O Pará é uma espécie de Mali secreto dos grandes guitarristas brasileiros. Assim como a nação africana lapidou um blues único e hipnótico por meio de suas cordas elétricas, o estado nortista transformou-se no epicentro de uma revolução instrumental movida a guitarrada, carimbó e lambada.

A partir do pioneirismo fundamental de Mestre Vieira, que abriu os caminhos fonográficos no final dos anos setenta, uma constelação de instrumentistas ergueu carreiras monumentais na Amazônia. No topo dessa linhagem de virtuoses, destaca-se Mário Gonçalves.

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Natural de Igarapé-Miri, Mário Gonçalves construiu uma trajetória que transcende a mera habilidade técnica. Ele foi um arquiteto estético fundamental para a modernização da música paraense. Sua assinatura musical confunde-se com a própria gênese de gêneros que, anos mais tarde, chegariam aos ouvidos do mundo.

  • Guitarrando na Lambada (1982) – O marco inicial de sua discografia solo, lançado pela Copacabana, unindo de forma primorosa a técnica da guitarrada ao balanço da lambada.
  • Mário Gonçalves (1984) – Álbum que traz seu nome no título e consolida sua identidade madura e solo
  • Guitarrando (1985) – Um mergulho nos timbres elétricos tropicais acelerados.

Ruptura, invenção e sintonia com sua época

A primeira grande ruptura promovida por Mário Gonçalves ocorreu na própria base rítmica do carimbó, em 1973. Tradicionalmente, o estilo acústico e ancestral dependia do banjo para ditar a cadência e a harmonia sobre a qual os tambores curimbós ecoavam. Mário, contudo, vislumbrou o futuro no peso e no brilho da eletrificação.

Ao lado de Dinaldo Gonçalves, que atuou como guitarrista base nos primeiros discos, Mário foi o pioneiro absoluto na substituição do tradicional banjo pela guitarra elétrica. Em seu blog Lambada das Quebradas, os músicos e pesquisadores Bruno Rabelo e André Macleuri, apontaram a ação revolucionária de Mário Gonçalves

Normalmente, no carimbó tradicional acústico, um banjo é quem faz a base rítmica. Porém, Mário Gonçalves, juntamente com Dinaldo Gonçalves, guitarrista base nos primeiros cinco discos de Pinduca, foram os pioneiros a usarem a guitarra elétrica no lugar do banjo, no disco de estreia de Pinduca.

Primeiro solo de lambada, em 1976

Além da modernização instrumental, Mário Gonçalves gravou seu nome na história como o criador do solo que definiu a primeira lambada registrada no país. Em 1976, no álbum No Embalo do Carimbó e Sirimbó, Volume 5”, lançado por Pinduca, a faixa intitulada “Lambada” trazia o dedilhado cirúrgico, suingado e inovador de Mário.

Mário Gonçalvez integrou a banda de Pinduca por mais de duas décadas, cruzando os anos setenta e oitenta em uma parceria prolífica que resultou na gravação de mais de uma dezena de discos emblemáticos. Ele também participou da gravação dos discos de seu outro irmão, o cantor e compositor Pim.

Entre as décadas de 1980 e 1988, o guitarrista consolidou sua carreira solo com o lançamento de seis discos fundamentais para os amantes da guitarrada, estreando pelo prestigiado selo Copacabana. Ao todo, ele gravou seis LPs solo, ainda hoje referência da música produzida no Norte do Brasil para músicos e colecionadores.

  • Guitarrando – Vol. 3 (1985) – Lançado no mesmo ano, mostrando a alta produtividade do músico e sua forte demanda de mercado.
  • Mário Gonçalves (1987): Fusão refinada de elementos percussivos com as texturas da guitarra amazônica.
  • Na Lambateria (1988) – Obra que coroou o final dos anos 80, dialogando diretamente com a explosão das pistas de dança e das lambaterias que se espalhavam pelo Brasil

Mário Gonçalves personifica a genialidade dos mestres que operaram a transição da tradição para a modernidade pop e elétrica na Amazônia. Ao plugar sua guitarra e redefinir o carimbó e a lambada, ele não apenas acompanhou a história da música paraense — ele a escreveu com as próprias mãos.

Foto: Produtora Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)

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