No panteão dos discos perdidos da música brasileira, poucos possuem uma história tão fascinante e uma sonoridade tão urgente quanto “Os Mocambos apresentam: Marabaixo – O folclore amapaense”.
Lançado em 1973, este bolachão é hoje uma das peças mais cobiçadas por colecionadores, não apenas pela sua escassez, mas por ser um documento de resistência cultural que uniu a rusticidade do tambor à estética da MPB setentista.
A obra é fruto da visão de Hernani Vitor Guedes, violonista natural de Cametá (PA), terra do também lendário Mestre Cupijó. Ao mudar-se para Macapá, Hernani não apenas fundou Os Mocambos, banda de baile de sucesso nos anos 60, mas decidiu romper uma barreira social invisível, porém sólida, o preconceito contra o Marabaixo.
O Som da Resistência e o Lado B
Em um artigo seminal publicado no livro Rumos Brasil da Música (Itaú Cultural, 2006), o próprio Hernani recorda o clima da época: “Em Macapá, quem dançava marabaixo ou batuque não era convidado para os bailes sociais”. O disco, portanto, foi um ato político.
A estrutura do álbum reflete essa dualidade.
O Lado A é dedicado inteiramente aos temas populares do Marabaixo, com seus “ladrões” (cantigas) e o peso percussivo de uma tradição que remonta ao século XVIII, vinda da colônia de Mazagan (Marrocos) para a fundação de Nova Mazagão.
Já o Lado B mostrava a versatilidade d’Os Mocambos com composições autorais, flertando com a MPB e o balanço da época.
Quatro horas, um detetive e a Rozemblit
Se a música é histórica, a produção do disco é um roteiro de cinema. Em maio de 1973, transformando a sala de uma casa em Macapá num estúdio improvisado, o grupo registrou todas as 12 faixas em uma maratona de apenas quatro horas.
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A saga continuou na pós-produção. O material foi enviado para Recife, casa da mítica gravadora Rozemblit (famosa por prensar a psicodelia nordestina e os discos da Rozenblit/Mocambo).
No entanto, o impensável aconteceu, a fita-master foi roubada na capital pernambucana. Para salvar o projeto, foi necessário contratar um detetive particular, que conseguiu localizar e recuperar os rolos, permitindo que o disco finalmente visse a luz do dia ainda naquele ano.
Um marco independente
Considerado o primeiro LP independente do Amapá, o disco de Os Mocambos é um elo perdido na discografia amazônica. Ele captura o momento exato em que o folclore de raiz (a dança de roda africana, o ritmo do ladrão) começou a dialogar com a modernidade dos estúdios e da indústria fonográfica.
Hoje, ouvir “Marabaixo – O folclore amapaense” é mais do que apreciar uma raridade; é testemunhar a coragem de músicos que, entre estúdios caseiros e fitas roubadas, garantiram que a identidade cultural do Amapá fosse preservada no vinil para a eternidade.
Foto: Senhor F Social Club.






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