Durante muito tempo, o Brasil contou a história da guitarra olhando quase sempre para o eixo Rio-São Paulo. Falou de Jovem Guarda, tropicalismo, rock, MPB, fusion e blues. Mas esqueceu de olhar para onde o instrumento ganhou uma identidade própria, deixou de ser apenas acompanhamento e se transformou em linguagem, assinatura e patrimônio cultural. Num lugar onde o instrumento foi verdadeiramente popular.

É na Amazônia, especialmente nos estados do Pará e do Amazonas, que a guitarra encontrou uma de suas mais impressionantes escolas. Uma escola sem conservatório, sem método impresso e sem reconhecimento proporcional à sua importância. Uma escola construída em bailes, estúdios improvisados, programas de rádio e gravadoras independentes, onde guitarristas inventaram uma forma amazônica de tocar.

Da revolução iniciada por Mestre Vieira no final da década de 1970 até as novas gerações representadas por Ximbinha, Pio Lobato, Rosivaldo Cordeiro, Félix Robatto e Lucas Estrela, entre outros, dezenas de músicos reinventaram o instrumento, criando um sotaque impossível de confundir. Entre eles estão Aldo Sena, Oseas, André Amazonas, Magalhães, Mestre Solano, Mário Gonçalves, Barata e Manoel Cordeiro, entre tantos outros que fizeram da guitarra uma espécie de voz da floresta eletrificada (ouça na playlist abaixo).

Playlist com os grandes guitarristas da lambada/guitarrada da Amazônia brasileira.

Não é exagero dizer que a guitarra ocupa, na música amazônica, um lugar semelhante ao do bandolim no choro ou da sanfona no forró. Ela conduz melodias, improvisa, dialoga com a percussão, cria contrapontos e, sobretudo, faz dançar. Foi dessa tradição que nasceu a guitarrada, talvez o gênero instrumental mais original produzido no Brasil nas últimas décadas. Assim como a cumbia psicodélica peruana, a guitarra se impôs.

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Seu marco fundador costuma ser identificado no disco Lambadas das Quebradas, lançado por Mestre Vieira em 1978. Ali, a guitarra deixou definitivamente o papel de coadjuvante para assumir o protagonismo. Nascia uma linguagem que seria desenvolvida por sucessivas gerações de músicos, cada um acrescentando novas técnicas, timbres e maneiras de interpretar os ritmos amazônicos. E surgia uma sucessão de mestres do instrumento.

Os grandes guitarristas da Amazônia também foram protagonistas da explosão comercial da lambada amazônica durante os anos 1980. Gravaram dezenas de discos para selos como a Gravasom, especialmente, acompanharam cantores populares e animaram festas floresta a dentro. Também estabeleceram uma sonoridade que atravessou rádios, festas de aparelhagem e salões de dança por toda a Região Norte.

Boa parte dessa produção permanece invisível para a historiografia oficial da música brasileira. Muitos desses músicos nunca receberam o reconhecimento merecido. Alguns gravaram vários discos, alguns clássicos, sem jamais aparecer na imprensa nacional. Outros sequer tiveram um disco próprio, embora seus riffs estejam eternizados em clássicos da música paraense e amazonense.

Ainda assim, seu legado sobrevive. Está nos discos raros disputados por colecionadores. Nas reedições internacionais. Nos DJs que redescobriram a guitarrada. Nos jovens músicos que continuam aprendendo seus fraseados. E, principalmente, na permanência de uma maneira amazônica de tocar guitarra – vibrante, dançante, virtuosa e profundamente ligada ao território onde nasceu.

Uma série para registrar a história

Ao longo das próximas reportagens, o Senhor F apresentará vinte guitarristas que ajudaram a construir a identidade sonora da lambada amazônica e da guitarrada dos oitenta aos anos 2000. Não se trata de um ranking nem de uma lista definitiva, mas de um inventário histórico dedicado a músicos cuja obra permanece fundamental para compreender a evolução da música produzida na Amazônia.

São artistas que fizeram a guitarra falar em carimbó, cantar em cúmbia, sorrir em merengue e incendiar bailes de Belém, Manaus, Barcarena, Abaetetuba, Igarapé-Miri, Santarém e tantas outras cidades onde nasceu uma das mais extraordinárias tradições instrumentais da música brasileira. Porque, antes de conquistar o mundo, a guitarra precisou aprender a falar amazônico.

Os mestres da guitarra

Ao longo da série, Senhor F publicará perfis dedicados aos seguintes instrumentistas, sempre a partir de um disco representativo de sua carreira:

  1. Mestre Vieira
  2. Aldo Sena
  3. Oseas
  4. Mário Gonçalves
  5. João Gonçalves
  6. Gilson
  7. André Amazonas
  8. Mestre Solano
  9. Magalhães
  10. Barata (Evandro Cordeiro)
  11. Deusimar da Guitarra
  12. Marinho
  13. Didi
  14. Guru
  15. Ximbinha
  16. Manoel Cordeiro
  17. Pio Lobato
  18. Félix Robatto
  19. Rosivaldo Cordeiro
  20. Lucas Estrela

Capítulo Extra

Carlos Marajó – O guitarrista que nunca existiu. A história do pseudônimo criado pela Gravasom para a série Guitarradas, utilizado inicialmente por Oseas e, posteriormente, por Aldo Sena, revelando uma curiosa estratégia da indústria fonográfica amazônica dos anos 1980 e um dos episódios mais singulares da história da guitarra na região.

  • Extra 2 – Matéria com outros novos guitarristas de lambada/guitarrada da última geração em atividades na região.

Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Senhor F)

2 respostas a “Mestres da guitarrada, o coração elétrico da Amazônia”

  1. Avatar de Gilberto Costa
    Gilberto Costa

    Senhor F diminui minha ignorância musical. Obrigado e viva o som que vem do Norte do Brasil!

  2. Senhor F apura os nossos ouvidos e nos abre novas perspectivas musicais. Vamos adiante!

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