Muito antes da chegada da guitarra ocidental, diversas sociedades africanas já utilizavam instrumentos cordófonos como a kora, o ngoni, o xalam, a lira etíope, o oud árabe do Norte da África e inúmeros alaúdes e harpas locais. Quando o violão europeu começou a se difundir pela África, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, encontrou um terreno fértil onde a tradição das cordas já era profundamente enraizada.
A introdução do instrumento ocorreu principalmente através de marinheiros, missionários, soldados, comerciantes e trabalhadores dos portos atlânticos e do Oceano Índico. Nas cidades costeiras da África Ocidental, especialmente em Serra Leoa, Gana, Nigéria e Congo, a guitarra passou a acompanhar estilos urbanos influenciados por músicas europeias, caribenhas e latino-americanas.
A verdadeira revolução ocorreu quando os músicos africanos deixaram de utilizar o violão apenas como instrumento importado e passaram a africanizá-lo. Técnicas de dedilhado inspiradas na kora, padrões rítmicos derivados da percussão tradicional e afinações próprias transformaram a guitarra em um dos símbolos da música moderna africana. Nascia assim uma nova linguagem musical africana.
Hoje, é impossível imaginar gêneros como o highlife ganês, a rumba congolesa, o soukous, o benga queniano, o desert blues malinês ou a música popular cabo-verdiana sem a presença da guitarra. O instrumento tornou-se uma das mais importantes ferramentas de expressão musical do continente, resultado do trabalho pioneiro de artistas que ajudaram a moldar a identidade sonora da África contemporânea.
Veja quem foram os principais pioneiros:
Kwame Asare (Jacob Sam) (Gana)
Considerado um dos primeiros grandes guitarristas da África Ocidental, Kwame Asare, também conhecido como Jacob Sam, foi um pioneiro do palm-wine music e do highlife primitivo. Suas gravações dos anos 1920 estão entre os registros mais antigos da guitarra africana em disco. Desenvolveu um estilo de dedilhado que combinava tradições locais da Costa do Ouro com influências europeias e marítimas, tornando-se uma referência para gerações posteriores de músicos ganeses.
Albert Luampasi (Zâmbia)
Albert Luampasi é considerado um dos primeiros grandes guitarristas da Zâmbia. Atuando entre as décadas de 1940 e 1950, ajudou a adaptar a guitarra às tradições musicais locais e influenciou o desenvolvimento da música urbana zambiana. Embora menos conhecido internacionalmente, é uma figura central para a história da guitarra na África Austral.
S. E. Rogie (Serra Leoa)
Sooliman Ernest Rogers, conhecido como S. E. Rogie, foi um dos maiores representantes do palm-wine music da Serra Leoa. Sua técnica refinada de violão e suas composições elegantes ajudaram a consolidar um dos primeiros estilos urbanos baseados na guitarra na África Ocidental. Suas gravações influenciaram músicos muito além de seu país e permanecem como documentos fundamentais da história da guitarra africana.
Antoine Kolosoy / Wendo Kolosoy (República Democrática do Congo)
Conhecido como Wendo Kolosoy, foi um dos pais da rumba congolesa. Sua gravação de “Marie-Louise”, em 1948, tornou-se um marco da música popular africana. Embora mais lembrado como cantor, desempenhou papel decisivo na consolidação da guitarra como instrumento central da música urbana congolesa, abrindo caminho para a extraordinária tradição guitarrística do país.
Henri Bowane (República Democrática do Congo)
Guitarrista, compositor e produtor, Henri Bowane foi uma das figuras-chave da primeira geração da rumba congolesa. Trabalhou ao lado de Wendo Kolosoy e ajudou a estabelecer a linguagem musical que transformaria Kinshasa em um dos principais centros musicais da África. Seu estilo combinava influências cubanas com ritmos africanos, contribuindo para a popularização da guitarra em toda a África Central.
Jean Bosco Mwenda (Congo/Zâmbia)
Um dos maiores virtuoses da guitarra acústica africana, Jean Bosco Mwenda desenvolveu uma técnica sofisticada de dedilhado que lhe rendeu reconhecimento internacional. Suas composições instrumentais demonstravam extraordinária independência entre baixo e melodia, aproximando-o dos grandes mestres do fingerstyle. Sua obra influenciou músicos africanos e pesquisadores de música tradicional em todo o mundo.
Tèwèldè Redda (Eritréia)
Tèwèldè Redda foi um dos músicos que participaram da modernização da música eritreia durante o período colonial italiano e os anos subsequentes. Seu trabalho ajudou a integrar a guitarra às tradições melódicas do Chifre da África, desempenhando papel semelhante ao de outros pioneiros da África Oriental.
John Ondolo (Quênia)
John Ondolo também foi decisivo na transformação da guitarra em instrumento principal da música luo. Suas gravações e performances contribuíram para o desenvolvimento dos padrões rítmicos e melódicos que posteriormente seriam refinados pelos grandes nomes do benga, como Daniel Owino Misiani e George Mukabi.
George Mukabi (Quênia)
Considerado um dos criadores do benga moderno, George Mukabi adaptou para a guitarra os padrões melódicos e rítmicos da música tradicional dos povos luo. Seu estilo ágil e inovador ajudou a definir uma das mais importantes escolas guitarrísticas da África Oriental. Sua influência permanece evidente em várias gerações de músicos quenianos.
Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Senhor F).






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