Nos meandros da historiografia musical brasileira, o saxofone amazônico permanece como um capítulo fascinante, uma “cena perdida” que conecta a floresta ao Caribe. É nesse cenário de festas de beiradão, onde as ondas do rádio captavam a influência dominicana e o merengue, que surge Mambadas, pérola lançada em 1982 pelo saxofonista Agnaldo do Amazonas. Enquanto contemporâneos como Teixeira de Manaus e Chiquinho David eletrificavam o som dos rios, Agnaldo — que viria a ser aclamado como “O Furacão do Norte” — pavimentava uma sonoridade híbrida e irresistível pelo selo paulista Unacam.

O álbum é um testemunho vital da gênese do instrumental nortista. O título, uma aglutinação intuitiva de mambo com lambada, define a proposta estética do disco, uma fusão quente que incorpora a cumbia, o carimbó e o balanço latino, distanciando-se da MPB tradicional e do jazz para abraçar a dança popular. Diferente da trilogia posterior gravada em Belém com os mestres da Gravasom, Mambadas foi registrado em Manaus, capturando a autenticidade crua da cena local antes da massificação do gênero.

Leia mais: Amazônia sonora: gêneros regionais, Caribe e indústria musical

Visualmente, o LP já apontava para uma modernidade pop. A capa destaca o grupo na proa de um barco, recortada por uma moldura de filme fotográfico, simbolizando o trânsito constante entre as águas e os ritmos. Agnaldo do Amazonas, com seu sopro vigoroso, entrega aqui um documento histórico. Mambadas não é apenas um registro de baile; é a prova da sofisticação rítmica do “beiradão”, um elo perdido que, felizmente, começa a ser revalorizado por novas gerações e orquestras que reconhecem no saxofone do Norte uma das identidades mais genuínas da música instrumental brasileira..

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Trending