Entre os muitos mestres que ajudaram a construir a sonoridade popular da Amazônia nas décadas de 1970 e 1980, o saxofonista Pantoja do Pará ocupa um lugar singular. Natural de Igarapé-Miri, no interior paraense, ele pertence à linhagem de músicos formados na disciplina das bandas militares da regiãoescolas informais de técnica e resistência musical que moldaram gerações de instrumentistas amazônicos.

Pantoja começou na percussão, mas foi no sopro metálico do saxofone que encontrou sua assinatura definitiva, com um timbre rasgado, direto e dançante, feito sob medida para incendiar bailes. Durante cerca de duas décadas, esse som foi parte essencial da engrenagem musical de Pinduca, o autoproclamado Rei do Carimbó. Como integrante de sua banda, Pantoja participou de mais de uma dezena de gravações e percorreu a Amazônia e o Brasil acompanhando a explosão do carimbó elétrico e, depois, da lambada.

Se como sideman ele ajudou a moldar um dos capítulos mais populares da música nortista, sua discografia solo revela outra dimensão de seu talento — e também um dos grandes vazios da memória fonográfica brasileira. São cinco LPs lançados pelas gravadoras Continental e Copacabana, hoje raridades absolutas para colecionadores de vinil e ainda inéditos em reedições.

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Entre esses títulos, “Lambadas e Melôs” ocupa um lugar particular. Diferentemente de outros discos do saxofonista — como Volume 2, Volume 4 e No pique da lambada, produzidos pelo lendário Manoel Cordeiro e gravados com a pesada equipe de estúdio da Gravasom — aqui a condução artística fica nas mãos de Pim, irmão de Pinduca. O resultado é um disco que mergulha de cabeça no clima festivo que dominava o Norte do Brasil no auge da lambada.

O repertório combina lambadas instrumentais, melodias pegajosas e arranjos pensados para a pista, numa estética que dialoga com o universo das aparelhagens e dos bailes populares da época. O sax de Pantoja assume o papel de protagonista melódico, conduzindo temas cheios de balanço, enquanto a base rítmica mantém o motor dançante que mistura carimbó, merengue caribenho e pop tropical.

O termo “melô”, tão popular na cultura brasileira dos anos 1980 — quando versões fonéticas de hits internacionais ganhavam nomes bem-humorados — aparece aqui mais como espírito do que como paródia. O disco traduz essa atmosfera pop e despretensiosa em linguagem instrumental, aproximando o sax de Pantoja de um cantor invisível que guia a dança sem precisar de palavras.

Nesse contexto, Lambadas e Melôs funciona como um documento histórico, o retrato de um momento em que a Amazônia produzia, com naturalidade e inventividade, uma das músicas de dança mais irresistíveis do Brasil. Este mais raramente, mas seus discos em vinil ainda podem ser encontrados em lojas especializadas e sites virtuais. Em todos eles, está o sax cortante, vibrante e absolutamente paraense do mestre Pantoja.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

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