Na grande bacia cultural da música amazônica, poucas manifestações traduzem tão bem a ideia de uma modernidade cabocla quanto a música de beiradão.
Impulsionada pelas chamadas “ondas tropicais” — os potentes sinais de rádio caribenhos que invadiam a floresta trazendo mambo, cumbia e merengue —, essa sonoridade forjou um mercado fonográfico pujante, independente e totalmente alheio à hegemonia cultural do Sudeste.
É exatamente no epicentro desse cenário de invenção e festa que repousa uma das joias da nossa série “Clássicos do Sax Amazônico”, o antológico LP “Merengando no Banzeiro”, disco de estreia do mestre Chiquinho David, lançado em 1982.
Com o primeiro disco, Chiquinho David apontava para a modernização do beiradão, com a introdução de aparelhagens e instrumentos
elétricos, amplificando as festas dos beiradões até então embaladas por instrumentos acústicos.
- Em 1982, gravou o primeiro LP “Merengando no Banzeiro”, no
estúdio da Rádio Tropical, em Manaus. Um ano depois, lançou “O Maior Saxofonista da Amazônia”, gravado em Belém, no estúdio Watson. Em 1984, foi a vez de disco autointitulado “Chiquinho David – Vol 3”, também gravado no estúdio Tropical.
Por outro lado, ao unir o “merengue”, ritmo quente e percussivo da bacia caribenha, com o “banzeiro”, o característico vaivém das águas provocado pelas embarcações nos rios da Amazônia, o músico traduziu em palavras a alquimia sonora que ocorria nos salões de festa do Norte.
Musicalmente, “Merengando no Banzeiro” é uma aula de fusão rítmica e destreza instrumental. A levada das faixas passa longe de ser uma mera cópia da música estrangeira que ecoava nos rádios de pilha dos ribeirinhos.
Chiquinho Davd deglute a influência caribenha e a devolve injetada com fortes doses de carimbó, chorinho e da rítmica nordestina que também subiu os rios com os trabalhadores que migraram para a região.
O timbre do seu saxofone é ágil, malicioso e repleto de síncopes, dominando um balanço quebrado e acelerado que exige do dançarino aquele molejo rápido, a verdadeira cara do Norte.
Ao merengar no seu banzeiro particular, Chiquinho Davd não apenas animou as noites de beiradão, mas ajudou a escrever, nota por nota, o DNA sonoro definitivo da Amazônia moderna.
Redescobrir este LP hoje é constatar a força de uma música instrumental brasileira que, em sua época, foi extremamente popular e de vanguarda.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).






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