Anos noventa. Mais exatamente, meados dos anos noventa. A ‘era neoliberal’ invadia o país, vendida como a redenção nacional. Finalmente, depois de décadas, séculos de atraso, o Brasil entraria no “primeiro mundo”. Ou seja, produtos importados, férias em Nova York e lojinhas de R$ 1,99 – quem lembra?.
Na música, o rock também se rendia à nova ordem. O sonho neoliberal traduzia-se em cantar em inglês, e apostar no sucesso “lá fora”. Alguns grupos como Graforréia Xilarmônica, Raimundos, Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre SA apontavam para outros caminhos. Alguns com mais, outros com menos consciência, mas em todos havia a marca de resistência.
Um grupo, no entanto, apesar de menos “sério”, talvez tenha sido o mais radical de todos na contestação do que estava acontecendo no país. Os Mamonas Assassinas, infelizmente interrompidos em seu levante suburbano-humorístico-musical por um acidente logo após o primeiro disco. Vista mais como um subproduto cultural daquele momento, a banda, justiça seja feita, produziu a crítica mais frontal e escrachada dos valores neoliberais.
Enquanto o padrão neoliberal era consumir produtos importados, os Mamonas cantavam a “felicidade” de “um crediário nas Casas Bahia”. Ao invés de um carro importado – “um Escort”, talvez – eles celebravam a sua “Brasília amarela com roda gaúcha”. Se a moda era passar as férias esquiando em Aspen, eles entoavam loas às maravilhas do suburbano litoral paulista. Em cada música, a farra elitista denunciada pela verdadeira realidade da maioria dos excluídos.
Na música, eles também não deixaram de assestar suas palavras ferinas e divertidas. Para os rendidos ao cantar em língua estrangeira, a banda dedicou ‘Débil Metal’, onde tiravam a maior onda em um “enrolês” mais sem sentido possível. Ao “rock sério”, por outro lado, eles dedicaram ‘Cabeça de Bagre II’, com letra falando em ‘… fome, miséria, incompreensão, o Brasil é “treta” campeão”.
Passados tantos anos de seu lançamento, apesar de um certo ranço elitista, o disco ‘Mamonas Assassinas’ ganhou atualidade histórica, merecendo uma reverência. Obra inteligente e de grande apelo popular, inscreve-se na tradição da música e do rock brasileiro de humor, ao lado de gente como Premeditando o Breque, Língua de Trapo ou o mais recente Repolho, de Chapecó. “Can’t you understand?”.
Texto originalmente publicado na Revista Senhor F e atualizada para esta nova publicação.
Foto: Divulgação.






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