Na virada dos anos 2000, o jornalista e compositor paulista Ayrton Mugnaini escreveu e gravou um tema especial dedicado a então Senhor F – A Revista do Rock, que conquistava a simpatia da mídia especializada, incluindo jornalistas das gerações anteriores, além de milhares de leitores espalhados pelo país.

A letra (veja abaixo) do tributo ao nascente site Senhor F funcionava historicamente como um registro da primeira internet brasileira, falando em PC, revista virtual, banda larga, TV a cabo, UHF, ringtone, tudo atravessado pelo humor de Ayrton Mugnaini – que também foi colaborador do site.

Além da referência aos Mutantes, e o registro dos primeiros passos da internet brasileira, a letra da canção conectava a Senhor F a Rolling Stone, histórica publicação em português, que circulou durante o ano de 1972, introduzindo a juventude brasileira no universo do rock daquela década.

Eu Sempre Leio a Senhor F

TONQ / Tosqueira ou Não Queira
Ayrton Mugnaini Jr.

Eu estava lendo a Rolling Stone,
na coleção de um amigo meu.
De repente, tocou o telefone,
uma amiga foi dizendo:

“Você já leu esta revista virtual?
Precisa ler”, ela me disse.
“Mas eu nem tenho PC.”

E ela respondeu:
“Você precisa ter.

Peça dinheiro pra remédio
ou dê um blefe.
Vale a pena é a Senhor F.”

Refrão

A Senhor F, Senhor F,
tá com tudo e não tá prosa,
o Fernando Rosa.
Senhor F, a Senhor F.

A vida sem Internet é bem amarga,
informação é importante, sim.
Mas nem precisa splitter ou banda larga,
dá pra ler a Senhor F mesmo assim

Os anos sessenta foram bons demais,
mas já passaram há muito tempo atrás.
Qualquer favela hoje em dia
é capaz de assistir TV a cabo ou UHF.
É tão fácil ver a Senhor F.

Refrão

A Senhor F, Senhor F,
tá com tudo e não tá prosa,
o Fernando Rosa.
Senhor F, a Senhor F.

Eu estava lendo a Rolling Stone,
você já deve ter reconhecido.
É o título de um quase ringtone
dos Mutantes, esse grupo tão querido.

O nome dessa revista virtual
também veio dessa banda tão legal.
Ler a revista é um prazer total,
dá vontade de dar um chute no chefe,
ou mostrar pra ele a Senhor F.

Refrão

A Senhor F, Senhor F,
tá com tudo e não tá prosa,
o Fernando Rosa.
Senhor F, a Senhor F.

Editada e postada desde Brasília, a partir do segundo semestre de 1998, Senhor F – A Revista do Rock, nasceu ancorada em um tripé editorial particular que consistia em resgatar a história do rock brasileiro, apoiar a emergente cena independente e aproximar o leitor da música tropical e do rock latino.

Isso sem deixar de acompanha a cobertura das novidades do rock internacional, além de trazer para as novas gerações informações sobre artistas, bandas, gêneros musicais e selos secundarizados pela mídia “oficial”, como o power pop, o revival da psicodelia, o alt country ou o psychobilly, entre outros.

Destaque na categoria “Revistas de música do Brasil” da Wikipedia, a enciclopédia define Senhor F como “uma revista eletrônica voltada principalmente para o rock brasileiro, (que) tornou-se uma referência, e depois se expandiu para vários outros campos, incluindo produção de shows e festivais, programas de rádio e gravação de discos”.

“O Senhor F surgiu num cenário bem diferente do que vivemos hoje. A internet ainda era distante para a maioria dos brasileiros e rádios e artistas contratados por gravadoras lucravam bastante”, destaca o jornalista Paulo Floro, editor do jornal O Grito!, especializado em cultura pop, em março de 2008.

Segundo Floro, na mesma publicação O Grito!, de Recife, “como um aglutinador, o site impulsionou a interação na cena independente, ainda muito dispersa (no início dos anos 2000). O Senhor F viu todo esse processo se desencadear e hoje (em 2008), tem sua importância na música alternativa brasileira”.

Ao longo de sua primeira década de existência, inicialmente um site, Senhor F desdobrou-se em uma espécie de “holding indie” integrada por atividades em diversas áreas, destacando-se diversos programas de rádio, eventos musicais, festivais nacionais e latinos, selo musical e curadorias.

Na esteira do sucesso editorial, além do programa na Usina do Som (75 semanas na Editora Abril) e da Noite Senhor F (em Brasília), vieram outras atividades como o selo Senhor F Discos (em parceria com o Estúdio Daybreak – Philippe Seabra/Plebe Rude) e o festival El Mapa de Todos.

Em 2001, a revista Senhor F ganhou o prêmio de melhor site do ano no Top 7 da Scream & Yell, em votação que reuniu 72 eleitores, entre músicos, produtores e jornalistas musicais, consolidando a importância da publicação no meio do jornalismo musical especializado brasileiro.

Em sua trajetória, Senhor F produziu importantes conteúdos para a memória da música brasileira, com destaque para entrevistas com Rogério Duprat, Lafayette, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Albert Pavão, Gabriel O’Meara, irmãos Ladeira/A Bolha, Rick Ferreira, Lailson, Howie Casey e Darian Sahanaja.

No início dos anos 2000, a revista Senhor F cumpriu importante papel na “descoberta” de clássicos “perdidos” da psicodelia nacional, entre eles Paebiru de Lula Cortes & Zé Ramalho (PE), Geração Bendita da banda Spectrum (RJ) e Por Favor, Sucesso da banda Liverpool (RS).

A revista Senhor F também lançou nacionalmente discos de estreia de importantes artistas daquela virada de século, como Los Hermanos, Mopho, Cachorro Grande, Motormama, Bidê ou Balde, Autoramas, Repolho, Frank Jorge, Os Pistoleiros, entre muitos outros, de diferentes estados.

Além do já citado Ayrton Mugnaini, Senhor F contou com dezenas de colaboradores em sua história, entre eles Fernando Naporano, Nélio Rodrigues, Olimpio Cruz, Alexandre Matias, Pedro Brandt, Cristiano Bastos e Ana Maria Baiana (especial sobre os 40 anos da Rolling Stone brasileira).

A revista ainda contava com a Parada Senhor F postada mensalmente na capa do site, com 10 temas selecionados, em MP3 para audição e download, assim dando visibilidade para centenas de artistas e bandas de várias cidades e regiões do país, contribuindo para o intercâmbio da cena independente.

No início dos anos 2000, o editor de Senhor F, Fernando Rosa, contribuiu com a revista Bizz (impressa, e com distribuição nacional), participando da produção de especiais, como a edição com capa dos Mutantes, biografias de artistas históricos e resenhas de discos nacionais e estrangeiros.

Na trajetória de quase trinta anos, Senhor F contou com três diferentes arquiteturas e design 1998 (revista); 2005 (agência); 2012 (portal), até chegar ao atual formato (plataforma), buscando sintonizar com as novas orientações editoriais, e interagindo com as conjunturas culturais e expectativas do público leitor do site.

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