A origem da publicação digital “Senhor F – A Revista do Rock”, editada e postada desde Brasília, a partir do segundo semestre de 1998, é desconhecida mesmo de seus antigos leitores.

Antes de mais nada, o nome “Senhor F” é sacado de música dos Mutantes, com o mesmo nome, a primeira composição do guitarrista Sérgio Dias, aos 14 anos de idade.

Senhor F (Os Mutantes)

O Senhor F
Vive a querer
Ser Senhor X
Mas tem medo de nunca voltar
A ser o Senhor F outra vez

O Senhor X
É o herói
Que na TV
Nunca perde o seu chapéu
E faz o Senhor F sonhar

Sonhar em ter
Pros outros ver
Olhos azuis
Ter um carro igual ao de X
E conquistar a mulher do patrão

Dê um chute no patrão
Dê um chute no patrão
Dê um chute no patrão

Capa do primeiro disco dos Mutantes, com a canção Senhor F que deu nome à revista digital.

No início, uma matéria na Bizz

Para começar, a ideia nasce bem antes do surgimento de Senhor F nas redes, influenciada por matéria assinada pelo criador da publicação, Fernando Rosa, na revista Bizz, em meados de 1993.

Intitulada “A história secreta do rock brasileiro“, a matéria surgiu de conversa no balcão da Baratos Afins, em São Paulo, entre Fernando Rosa, Luis Calanca e Carlos Eduardo Miranda, então repórter da Bizz.

A publicação na Bizz, com chamada de capa e várias páginas, destacava a cena de garagem brasileira dos anos sessenta, uma das bases do tripé editorial de Senhor F.

Projeto de fita-cassete com raridades da garagem brasileira dos anos sessenta.

Antes, o nome de um selo

Antes de batizar a revista, a mesma matéria inspirou a criação de um selo – “Senhor F” – que não vingou, pelo menos naquele momento, mas que acabou posteriormente dando nome à revista digital – e, depois, ao Senhor F Discos.

O primeiro lançamento do selo seria a coletânea “Muito além da Jovem Guarda – A história secreta do rock brasileiro”, em cassete, contendo os artistas e bandas “redescobertos” na matéria da Bizz.

A coletânea ganhou uma segunda versão em CD, também nunca lançada fisicamente, rebatizada para “A história secreta do rock brasileiro – The Brazilian Pebbles (1965/1969).

Capa de inédito CD com foto do grupo gaúcho Os Brasas.

Heartbeat, do papel ao digital

Um zine também inédito, já em Brasília, “Heartbeat News – Um fanzine em três acordes”, é outra vertente que contribui para a formatação final do projeto da revista Senhor F.

Ironicamente, o piloto do zine “Heartbeat” flagrou os tempos de mudança em uma espécie de editorial festejando a internet como um novo espaço de informação e divulgação para a música – veja no facsimile abaixo: “A palavra é … Internet”.

“Heartbeat” era um programa apresentado na antiga rádio Felusp, da Ulbra, em Canoas, entre 1993 e 1994, com produção e apresentação de Fernando Rosa, que migrou junto com ele para a Rádio Cultura de Brasília, em 1995 (veja abaixo).

Em Brasília, com edição mensal e duas horas de duração, aos sábados, o programa antecipava em parte a linha editorial da revista, trazendo hits, clássicos e raridades do rock nacional e mundial.

Capa do piloto, nunca publicado, do zine Heartbeat, em julho de 1997.

Conexão com a cena independente

A aproximação com os anos 2000, introduziu na mistura o contato com a emergente cena independente de Brasília, Porto Alegre e outras capitais, que marcou a linha editorial da revista.

Na virada do século, com a atenção da revista, dezenas de grupos explodiam em diversas capitais do país, como Mopho, em Maceió, Cachorro Grande, em Porto Alegre, e cenas emergiam, como a de Brasília.

Em 2001, já estabelecida, a revista Senhor F abriu portas para outras atividades, entre elas a “Noite Senhor F“, em Brasília, e o programa “Senhor F – A história secreta do rock brasileiro”, na Usina do Som, da Editoral Abril.

A terceira linha do tripé editorial, rock latino e, depois, a música tropical, veio ao natural pela origem do editor do site, gaúcho em contato com o rock e a música latina desde a juventude.

Uma transição amigável

A partir da primeira edição, a revista Senhor F se tornou referência nacional para um público que abandonava o “papel” (jornais) como fonte de informação e adentrava ao novo mundo da internet.

O layout fugiu do “fundo preto”, manteve a referência ao padrão de leitura (livros e revistas) e alinhou o visual – um pouco mais organizado – à memória e experiência dos zines.

A isso, vale somar a vivência musical do autor da ideia, desde a leitura semanal da Rolling Stone nacional (1972), passando pelas diversas e efêmeras publicações musicais posteriores.

Capa da primeira edição “valendo” da revista Senhor F, em fevereiro de 1999.

FrontPage 98, tendinite e rock

Um providencial curso de edição de sites, a compra do programa “FrontPage 98”, um intenso final de semana de “sofrimento” & cerveja e uma tendinite fecham o ciclo do nascimento de Senhor F.

Ao criador e editor solitário, e a um “corpo editorial” de vários “codinomes”, se somaram diversos jornalistas e críticos de diferentes gerações da história editorial da música brasileira (em matéria posterior falaremos deles).

Ainda, a revista foi presenteada com uma “canção-tema” (ouçam abaixo) ou, se quiserem, um afetivo “jingle”, de autoria de Ayrton Mugnani Jr, que traduzia e contextualizava a existência de Senhor F naquele momento histórico.

A canção-tema da revista SenhorF composta e gravada por Ayrton Mugnaini F & grupo.

Na esteira do sucesso editorial, além do programa na Usina do Som e da Noite Senhor F, vieram outras atividades como o Senhor Festival, o selo Senhor F Discos e o festival El Mapa de Todos.

Mas, isso é assunto para outras matérias que seguirão trazendo histórias da “marca” Senhor F que, de certa forma, condensa em várias frentes a história da cena independente brasileira dos anos 2000.

O editor Fernando Rosa na redação da revista Senhor F, em Brasília

Fernando Rosa – O jornalista gaúcho, radicado em Brasília desde 1995, apresentou de março de 2001 a novembro de 2005, o quadro Senhor F dentro do Cult 22 até ganhar um programa próprio na Rádio Cultura FM, o Senhor F 100, que ficou no ar até janeiro de 2011. Em Porto Alegre, nos anos 1970, co-produziu o programa Clube da Esquina (de MPB) na rádio da Universidade Federal. Nos anos 1990, produziu e apresentou o programa Heartbeat, com raridades do rock nacional e internacional (na rádio Felusp, da Ulbra, em Canoas). Levou o mesmo programa ao ar na Rádio Cultura FM de Brasília entre 1995 e 1997, incluindo raridades do rock brasiliense dos anos 1960 e 1970. Foi colaborador da revista Showbizz, produziu e apresentou, no portal Usina do Som, o programa Senhor F – A História Secreta do Rock Brasileiro, e editou a série Festa de Arromba – Nos Tempos da Jovem Guarda, para a rádio Senado FM. Desde 1999, mantém ativo o site Senhor F (www.senhorf.com.br), que se transformou em referência nacional para o público roqueiro, tendo virado selo (Senhor F Discos) e evento (Noite Senhor F). Produziu para a Rádio Câmara FM o programa semanal Senhor F Sem Fronteiras e, em Porto Alegre, o festival anual El Mapa de Todos. (Do site Cult 22)

Da Redação

Foto: Senhor F Social Club

Uma resposta para “Senhor F, a origem (quase) secreta da publicação pioneira da internet”

  1. Avatar de Luciano Branco
    Luciano Branco

    Eu aguardo ansiosamente o dia que irão prestigiar, ainda mais, o trabalho do Fernando Rosa e o conteúdo do Senhor F. Muito material do site já deveria estar presente em livro.

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