Antes de se tornar um dos hinos mais conhecidos do movimento pelos direitos civis, Blowin’ in the Wind já existia — não como título, mas como memória musical.

Sua melodia remonta a No More Auction Block, um spiritual afro-americano do século XIX, cantado por ex-escravizados como relato de dor, sobrevivência e libertação. Era uma canção de fim de caminho, do fim do leilão de corpos, da servidão, e o começo incerto da liberdade.

Quando Bob Dylan escreve Blowin’ in the Wind, em 1962, ele não apenas recupera essa linhagem, ele a reativa. No universo de Greenwich Village, Dylan se apropria de uma melodia marcada pela história da escravidão e a transforma em um conjunto de perguntas abertas sobre guerra, justiça, liberdade e indiferença moral.

Em Folk Music: Uma Biografia de Bob Dylan em Sete Canções, o jornalista Greil Marcus afirma que Blowin’ in the Wind funciona como um “reencontro” entre o presente e uma voz antiga da América, uma canção que parece não ter autor, como se sempre tivesse existido.

Para Marcus, Dylan não cita No More Auction Block como referência intelectual, ele a invoca como fantasma.

Dylan, segundo Marcus, escreve algo que soa imediatamente tradicional, quase anônimo — como um espiritual, um hino ou uma canção popular passada de boca em boca.

No Festival New Port, em 1963, Bob Dylan, Joan Baez, Peter, Paul and Mary e The Freedon Singers.

Da tradição folk ao alcance popular

Gravada por Dylan em 1962 e lançada em The Freewheelin’ Bob Dylan (1963), a canção ganhou projeção imediata quando foi regravada por Peter, Paul and Mary, alcançando o grande público. Para Greil Marcus, essa circulação não diluiu a canção — ao contrário, confirmou sua natureza coletiva.

Joan Baez, ao incorporá-la ao seu repertório, reforçou o elo com o público folk mais tradicional e com o ativismo político direto.

Já a releituras de outros clássicos de Dylan por bandas como The Byrds foram decisivas para dialogar com o rock e com a juventude urbana dos anos 1960.

Marcus observa que essa multiplicação de versões não descaracteriza a canção. Para ele, as diversas releituras confirmam como algo aberto, reaproveitável, vivo, exatamente como os spirituals que a originaram.

O novato Jesse Welles e Joan Baez ao vivo no The Fillmore, San Francisco, em abril de 2025.
  • Recentemente, Jesse Welles, um jovem cantor e compositor retomou novamente a linhagem sonora e também poética e social de Bob Dylan e das canções de protesto. Em meio aos protestos contra o presidente Donald Trump, ele compôs “No Kings”, questionando a postura imperialista do presidente norte-americano. Também compôs “Venezuela” em defesa do país latino-americano ameaçado pelos Estados Unidos.

Eco global e versões brasileiras

Ao longo das décadas, Blowin’ in the Wind atravessou fronteiras e idiomas. No Brasil, ganhou versões e interpretações que dialogam tanto com a tradição folk quanto com contextos locais de contestação e sensibilidade política.

Gravações de Diana Pequeno, Margareth Menezes e, durante os anos dois mil, Vanguart, além de outros intérpretes brasileiros demonstram como a canção se encaixa naturalmente em repertórios que lidam com temas como liberdade, identidade e resistência.

Linha do tempo sonora

  • Século XIX – “No More Auction Block” – Canção surgida entre ex-escravizados no século XIX, especialmente entre aqueles que haviam fugido para o Canadá após a abolição britânica. O verso central — “no more auction block for me” — marca o fim dos leilões de pessoas, convertendo trauma histórico em canto de libertação.
O registro de “No more auction block, com a cantora folk Odetta ao vivo no Carnegie Hall.
  • Década de 1950 – Odetta / “No More Auction Block” – A leitura solene, grave e direta reintroduz o espiritual no contexto do folk revival e do nascente movimento pelos direitos civis. Greil Marcus observa que Odetta cantava essas músicas como se ainda fossem urgentes, não como peças de museu. Para Dylan, ela representava uma ligação viva com uma América profunda e não resolvida.
A versão gravada por Bob Dylan para “No more auction block”, que inspirou “Blowin’ in the wind”.
  • 1962 – Bob Dylan / “No More Auction Block” – Antes de escrever Blowin’ in the Wind, Bob Dylan cantou e chegou a gravar “No More Auction Block”, assumindo explicitamente a melodia consagrada por Odetta. Dylan absorve a canção ao cantá-la — internaliza seu ritmo, sua cadência e seu peso histórico. Para Greil Marcus, é nesse ponto que Dylan deixa de ser apenas um intérprete da tradição e passa a dialogar com ela.
Um dos primeiros registros, antes da versão oficial, para a canção”Blowin’ in the wind”, em 1962.
  • 1962 — Bob Dylan / “Blowin’ in the Wind” – A partir da mesma linha melódica de No More Auction Block, Dylan escreve uma letra inteiramente nova. Sai o relato explícito da escravidão; entram perguntas morais universais. Greil Marcus ressalta que Dylan cria uma canção que soa antiga desde o nascimento, como se tivesse sido “descoberta” e não escrita. A autoria se dilui — característica essencial da música folk.
A gravação oficial de “Blowin’ in the wind” abrindo o disco “The Freeweelin’ Bob Dylan”, em 1963.
  • 1963 — Bob Dylan / “Blowin’ in the Wind” – Gravada para The Freewheelin’ Bob Dylan, a versão definitiva apresenta voz, violão e gaita — despojamento total.
  • 1963 – Peter, Paul and Mary / “Blowin’ in the Wind” – A gravação que levou a canção às paradas e ao público de massa.
  • 1963–64 — Joan Baez / “Blowin’ in the Wind” – A versão que reforça o elo com o folk tradicional e o ativismo direto.
Playlist “CHASQUI – A saga de Blowing’ in the wind”, produzida por Senhor F Social Clube.
Dylan com Keith Richards e Ron Wood, dos Stones, em show de apoio aos produtores rurais do EUA.
O novato cantor e compositor norte-americano Jesse Welles denúncia o ataque à Venezuela.

Foto: Senhor F Social Club (do acervo).

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