“E eu tenho aqui uma bandinha que toca blues”, disse o aprendiz de agitador cultural, Antônio Peticov, ao organizador das jam sessions que ocorriam no auditório do jornal Folha de S. Paulo, no centro de São Paulo, em meados dos anos sessenta.
A “bandinha” era, na verdade, o Six Sided Rockers, núcleo do que depois resultou nos Mutantes, naquele momento cumprindo o papel de acompanhantes do músico Túlio, uma das promessas do nascente rock paulistano.
E o papo do “blues” era a estratégia de Peticov para introduzir o rock no recinto, algo ainda difícil, devido ao preconceito que ainda imperava, estimulado pelos meios de comunicação. “Como é que eu vou por rock aqui? O que os caras estão tocando? Estão tocando jazz! Ah …! Olha, seu fulano, blues é jazz …”.

Esse era, na verdade, o segundo lance de Peticov, que já tinha apresentado anteriormente o Túlio Trio, com Rita Lee e Suely Chagas, aos organizadores da III Jam Sesssion, em 5 de julho de 1965. Ainda nos limites do repertório permitido, o trio tocou covers de Mahalia Jackson, Peter, Paul & Mary e Ray Charles.
“Aí eu fui engrossando um pouco, botava um bateria. Uma vez foi com o Arnaldo e o Rafael, já foi mais roquinho”, segue ele, hoje divertindo-se com a estratégia de guerrilha adotada para ocupar aquele espaço, um dos únicos da época.
Em 26 de julho, finalmente, com a apresentação do Six Sided “Jazz”, nome providencialmente inventado de última hora, Peticov e a garotada conquistaram o espaço, tocando seu mix de jazz disfarçado, (rhyth’n’) blues e, claro, rock and roll.
“O Túlio, era aquele sujeito de terninho, mas na hora que sentava no piano, era uma barbaridade”, recorda Peticov, que já tinha enveredado pelo caminho das artes. “Ele foi o primeiro cara que eu conheci na minha área de ação, que gostava de rock, que cantava, a gente ficou amigo no ato. Eu ia na casa deles, ele era riquíssimo, uma exuberância de tudo”.
“Aí – segue contando Peticov – Túlio ganhou o concurso do programa de rock do Antônio Aguillar, e o prêmio era gravar um disco. Então, ele veio pedir pra montar uma banda pra ele”. Túlio, no entanto, acabou gravando seu único registro – “I Got a Woman”, de seu ídolo Ray Charles – com a banda The Hitch-Hikers. A música consta do álbum ‘Reino da Juventude’, com foto do disc-joquéi Antonio Aguilar na capa, lançado pela Continental.
“Nessa mesma época em que fiquei amigo de Túlio, comecei a me relacionar com os Mutantes. O Sérgio e o Arnaldo, de um lado – primeiro o Arnaldo e, depois o Sérgio; e do outro, a Rita. Falo de lados, porque eram bairros distantes, opostos (formava um triângulo, em relação à Mooca: a Pompéia, onde estava o Arnaldo e o Sérgio e a Vila Mariana, da Rita e das meninas”.
“A gente vivia pinçando os caras que eram interessantes. E a gente acabava se encontrando. Nem todos tinham telefone, raros tinham carro, era tudo longo, difícil, tinha que querer mesmo. Da minha casa, na Moóca, até a casa da Rita ou Arnaldo era 1h30, dois ônibus, tinha que querer ir lá e, sem grana ainda, tinha que arranjar o troquinho pra pagar o ônibus”, conta Peticov.
“Então, propus a eles montar uma banda com o Túlio. A Rita tinha o trio dela, o Arnaldo brincava com uns conjuntinhos e o Sérginho estava começando, tinha doze anos. Apresentei o Túlio. E eles sempre desdobrando, eles eram muito pentelhos, eram sempre os melhores do mundo”.
“Mas aí, montaram a banda, um sexteto: Sérgio, Arnaldo, Rita, Suely, Rafael e Pastura. Fizeram uns ensaios e, nesse meio tempo, o cara morre”, relembra Peticov, ainda hoje perplexo com a fatalidade que se abateu sobre o amigo. Túlio morreu em um acidente de carro, no interior de São Paulo, naquele mesmo ano.
- Entrevista com Antônio Peticov, em São Paulo, no início dos anos 2000.
Foto: Reprodução.






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