Lançado em 2001 numa dobradinha certeira da lendária Monstro Discos com a Migué Records, “Cada dia mais a mesma coisa!” (ouça abaixo) é um retrato fiel, barulhento e debochado da efervescente cena alternativa de Florianópolis daquela época.
É a mesma panela fervente que orbitava o saudoso Underground Rock Bar na Lagoa da Conceição, palco do 1º Senhor Festival, e que revelou para o país contemporâneos brilhantes como a banda Pipodélica.
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Mas enquanto outras turmas locais buscavam uma psicodelia mais elaborada ou acenavam ao mainstream, Os Ambervisions pisaram fundo no acelerador da subversão estética, entregando um registro que é puro suco de rock de garagem, surf music e humor escrachado.
Comandada pelo impagável crooner Zimmer, escoltado pelas guitarras de Amexa, o baixo de Arioli e as baquetas de Cachorro, a banda construiu um universo lírico e sonoro que parece ter escapado direto de um filme B ou de uma chanchada de terror.
O som é uma colisão frontal entre a urgência do post-punk, a acidez de guitarras banhadas a reverb, faíscas de Dick Dale e aquela herança inegável do brega e da Jovem Guarda mais marginal.
É só dar o play na bolacha prateada para ser atropelado por pedradas temáticas inesquecíveis como “O Rei Elvis”, “O Segredo da Múmia” e “Zé do Caixão”, faixas que escancaram a reverência dos caras ao cinema trash nacional e à cultura pop bizarra.
O sarcasmo come solto e sem freios em crônicas urbanas deliciosamente tortas como “Motorista de Domingo”, “Proteção UV 400”, “Chá das 5” e a genial “As Coisas Melhoraram Desde Taylor & Fayol”, provando que a irreverência era a principal arma do grupo.
Ouvir “Cada dia mais a mesma coisa!” hoje, mais de duas décadas após seu lançamento, é mergulhar de cabeça nos tempos de ouro da nossa cena independente, da “descoberta da internet” e dos festivais de guitarras pelo interior do país.
É um verdadeiro clássico cult do underground brasileiro que envelheceu incrivelmente bem — ou, como os próprios caras brincam no título, continua “cada dia mais a mesma coisa”, e no caso deles, isso é um baita de um elogio.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)






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