Houve um momento, no início dos anos 2000, em que Brasília vivia um paradoxo incômodo, que ocupava as conversas no meio musical jovem da cidade.

Por um lado, havia bandas, ideias, discos sendo gestados em apartamentos, garagens e estúdios improvisados – ou seja, havia uma criativa e pulsante cena emergente.

De outro, a cidade praticamente não possuía casas de shows, especialmente de pequeno e médio porte, dispostas a absorver a música autoral, em especial o rock, naquele momento ainda sob o clima da entressafra dos anos noventa.

Foi nesse vácuo que surgiu a Noite Senhor F, iniciativa alimentada pela força crescente do site Senhor F e do programa Senhor F – A História Secreta do Rock Brasileiro, veiculado na Usina do Som, então um ousado projeto da Editora Abril para estruturar uma plataforma digital de música no país.

Leia mais: #01 – Senhor F, a origem (quase) secreta da publicação pioneira da internet

Leia mais: #02 – Na Usina do Som, programa Senhor F foi pioneiro na web rádio brasileira

Em 1º/11/2001, nascia a Noite Senhor F

Com nome sugerido por Fernando Brasil, da banda Phonopop, e produção coletiva, a Noite Senhor F ganhou vida em 1º de novembro de 2001, no Gate’s Pub, o histórico templo da música alternativa de Brasília.

No palco, as bandas Phonopop, Beto Só & Os Solitários Incríveis e Prot(o), destaques da cena emergente naquele momento. Com casa lotada e extensa fila na calçada da 403 Sul, a Noite Senhor F rapidamente se tornou uma espécie de ritual mensal.

Ancorando a estreia da Noite Senhor F, um cartaz especial ganhou às ruas, uma coletânea em CDr foi produzida (veja abaixo o texto do encarte) e o ezine RockBrasília publicou matéria de capa “anunciando” a nova cena.

“Uma nova cena está surgindo no país”

O rock brasileiro resiste heroicamente à margem dos esquemas das grandes gravadoras, dos ‘movimentos’ e ‘gêneros’ fabricados e das ‘paradas’ movidas à jabá.

Pelas ondas da Internet, pelos palcos dos festivais alternativos e pelas produções independentes, uma nova cena está surgindo no país. Letras inteligentes, harmonias vocais e, especialmente, melodias reconquistam o espaço no rock nacional.

Com cerca de dois anos e meio de existência, o site Senhor F, editado desde Brasília pelo jornalista Fernando Rosa, tem sido uma espécie de porta-voz da nova cena roqueira impulsionada pela Internet. 

Pelas páginas do site e pelo programa de rádio na Usina do Som, passaram bandas que hoje se destacam na cena roqueira nacional, como Bidê ou Balde, Autoramas, Vídeo Hits, Los Hermanos, Mopho e Frank Jorge.

Atualmente, a revista e o programa são a principal fonte de divulgação, de troca de informações e contato de uma nova cena alternativa que vai ocupar o seu espaço.

Esta coletânea – que será seguida de outras; aguardem! – é uma pequena mostra da vitalidade e da qualidade do que vem por aí. Ouçam e divirtam-se!

* Olimpio Cruz Neto (editor do ezine Rockbrasilia)

Uma rara edição de 30 cópias

Com curadoria de Fernando Rosa e arte de Olímpio Cruz, que também assinou o cartaz (imagem na capa), o CDr Senhor F (apresenta) Nova Cena – O plano mudou premiou os 30 primeiros ingressos vendidos, na época a R$ 7,00.

No setlist estavam alguns dos principais nomes da cena naquele momento, e canções que se tornaram hits das discotecagens país afora. Artistas e bandas que já tinham circulado pelas páginas do site Senhor F, desde 1998.

  • O setlist do CDr – Fachecleres; Pipodélica; Wonkavision; Phonopop; Detetives; Laranja Freak; Prot(o); Supernova; Os Pistoleiros; Pelebrói Não Sei; Leela; Smiley; Beto Só e os Solitários Incríveis; Tom Bloch; Cores D Flores; Trio Quintina; Alcalina; Onno e OAEOZ.
Júpiter Maçã, em 21 de maio de 2005, em Noite Senhor F, no Gate’s Pub, pela 1º vez em Brasília.

“Hub” da difusão da cena independente

Em seus primeiros cinco anos, especialmente, a Noite Senhor F desempenhou um papel decisivo para conectar a cena local a outras cenas independentes do país em um momento em que a circulação de bandas era rara e pouco estruturada.

Ao receber grupos de diferentes regiões, o evento funcionou como um “hub” alternativo nacional, estabelecendo pontes entre Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste. Importante destacar a parceria com os festivais anuais Bananada e Goiânia Noise, da vizinha Goiânia.

Na cena local, o programa Senhor F, na Rádio Cultura, em parceria com o jornalista Pedro Brandt, e o apoio do também jornalista Marcos Pinheiro, com seu programa Cult 22, foram importantes para afirmar o evento calendário cultural da cidade.

Essa rede informal, alimentada por shows, amizades musicais, críticas, discos e festivais associados ao projeto, criou um fluxo contínuo de trocas estéticas, políticas e afetivas, permitindo que cenas antes dispersas passassem a se reconhecer como parte de um mesmo movimento.

Assim, a Noite Senhor F transformou Brasília de periferia das conexões musicais em um nó central de articulação e difusão da música independente brasileira.

O trio Gramofocas e o clássico visual rocker do Gate’s Pub, localizado na quadra 403 Sul.
  • O Gate’s Pub, sob a gestão de Rubens Carvalho e Sérgio Rezende, foi mais que um bar: foi um templo da música alternativa em Brasília e um pilar para a cena independente nacional. Desde o final dos anos oitenta, o Gate’s transformou-se em abrigo plural para gêneros como jazz, blues, rock, MPB e música instrumental — muitas vezes os únicos espaços para música autoral na capital. Ao dar palco a bandas da chamada “nova cena” — muitas delas sem outros espaços para tocar — o Gate’s Pub ajudou a estruturar uma rede de circulação artística, divulgação e formação de público.
O quarteto gaúcho Superguidis em um de seus shows explosivos que marcaram a Noite Senhor F.

Alguns momentos históricos

Em sua existência, a Noite Senhor F registrou momentos memoráveis como quando o gaúcho Júpiter Maçã se apresentou pela primeira vez em Brasilia ou que Vanguart fez seu primeiro show fora de Cuiabá, sua cidade natal.

Também foi palco de apresentações históricas dos curitibanos Faichecleres, dos paraenses La Pupuña com a ainda pouco difundida guitarrada e dos gaúchos Cachorro Grande e Bidê ou Balde dividindo o palco na mesma noite.

Ainda ficaram na lembrança, entre vários outros, shows dos paulistas Thee Butcher’s Orchestra, da clássica Graforréia Xilarmônica, dos cariocas The Feitos, além da aparição “secreta” da banda Edur Ebelp – ou seja, Plebe Rude.

Além de fortalecer bandas locais já consolidadas, desde suas primeiras edições a Noite Senhor F abriu seu palco para grupos novatos, como uma espécie de rito de passagem para a cena independente local e mesmo nacional.

Matérias sobre os 5 anos da Noite Senhor F e flyers de dois shows emblemáticos,

5 anos de Noite Senhor F; veja artistas e bandas

Em 1º de dezembro de 2006, no Gate’s Pub, show comemorativo reviveu a primeira Noite Senhor F, com shows de Beto Só, Phonopop e Prot(o). Assim como na Noite Senhor F inaugural, os primeiros 30 pagantes ganharam um brinde, o single de Beto Só – O tempo contra nós.

Artistas que participaram dos primeiros 5 anos da Noite Senhor F (segundo levantamento do jornal Correio Brazilienze, à época)

  • 10zero4, Allface, Ambervisions, Autoramas, Banzé, Beto Só, Beto Só & os Solitários Incríveis, Bidê ou Balde, Billy Goat, Bois de Gerião, Butt Spencer, Cachorro Grande, Cadabra, Capotes, Chatilly, Clash City Rockers, Detetives, Disco Alto, Ecos Falsos, Edur Ebelp (Plebe Rude), Eletrola, Estrume’n’tal, Fachecleres, Forgotten Boys, Frank Jorge, Frank & Plato, Gramofocas, Hang the Superstars, Hot Rod Combo, Inocentes, Jorge Cabeleira, Júpiter Maçã, La Pupuña, Laranja Freak, Leela, Lenzi Brothers, Lo-Fi, Los Pirata, Makina Du Tempo, Marcelo Mendes & Os Bacanas, Mechanics, Mentes Póstumas, Mordida, Motormama, Móveis Coloniais de Acaju, MQN, NEM, Nomes Feios, Papaumas, Pata de Elefante, PB, Phonopop, Pierrot Lunar, Pipodélica, Plato Dvorak, Projeto Moe, Prot(o), Radical sem Dó, Repolho, Revoltz, Rockacola, Sapatos Bicolores, Smiley, Stereos, Stone Fish, Suite Minimal, Suite Super Luxo, Super Stereo Surf, Supercordas, Superguidis, Superquadra, Suzana Flag, The Feitos, The Kaiserkelers, Thee Butcher’s Orchestra, Tom Bloch, Trisônicos, Vanguart, Vermelho 40, Violins, Virgem Again, Volver, Wander Wildner, Watson & O Progresso da Ciência, Watts (EUA), Wonkavision, Wry.
StereoScope em show de lançamento de seu segundo álbum em uma Noite Senhor F em Belém.

Noite Senhor F circulou por outras capitais

Com o passar dos anos, a Noite Senhor F ultrapassou os limites da capital federal e assumiu proporção nacional, com edições eventuais em Florianópolis, Belém, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia

Em Porto Alegre, a Noite Senhor F consolidou-se de maneira especial, realizada mensalmente durante três anos. No palco da casa de shows Opinião, como produção de Fernando Rosa, Brisa Daitx e Thiago Picolli, o evento promoveu a circulação estadual da música independente. 

Artistas e bandas que se apresentaram na Noite Senhor F, na casa de shows Opinião, em Porto Alegre

  • Hibria; Rosa Tattooada; Baltimore; Krisiun; Distraught; Leviathan; Cartel da Cevada; Cattarse; Black Drawing Chalks; Campbell Trio; Garotas Suecas; Apanhador Só; Repolho; Tarcísio Meira’s Band; Graforréia Xilarmônica; Lucas Silveira; Vanessa Soares (Vaness); Gru; The Tape Disaster; Bob Shut; Rocartê; Esteban; Volantes; O Curinga; Lepata; Frida; O Carabala; Reino Elétron; Volver; Frank Jorge; Valentinos, Superguidis, SBL, Lítera, Fabão, Chá das Cinco, Zudizilla; Erick Endres; El Mató a Un Policía Motorizado; Los Porongas; Ian Ramil; Zava; Móveis Coloniais de Acaju; Cartolas; Kassin; Marcelo Fruet & Os Cozinheiros; General Bonimores (*em construção)

Em coletâneas físicas, parte da memória

  • Lançado em 2004, o CD Clássicos da Noite Senhor F – A trilha sonora da nova geração é um registro essencial da virada que ocorreu na música independente brasileira a partir do início dos anos 2000. Inaugurando o selo Senhor F Discos, em parceria com o Estúdio Daybreak, de Philippe Seabra, o CD reúne 22 registros de artistas e bandas que se apresentaram nas diferentes edições da Noite Senhor F, até aquele ano. Em suas faixas, convivem diferentes gerações e sonoridades, do indie ao pós-punk, do pop artesanal ao rock de garagem, revelando a diversidade que caracterizava o evento.
  • Já o CD Terceira Onda – O Novo Rock de Brasília, também lançado pelo ­Senhor F Discos, em 2006, é um retrato pulsante da efervescência autoral brasiliense no começo dos anos 2000. Mais do que uma coletânea, Terceira Onda representou um manifesto: a afirmação de que Brasília tinha uma cena própria, com pluralidade de estilos, força criativa e urgência de existir fora dos centros habituais da indústria musical. Em suas 19 faixas, confere corpo à chamada “nova cena” da capital, dando voz e forma a uma geração que buscava sair do anonimato.

Senhor F Meio Desligado, versão acústica da Noite

O evento Senhor F Meio Desligado foi a versão acústica e intimista da Noite Senhor F, criada para aprofundar o diálogo entre música, literatura e a cena autoral brasileira.

Realizado em parceria com a livraria Esquina da Palavra, o projeto aproximava artistas e público em um formato desplugado, privilegiando a palavra, a composição e a experimentação.

Ali, músicos da cena independente de Brasília — e convidados de outras regiões — apresentavam repertórios exclusivos, revisitações de suas obras e performances preparadas especialmente para o espaço.

Com shows entremeados por textos literários, as apresentações aconteceram por mais de um ano, realizados no ambiente e no entorno da livraria do jornalista Lourenço Flores.

  • Banda brasiliense Prot(o) em apresentação acústica, realizada em 16 de setembro de 2006, em edição comemorativa de um ano do projeto Senhor F Meio Desligado, na comercial da 406 Norte (ao lado da livraria Esquina da Palavra). Câmeras: Pedro Brandt e Alex Vidigal. Edição: Fábio Lima (da postagem de Filipe Vasconcelos Vianna).
  • Apesar da orientação digital que moveu a criação do site Senhor F e seus derivados posteriores, a estética visual analógica persistiu com a produção de cartazes e flyers. Em Brasília, cartazes criados por André Vasquez, da banda Sapatos Bicolores traduziam o espírito da Noite Senhor F pelas paredes da cidade. Também em Porto Alegre, a Noite Senhor F contou com criadores visuais de grande qualidade, que contribuiram para a divulgação do evento.

Foto: Senhor F Social Club (imagem do cartaz da primeira Noite Senhor F e outras foos internas)

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