturais mais radicais do pós-colonialismo africano na Guiné-Conacri. O selo estatal documentou o nascimento do afro-jazz mandinga e transformou a música em pilar de soberania nacional.

Após a Guiné ser a única colônia francesa a votar “Não” à permanência na Comunidade Francesa em 1958, o país rompeu laços com Paris. Para construir uma identidade descolonizada, o regime implementou a política de Authenticité, baseado na proibição de música estrangeira, financiamento público da arte e modernização das tradições.

Criada por volta de 1967/1968, a gravadora Syliphone serviu como o veículo oficial para prensar e difundir essa produção, que incluia lançamentos das orquestras reginais e dos registros dos festivais anuais. Entre LPs e compactos de 45 rotações, o selo lançou cerca de 80 álbuns e dezenas de singles que se tornaram referências continentais.

As gravações eram realizadas no estúdio da Rádio Televisão Guineense (RTG) em Conacri e prensadas na Europa (principalmente na Alemanha Ocidental), garantindo alta fidelidade sonora. Vale destacar discos clássicos dos grupos Bembeya Jazz National, Balla et Ses Balladins e Keletigui et Ses Tambourinis, entre outros.

Com a morte de Sékou Touré em 1984 e o golpe militar liderado por Lansana Conté, as estruturas estatais de apoio às artes foram desmontadas. O catálogo da Syliphone ficou vulnerável à deterioração climática e ao esquecimento institucional.

Décadas depois, projetos de digitalização liderados por etnomusicólogos, em parceria com a Biblioteca Britânica, resgataram centenas de fitas magnéticas originais, consolidando o catálogo da Syliphone como um dos maiores monumentos sonoros da modernidade africana.

Foto: Produtora Musical Senhor F (acervo Senhor F).

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