A expressiva quantidade de conjuntos inscritos no Primeiro Festival da Jovem Guarda, promovido pela TV Record e realizado em São Paulo, em setembro de 1966, sob o comando de Roberto Carlos, revelou com nitidez a efervescência da cena roqueira que explodia nas garagens do país. Para além dos limites oficiais do movimento, que naquele momento vivia seu auge, emergia uma rede subterrânea, exuberante e pouco documentada, formada por milhares de grupos que encontraram no rock um espaço de expressão e pertencimento.

Somente em São Paulo, inscreveram-se cerca de dois mil conjuntos e cantores. Das classificatórias regionais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Guanabara (atual Rio de Janeiro), vieram outros três mil inscritos. A invasão da beatlemania produziu um fenômeno inédito: praticamente um conjunto em cada garagem do país. Essa cena, que raramente chegou às grandes gravadoras, funcionou como verdadeira escola para músicos, compositores e instrumentistas que marcariam as décadas seguintes da música brasileira.

As chamadas domingueiras tornaram-se o palco natural dessa geração. Em um híbrido de show e baile, milhares de grupos viveram ali suas histórias de sucesso e fama local, em todas as regiões do Brasil. Em São Paulo, os famosos “mingaus” dominicais reuniam bandas como Loupha, Sounds Five, Som Beat, Baobás, Mustangs, Código 90, Watt 69 e Colt 45, entre muitas outras, que permaneceram restritas a pequenos selos independentes e a poucos registros fonográficos. Para além da então capital do rock, a nova onda espalhava-se por todo o território nacional, gerando uma produção intensa, em grande parte esquecida pela história oficial do rock brasileiro.

No Rio de Janeiro, ainda Guanabara, destacavam-se grupos como Analfabitles, The Brazilian Bitles, os lendários The Bubbles (que nos anos setenta se transformariam em A Bolha), The Hot Dogs (primeira banda de Sérgio Hinds, mais tarde em O Terço) e The Outcasts (de Bruce Henry, posteriormente no Soma), todos presença constante nas domingueiras cariocas. A cena local ainda incluía o Blackfoot, primeira banda do baterista Gustavo Stroeter (A Bolha), além de The Blackstones, The Beggers — responsáveis por um dos compactos mais radicais dos anos sessenta, com Estes Homens Farrapos, We’re Goin’ to Aid You, Marily, Marily e Quero Viver em Paz —, Die Katz e os Cougars, considerados um dos melhores conjuntos da cidade. Paralelamente, grupos como Os Canibais transitavam entre a Jovem Guarda e um rock mais agressivo, gravando versões de Outsiders, Kinks, Merseybeats e outros ícones do rock inglês e americano.

Em Salvador, Os Minos — primeira banda do então baixista Pepeu Gomes e de seu irmão Jorginho, futuros Novos Baianos — incendiavam os bailinhos da terra de Dorival Caymmi. Após dois compactos de pouca repercussão na época, hoje verdadeiras raridades, Pepeu criou Os Leif’s, grupo que acompanharia Os Novos Baianos em seu álbum de estreia e que mais tarde se transformaria definitivamente em A Cor do Som. Um pouco mais velhos e assumidamente provocadores, Raulzito (Raul Seixas) e os Panteras já cantavam Lindos Sonhos Dourados, versão de Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, depois de uma longa jornada de devoção ao rock and roll tradicional nos programas de rádio e televisão da Bahia.

No Rio Grande do Sul, além dos The Cleans — vencedores da etapa regional e segundo colocados na final do Festival da Jovem Guarda, com Twist Train —, surgiam com destaque Os Brasas (antes Os Jetsons), de Luiz Wagner; Os Satânicos (que depois se tornariam o Som 4, de Hermes Aquino e Cláudio Vera Cruz); e, posteriormente, o grupo Liverpool. Por volta de 1967, Porto Alegre abrigava mais de uma centena de conjuntos, entre eles The Brazilian Bitles, The Best, The Saylors, The Silvers, Os Maníacos, Os Boinas Azuis, As Brasas, As Andorinhas, formação exclusivamente feminina, além de The Coiners e The Dazzles, cuja fusão com Os Cleans daria origem ao Impacto, um dos mais populares grupos de baile do Sul. Dentre todos, foi o Liverpool quem mergulhou mais fundo na psicodelia, especialmente no álbum Por Favor, Sucesso (1969), hoje um clássico do rock nacional.

No Paraná, um dos principais nomes foi Os Metralhas, liderados por Paulo Hilário, ao lado de Alfreli Amaral, Vitório dos Santos e Arci Neves. Após uma viagem aos Estados Unidos, o grupo passou a se chamar Os Metralhas Internacionais, gravando quatro compactos. A cena local ainda contava com Os Carcarás, Boneto e Seus Cometas, Os Peraltas, além de The Shelters, The Marvels e The Little Devils — cuja fusão deu origem aos próprios Metralhas. Já o The SamJazz Quintet destacou-se por uma abordagem mais pop, chegando a gravar pela Continental no final da década, com repertório que incluía versões de Sweet Caroline, de Neil Diamond, e País Tropical, de Jorge Ben.

Em Minas Gerais, o destaque foi o The Jungle Cats, com a excelente Vai, composição original de Carlos Grecco, além do medley Sapato Novo / It’s No Use, dos Byrds. Seguindo o caminho aberto pelos Brazilian Boys, a cena mineira ainda reuniu grupos como Wood Faces, Analfabitles, Os Rebeldes, Os Barranqueiros, The Flippers, The Kappers, Os Infernais e Os Flintstones. Em Brasília, já em 1967, Os Primitivos gravavam Peguei um Ita no Norte, de Dorival Caymmi, com levada psicodélica, antecipando em quase três décadas a fusão que mais tarde apareceria no forrócore dos Raimundos.

No Nordeste, Os Quatro Loucos — grupo que reunia Vital Farias e Zé Ramalho —, radicados em João Pessoa, chegaram a gravar um compacto pelo selo Rozenblit e foram, à época, o conjunto mais relevante da região. Em Recife, além de Os Moderatos, Os Bambinos e Os Éforos — todos com a participação de Robertinho de Recife —, destacaram-se Os Selvagens, de Ivinho, e The Silver Jets, de Fernando Filizola, posteriormente no Quinteto Violado. Na virada das décadas, grupos como Laboratório de Sons Estranhos e Tamarineira Village, embrião do Ave Sangria, já gestavam o som psicodélico radical que explodiria nos anos seguintes com Lula Côrtes, Lailson, Marconi Notaro, Zé Ramalho, Flaviola e o Bando do Sol, além do próprio Ave Sangria. Na vizinha João Pessoa, Os Diplomatas, Os Quatro Loucos e The Gentlemans — estes últimos também com Zé Ramalho — seguiam trajetória semelhante, apontando os caminhos que desembocariam nos anos setenta.

Playlist CHASQUI – The Brazilian Pebbles (alternativa).

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F).

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