Existe um lugar na Argentina onde a música não é apenas arte, mas a própria certidão de nascimento de um povo. Esse lugar é Santiago del Estero, no Norte do país.

E se Santiago del Estero é o berço do folclore, a Família Carabajal é, sem sombra de dúvida, a linhagem que carrega o seu DNA mais puro e vibrante por décadas.

  • Santiago del Estero é a província mais antiga da Argentina, fundada em 1553. Geograficamente, a província está localizada na região do Gran Chaco, caracterizada por uma vasta planície com clima semiárido e temperaturas elevadas. A província é reconhecida como o “Berço do Folclore Argentino”, devido à sua influência na música e na dança tradicionais do país, sendo o local de origem de ritmos como a chacarera.

Nesse contexto, desde Carlos Carabajal, “el padre de la chacarera”, os Carabajal são uma instituição cultural, uma árvore genealógica cujas raízes se aprofundaram na terra para dar frutos que definiram a identidade sonora de uma nação.

O folclore argentino, em sua essência, é um diálogo entre a terra e o céu, entre a melancolia e a celebração. E os Carabajal são os mestres dessa conversação.

O legado desta família, que se estende por mais de meio século, é a própria história viva da chacarera e da zamba, os dois pilares rítmicosdo noroeste argentino.

Eles não apenas interpretaram esses gêneros; eles os moldaram, os popularizaram e, acima de tudo, garantiram sua sobrevivência e relevância através das gerações.

Os guardiões da chacarera e da zamba

A chacarera, com seu compasso ágil e sincopado em 6/8, é o ritmo da festa, do sapateado no chão de terra, da narrativa ligeira sobre o cotidiano e as lendas de Santiago. É o som que convida à dança frenética e à alegria comunitária.

O patriarca, Carlos Carabajal, eternizado como “El Padre de la Chacarera”, estabeleceu o cânone, mas a linhagem seguiu, com nomes como Cuti e Roberto Carabajal refinando a técnica e a poesia, e Peteco Carabajal injetando uma sensibilidade contemporânea que expandiu as fronteiras do gênero .

Já a zamba é o contraponto lírico, o lamento elegante em 3/4, a dança do lenço que é puro cortejo e sedução. É o gênero da saudade, do amor perdido e da homenagem à paisagem. Os Carabajal produziram zambas de uma beleza desarmante, consolidando o estilo santiagueño que é marca registrada de sua arte.

A ponte geracional: Milo J e a redescoberta

Em um cenário musical cada vez mais fragmentado, o maior testemunho da atemporalidade dos Carabajal veio com a colaboração com o jovem fenômeno do trap e da música urbana, Milo J – um encontro entre o passado mais profundo da Argentina ao seu futuro mais imediato:

Em seu álbum de 2025, “La Vida Era Más Corta”, Milo J fez uma reverência profunda à tradição ao incluir a faixa “El invisible”, que conta com a participação de Cuti e Roberto Carabajal .

Este encontro não é apenas um feat comercial; é um poderoso ato de passagem de bastão, onde a voz e a instrumentação ancestral do folclore se encontram com a poesia e a batida da juventude.

Essa redescoberta foi amplificada por iniciativas como o projeto ¡FAlklore!, que busca criar pontes entre o tradicional e o contemporâneo.

A performance de Milo J no evento, interpretando a clássica “La pucha con el hombre” (de Cuti Carabajal), reforçou a ideia de que o repertório da família é o alicerce sobre o qual a nova música argentina pode se apoiar e se reinventar.

Ouça a playlist “CHASQUI – O folclore argentino pelos Carabajal”, por Fernando Rosa.
  • Assista o documentários Los Carabajal, músicos de família,abaixo

A Família Carabajal, portanto, não é apenas um capítulo da história da música; é a própria espinha dorsal do folclore argentino. Sua arte é a prova de que a tradição, quando vivida com paixão e rigor, não envelhece. Espera o momento certo para ser redescoberta no coração de uma nova geração.

Foto: https://sgodelest.blogspot.com/

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