A historiografia da música pop amazônica tem seus heróis de seis cordas muito bem definidos. O gênio Mestre Vieira inventou a roda no final dos anos 70 com Lambada das Quebradas. A parrir de 1982, a década foi dominada pelos mestres da guitarra, como Aldo Sena, Solano e Oseas, entre outros.

Mas, entre o “big bang” de Vieira e a consolidação da cena, existe um elo perdido, uma raridade em vinil que gira em 33 rotações fora do eixo da guitarra elétrica. Estamos falando de “Lambada do Canarinho”, o LP de estreia do cavaquinista maranhense Canarinho, lançado em 1981 pelo mítico selo local Morasom.

Cavaquinho com alma de guitarra

O que torna este disco um item obrigatório para qualquer pesquisador de grooves brasileiros é o seu ineditismo cronológico e estético. Em 1981, o formato “solista de lambada” ainda era um terreno quase inexplorado.

Enquanto a maioria dos guitarristas que formariam o panteão da Guitarrada ainda estava em bandas de baile ou acompanhando outros artistas, Canarinho já estava na linha de frente, empunhando seu cavaquinho como instrumento principal e condutor do baile.

De certa forma, Canarinho abriu o caminho para outro gênio do cavaquinho, o manaura Nonato do Cavaquinho. Irmão de André Amazonas, um dos mestres da guitarra do Amazonas, Nonato gravou uma série de álbuns a partir de meados dos anos oitenta.

A sonoridade é surpreendente. Canarinho não toca choro, nem samba tradicional. Ele aplica ao cavaquinho a mesma ferocidade rítmica e a palhetada staccato que Vieira aplicava na guitarra.

Faixas como “Um Cavaquinho na Lambada” e “Melô do Cavaquinho” são a prova cabal de que a linguagem da lambada instrumental já estava madura e pulsante no Maranhão muito antes da febre midiática nacional do final da década.

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Arqueologia do vinil

Lançado pela Morasom, o álbum permaneceu obscuro por décadas, ofuscado pelo volume ensurdecedor das guitarras que viriam a seguir.No entanto, ouvir Canarinho hoje é reescrever um capítulo da música instrumental brasileira. Ele mostra que o “som amazônico” era, desde o princípio, plural.

Se Mestre Vieira é o pai da matéria na guitarra, Canarinho é o primo visionário que, em 1981, provou que a lambada também podia nascer de um cavaquinho endiabrado. Um disco essencial, urgente e que merece uma reedição em vinil.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)

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