Na arqueologia musical da Amazônia, poucos nomes ressoam com a pureza técnica e a sensibilidade melódica de Evandro Cordeiro, o eterno Barata. Nascido em Macapá e radicado em Belém, esse “jovem mestre” firmou-se como um dos pilares fundamentais da lambada e da guitarrada surgida nos anos 80.

Lançado em 1987, com produção de Manoel Cordeiro, o LP “Barata, sua voz e sua guitarra” tornou-se um “Santo Graal” para colecionadores de vinil. O LP exibe a sonoridade limpa de sua guitarra em clássicos como “Vento Forte” (de Gilson Carlos e Manoel) e em versões instrumentais arrebatadoras para hits de Solano (“Americana”) e Carlos Santos.

Inédito nas plataformas digitais, sem versão oficial em CD e nem reedição em vinil (até a publicação desta resenha), o LP é uma peça rara na discografia da música amazônica. A sua audição tem o poder de levar o ouvinte a rever suas convicções sobre a guitarra na música brasileira e seus heróis mais conhecidos e consagrados.

Mais do que um virtuoso da guitarra “limpa e melódica” que brilhou na lambada, Barata foi uma espécie de motor oculto de uma verdadeira indústria fonográfica. Sob a batuta de seu irmão, o arranjador e produtor Manoel Cordeiro, Barata integrava o que a historiografia musical hoje reconhece como a “Wrecking Crew do Norte”.

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Tal qual o lendário coletivo de Los Angeles, o time da Gravasom — completado pelo baixo de Neca, as baterias de Junior e Sagica, e um coro de vozes estelares — funcionava como uma máquina de hits. Nos estúdios da Gravasom, em Belém, sua guitarra foi peça-chave na definição da sonoridade de massa do Norte do país durante os anos oitenta.

A guitarra de Barata não ecoa apenas em discos de lambada-guitarrada; ela é também a “voz” melódica por trás de dezenas de cantores de brega. De Alípio Martins a Frankito Lopes, passando por Adelino Nascimento, Ivan Peter e Ted Max, uma infinidade de cantores tiveram suas melodias sustentadas pelos riffs precisos e o swing inconfundível de Barata.

Barata, que também emprestou seu talento à lendária banda Warilou, partiu prematuramente em outubro de 2004, deixando dois discos oficiais conhecidos. Sua estreia de 87, item obrigatório para compreender a guitarra brasileira, permanece um tesouro analógico — inédito em CD ou streaming — ecoando a memória de um gigante que transformou a pulsação dos bailes paraenses em alta cultura pop.

  • Barata gravou mais dois discos, o LP Deixa badalar lançado pela Gravasom em 1994, que pode ser ouvido no Spotify, e um terceiro – Sua voz e sua guitarra Vol. 2 -, sem registro de lançamento em vinil ou digital, mas disponível no Youtube – aqui.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

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