Batizada de Turma do Matoso, aquela confraria reunia alguns dos nomes que moldariam o pop brasileiro nas décadas seguintes, destacando Erasmo Carlos, Tim Maia, Jorge Ben — ainda o “Babulino”, apelido tomado de Bop-A-Lena, de Ronnie Self —, Wilson Simonal, Edson Trindade, Wellington, Arlênio e China. Um caldo juvenil, suburbano e elétrico, onde rock, doo-wop e música negra norte-americana circulavam livremente, antes de qualquer canonização.

Dessa rede de relações — que também contou, em momentos pontuais, com a presença do visitante Roberto Carlos — surgiram grupos fundamentais do período pré-Jovem Guarda: The Sputniks, com Tim Maia e Roberto; Os Terríveis, também com Roberto; e The Snakes — nome emprestado de uma marca de guitarra da época —, formado por Erasmo, Arlênio, Edson Trindade e China.

Num primeiro momento, The Snakes acompanhou Roberto Carlos quando o futuro “rei” ainda se apresentava no programa Clube do Rock, comandado por Carlos Imperial. Sobre essa fase, Erasmo Carlos foi sempre preciso ao desfazer confusões recorrentes da historiografia:

“Eu nunca participei dos Sputniks. Os Sputniks eram um conjunto com Arlênio Lívio, Wellington e Tim Maia. Eu nem cantava nessa época, sequer vi um show dos Sputniks. O que soube é que eles brigaram: o Tim foi cantar sozinho, o Roberto foi cantar sozinho, e o Arlênio, que adorava esse negócio de conjunto vocal, me convidou para fazer parte dos Snakes, um grupo vocal. E montamos os Snakes: eu, Arlênio, Edson Trindade e o Zé Roberto, o Chininha”, recorda Erasmo, em entrevista publicada em seu site oficial.

Ele prossegue:

“Começamos a ensaiar e fomos fazer vocais para o Roberto Carlos, que já cantava sozinho, como o ‘Elvis Presley brasileiro’, nome que o Carlos Imperial deu, e também para o Tim Maia, o ‘Little Richard brasileiro’. A gente participava dos shows do Clube do Rock: os Snakes abriam cantando Del-Vikings, depois acompanhávamos o Tim e, em seguida, o Roberto. Eu nunca participei dos Sputniks, e o Roberto nunca participou dos Snakes. Ele cantava acompanhado pelos Snakes — era diferente.”

Depois de circular intensamente por televisão, rádio e festinhas suburbanas, o grupo conquistou espaço próprio e lançou, em 1960, o álbum Só Twist, um registro emblemático daquele momento de transição. O disco reúne covers de clássicos do doo-wop, como Sh-Boom e At the Hop, ao lado de originais como Namorando, de Carlos Imperial — uma espécie de crônica musical dos anos dourados do rock juvenil carioca.

> Siga o canal “Senhor F Social Club” no WhatsApp

À exceção de Blue Moon e Runaway, incluídas mais tarde na coletânea As 14 Mais – Volume 6, o álbum permaneceu praticamente inédito até o início dos anos 2000, quando a Sony decidiu relançá-lo em formato “dois em um”, ao lado de um disco de Sérgio Murilo. O disco Só Twist revela um grupo surpreendentemente maduro, sobretudo se considerada a pouca idade de seus integrantes, com destaque para um Erasmo Carlos ainda adolescente, mas já plenamente consciente de sua vocação.

Entre 1962 e 1963, The Snakes ainda acompanhou Reynaldo Rayol, enquanto Erasmo começava a emplacar composições e versões gravadas por Cleide Alves e pelo próprio Rayol, abrindo definitivamente o caminho para sua carreira individual. Ele ainda passou pelo Renato e Seus Blue Caps, com quem gravou um álbum em 1962, também relançado posteriormente em formato digital.

Em 1964, Erasmo lançou seu primeiro compacto solo, com Jacaré e Terror dos Namorados, abrindo a porta para a explosão da Jovem Guarda e consolidando-se como o mais visível — mas não o único — dos talentos forjados na Turma do Matoso, um viveiro precoce de gênios que ajudaria a redefinir os rumos da música popular brasileira.

Foto: Reprodução.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Trending