Para a maior parte do público europeu, americano e ocidental em geral, a música de Mulatu Astatke não chegou pelos canais habituais, nem por grandes gravadoras, nem por turnês internacionais, nem por playlists de rádio. Ela chegou pelo cinema. Mais precisamente, pela trilha sonora de Flores Partidas (Broken Flowers), filme de Jim Jarmusch lançado em 2005.
Na coletânea que acompanha o filme, e que traz no encarte o selo de “produtor executivo” do próprio Jarmusch, três faixas de Astatke dividem espaço com Marvin Gaye, The Greenhornes e até um trecho do Requiem de Fauré . “Yegelle Tezeta”, “Yekermo Sew” e “Gubelye” soaram para uma geração inteira como uma revelação.
Uma música que parecia vir de algum lugar entre o jazz modal, o funk setentista e uma melancolia exótica que ninguém sabia nomear. O diretor, que descreveu a sonoridade do etíope como “música para viajar”, não apenas apresentou Astatke ao mundo, Jarmusch reabilitou um disco que, até então, era uma joia conhecida apenas por colecionadores e iniciados.
Feita a (re)apresentação do compositor e multi-instrumentista, vamos ao seu disco de estreia, Mulatu of Ethiopia, lançado em 1972, e que desde então se tornou a pedra de toque do ethio-jazz. O gênero que o próprio Astatke inventou ao fundir as escalas pentatônicas da música tradicional etíope com a sofisticação harmônica do jazz americano, o balanço do funk e a percussão dos ritmos latinos.
Gravado em Nova York com músicos de estúdio de primeira linha, o álbum é o ponto de cristalização de uma visão que Astatke vinha perseguindo desde seus primeiros discos, Afro-Latin Soul Vol. 1 e 2 (1966). Formado no Berklee College of Music, Mulatu foi primeiro cidadão africano a se graduar na instituição, uma das mais importantes do mundo.
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Nesse disco, Mulatu trouxe para o estúdio uma bagagem de influências e sonoridades especiais. Desde a tradição oral da Igreja Ortodoxa Etíope, os modos tezeta, bati e ambassel, até a liberdade harmônica do jazz pós-bop. O resultado é um disco enxuto, pouco mais de 26 minutos no vinil original, que se desdobra em camadas.
A importância de Mulatu of Ethiopia transcende a música. Ele documenta a “era de ouro” da música etíope, que floresceu em Addis Abeba, capital da Etiópia, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970. Na época, o disco foi um sucesso na Etiópia, a ponto de Duke Ellington, em visita ao país, ter interpretado “Dewel” com sua orquestra.
Desde a trilha de Broken Flowers, o disco se tornou uma referência para artistas de diferentes gêneros. Foi sampleado por nomes como Kanye West. Em 2017, ganhou uma reedição de luxo pela Strut Records, com versões em estéreo e mono e outtakes que mostram Astatke meticulosamente dirigindo os músicos para capturar a essência de sua visão.
Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Senhor F)





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