Quem ouve o som de Black Keys e White Stripes, ou ainda de Detroit Cobras, Soledad Brothers ou Dirtbombs, pode perguntar-se de onde saiu tal mistura de garagem, rhythm’n’blues e soul music.
A resposta é simples: só podia ter saído de Detroit, sede da Motown e também berço da garagem e do pré-punk, nos anos sessenta e início dos anos setenta. Por Detroit, entenda-se também a próxima e agregada cidade universitária de Ann Arbor e seu clima liberal.
Na era pré-Beatles, a gravadora Motown inundou o mundo com seu catálogo de intérpretes e grupos vocais, entre os quais se destacavam Smokey Robinson & The Miracles, Marvin Gaye, The Supremes e Jackson Five, de onde saiu Michael Jackson.
O rhythm’n’blues embalado em arranjos esbranquiçados, mas com forte apelo rítmico, influenciou toda a geração dos anos sessenta, que produziu milhares de covers de hits da gravadora. Dos Beatles aos Rolling Stones, passando pelos Animals e por centenas de outros grupos, ninguém escapou de fazer suas releituras do som da Motown.
Em meados da década, com a explosão da beatlemania, a música branca produzida na cidade ganhou outros contornos, mais radicais, agressivos e, depois, pesados. Essa mistura explodiu nos anos setenta, alimentando o universo roqueiro com bandas antológicas que influenciaram as gerações seguintes, especialmente o punk rock e o som de garagem.
Incendiando e sustentando a cena, destacava-se a casa de espetáculos Grande Ballroom, que tinha no DJ e produtor Russ Gibb uma espécie de Bill Graham local (o cara dos Fillmore East/West). Todos os grandes heróis do rock sessentista tocaram no Ballroom, e ali foi gravado o clássico Kick Out The Jams, do MC5.
Liderada por Mitch Ryder, uma espécie de Little Richard branco e punk, a banda Mitch Ryder & The Detroit Wheels deu o tom do que viria pela frente na segunda metade dos anos sessenta. No início dos anos setenta, Mitch Ryder deu continuidade ao seu trabalho com o grupo Detroit, com um acento mais pesado.
Da mesma época é a clássica ? Mark & The Mysterians, com seu órgão Farfisa, responsável pelo mega-hit 6 Tears, para muitos a matriz de todas as bandas modernas de garagem.
Avançando na mesma direção sonora, em 1967 o MC5 já havia acumulado a fama de melhor banda da cidade, o que veio a confirmar-se posteriormente com o segundo álbum, Back in USA, lançado em 1970. Além do som agressivo, que resultava em shows arrasadores, o MC5 contava com o apoio logístico de John Sinclair, líder dos Panteras Brancas, que agregava um tom político ao som do grupo.
Sem o mesmo discurso politizado, mas profundamente vinculado às tensões existenciais da juventude da época, o grupo The Stooges também surgiu em Detroit, no final da década de sessenta. Com Iggy Pop à frente, o grupo aprofundou a linhagem garageira, gravando três álbuns clássicos que influenciaram o futuro punk.
De vida curta, o grupo acabou em 1973, com Iggy Pop retornando algum tempo depois em carreira solo. Dos Stooges saiu ainda o clássico Ron Asheton’s Destroy All Monsters, nos anos setenta, assim como o Sonic’s Rendezvous Band, da união de integrantes dos Stooges e do MC5.
Outros grupos também se destacaram na cena local e conquistaram seu lugar na história do rock. Entre eles, The Amboy Dukes (de Ted Nugent), The Rationals (de Scott Morgan, também do Guardian Angels) e ainda o SRC, todos direcionados para a garagem e/ou psicodelia, com forte acento de rhythm’n’blues.
Também saíram da cidade para o sucesso nacional e mundial os grupos Brownsville Station, de Cub Koda, e principalmente o Grand Funk Railroad, com seu radiofônico som pesado-pop.
Ainda de Detroit é o grupo Alice Cooper, que se mudou para a cidade antes de explodir internacionalmente com sua agressividade trash-pop nos álbuns School’s Out e Killer, de 1972 e 1973, respectivamente.
Ainda vale destacar, o grupo The Up, braço musical dos Panteras Brancas, também sob a direção de Sinclair, que criou o selo Total Energy, subsidiário da já extinta Bomp Records.
Outros grupos também se destacaram nos anos setenta, especialmente The Rockets, Uprising, The Sillies, The Ramrods e Coldcock. Mais recentemente, nos anos noventa, The Gories, The Lovemasters e The Hentchmen deram sequência ao som de garagem da cidade.
Discografia básica
* Motor City’s Burnin’ (Volumes 1 & 2) – Coletânea 1960/2000 (Total (Energy/Bomp Records)
* Mitch Ryder & The Detroit Wheels – Rev-Up: The Best of Mitch Ryder & the Detroit Wheels
* The Amboy Dukes – The Amboy Dukes
* ? Mark & The Mysterians – 96 Tears
* SRC – Black Sheep
* The Rationals – Best Of
* MC5 – Kick Out The Jams (ao vivo)
* The Stooges – The Stooges
* The Up – Killer Up
* Alice Cooper – Killer
* Grand Funk Railroad – Closer to Home
* Brownsville Station – Smokin’ in the Boys’ Room: The Best Of
* Sonic’s Rendezvous Band – City Slang
* Destroy All Monsters – 1974–76 (coletânea)
* The Sillies – America’s Most Wanton
* The Gories – Houserockin’
Foto: Senhor F Social Club (acervo).






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