Em tempos onde o digital domina, revisitar a obra analógica de Astronauta Pinguim é mais do que nostalgia; é uma aula de história do rock independente nacional.
O texto original de apresentação do selo Pineapple Music (e sua subsidiária Apple “Pine” Music) ecoa hoje como um manifesto de uma era de ouro: “Orgulhosamente apresentam o disco Petiscos: Sabor Churrasco / Switched-on Bah!”.
Foi assim que fomos apresentados, no início dos anos 2000, ao tão aguardado álbum daquele que viria a ser coroado como o “Lafayette gaudério”.
A proposta? Uma ousadia estética que permanece fresca: regravar os hinos sagrados do rock gaúcho em roupagem instrumental, embebidos em texturas espaciais.
Quem estava lá lembra da “entrada” servida antes do prato principal: o single contendo “Melissa” e “Estou Amando Uma Mulher”, faixas que já adiantavam a genialidade presente no álbum completo.
- As versões não foram feitas com meros plugins de computador. Foram construídas à base de “ferro e madeira”: moogs gordurosos; órgãos Hammond vibrantes; vocoders robóticos; string machines e uma coleção invejável de teclados vintage.
As sessões, que hoje ganham ares de lenda, ocorreram entre dezembro de 2000 e meados de 2003, no estúdio Groove Áudio. A produção foi assinada pelo próprio Astronauta em parceria com Régis Sam (figura carimbada da cena e baixista da banda de Frank Jorge).
A concepção visual foi de Tina Brown, com fotografia de Giovani Paim. A capa tira uma onda deliciosa com o “banana album” do The Velvet Underground. Mas, aqui é Brasil, sai a banana de Andy Warhol, entra o abacaxi tropical.
O próprio Pinguim relembra a gênese dessa pérola da pop art nacional:
“Estava em São Paulo quando falei para a Tina Brown se ela faria [a capa] para mim. Sim. Aí, um dia, depois de muito pensarmos, tive a ideia: um abacaxi no lugar da banana do Andy Warhol. Boa referência, e eu gosto muito de pop art.”
Hoje, Petiscos não é apenas um disco de versões; é um documento essencial da psicodelia eletrônica brasileira, unindo a tradição do rock do Rio Grande do Sul com a estética retro-futurista que Senhor F sempre celebrou.
A seguir, as músicas comentadas à época pelo próprio autor do álbum:
1 – Lugar do Caralho (Júpiter Maçã)
O disco Sétima Efervescência é um dos melhores álbuns do rock gaúcho, na minha opinião. E o Júpiter é um grande compositor, além de grande amigo e colega de banda. Tinha que ter uma música dele no meu álbum. Escolhi o hit, a faixa de abertura de seu primeiro disco, para ser a primeira do meu também. Aí convidei o Júpiter para tocar meu baixo Gibson na composição dele. É a música de trabalho de Petiscos…, com direito a clipe. Usei meu órgão Crumar em toda ela, exceto na parte meio oriental, que é um sampler de cítara como base para os Moogs, fazendo efeitos tipo theremin. Foi regravada pelo Wander no seu Baladas Sangrentas também.
2 – Nunca Diga (Frank Jorge)
Muito Jovem Guarda esta música. Não fugi do clima. Fiz uma versão bem Lafayette dela, sem Moogs ou efeitos. Toco o Crumar e, na introdução, um instrumento chamado kalimba, que o Régis tinha no estúdio. Meia Graforréia toca nela: Frank Jorge no contrabaixo Gibson e Alemão Birck no clarinete. O Régis toca cavaquinho. O Pato Fu tem uma versão desta música também.
3 – Estou Amando Uma Mulher (Flávio Basso)
Outra do Júpiter, só que assinada como Flávio Basso. Dos tempos dos Cascavelletes, uma das principais bandas do rock gaúcho. Foi a primeira a ser gravada, quando os planos eram gravar apenas um single, e não um disco completo. Tem duas partes: uma mais Serge Gainsbourg, mais lenta e com ênfase no órgão. A parte dois tem Moogs com citações de Kraftwerk e acaba com “Hall of the Mountain King”, do Grieg. Esta é uma das duas com bateria no disco, a cargo do Bolada, e o contrabaixo foi tocado pelo Phillip Ness. Ah, o Júpiter usou esta versão no seu filme Apartment Jazz, de 2001.
4 – Sandina (Jimi Joe)
Esta já foi gravada pelos Replicantes nos anos 1980 e pela Cretinice, em 1998. É um clássico. Também fiz em duas partes, tipo “Estou Amando…”. Na primeira parte, eu toco o Crumar, um Elka Strings e o contrabaixo Gibson SG. O Jimi usou uma Gibson Les Paul verde. A segunda parte é uma tentativa de drum’n’bass vintage (seja lá o que for isso…), que, fora a guitarra do Jimi, é só bateria eletrônica e Moog (isso inclui o baixo, a melodia e os passarinhos no final da música).
5 – Amônia (Plato Divorak)
Toquei com o Plato em 1998. Ele é uma figura. Fizemos shows memoráveis e outros bizarros, tipo só eu, ele e um baterista que até hoje não sei quem era, na Torre do Dr. Zero. Gravei “Amônia” mais por gosto pessoal do que por ser um “hit”. Tem citação de “Virginia Plain”, do Roxy Music (os discos do Brian Eno foram uma inspiração direta para este álbum). Toco o Moog Prodigy, o Crumar e o vocoder; o Régis toca o Gibson SG vermelho. É isso. O telefone do final foi feito no Moog.
6 – Amor e Morte (Júlio Reny / Jackie Vallandro)
Ficou perfeita. Só o Moog Source, bateria eletrônica vintage e solo de violão ao contrário, do Tavares (estilo Johnny Marr). Acho que lembra um pouco aquelas coisas easy listening italianas. Ficou bem diferente do original. Tomara que o Júlio goste. Eu toquei a linha melódica e o Régis a linha de baixo no Moog (com direito a uma citação de “London Calling”, do Clash).
7 – Epilético (Diego Medina)
Clássico na Ipanema FM na época em que saiu em demo tape. Acho que a Maria do Relento também gravou. Resolvi gravar de última hora, pois aprendi (jura…) a tocar pandeiro quando gravava com a banda Lest3r (em SP) e queria colocar no disco. Aí fiz tipo um samba, ou algo assim. Tem o órgão Crumar e o Moog Source de baixo, ambos tocados por mim, além da percussão. O Silvano Freitas tocou cavaquinho e a Maristela gravou o vocoder. No final da música, o que se ouve é um sampler que o Régis arranjou e, diz ele, é a Mocidade Independente de Padre Miguel.
8 – Fazê um Bolo (Paulo Mello)
Melodia boa. Do Taranatiriça, lembram? A Bandaliera regravou no seu 15 Anos. Convidei o Pedro Mello, filho do Paulo, para tocar o contrabaixo Gibson, e o Pedro Petracco, filho do Márcio Petracco (TNT), para tocar bandolata, que é um instrumento inventado pelo pai dele. Os caras são muito gente boa. Eu toco o Crumar, o Moog Prodigy e o vocoder na faixa. Gosto do final, quando fica só o vocoder.
9 – Melissa (Carlos Carneiro / Rossatto)
Junto com “Estou Amando…”, esta foi gravada ainda em 2000. A Bidê ou Balde até já usou a versão num clipe deles. É Crumar, Moog Prodigy, vocoder e um teclado que eu tenho e que nem funciona mais, o Casio CZ-5000 (na introdução). O Régis tocou num contrabaixo Giannini 014 e o Bolada tocou bateria.
10 – Eu Tenho uma Camiseta Escrita Eu Te Amo (Wander Wildner)
O Wander é uma figura. Showman. Esta música caiu como uma luva para este projeto. Já foi regravada pela Penélope e por Oswaldir e Carlos Magrão. Tem Crumar, Moog Prodigy e Elka Strings, além dos samplers de Mellotron no final. O Régis tocou o Gibson SG, mas na parte discoteca foi o Phillip Ness. O “1, 2, 3, 4” do início é o Bolada. Clássico.
- Playlist-bônus: A Vingança de Lafayette, com 18 temas inspirados em Lafayatte, gravados nos anos 2000 com presença do órgão Hammond e outras tecladeiras (ouça abaixo).

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).






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