No vasto e muitas vezes inexplorado mapa da música brasileira, a região amazônica sempre guardou tesouros que, por décadas, circularam apenas localmente, longe dos holofotes da mídia sulista.

Entre os garimpos mais fascinantes para colecionadores e pesquisadores de sonoridades regionais, emerge o carimbó de Icoaraci, distrito de Belém que respira a brisa da Baía do Guajará e a pulsação dos tambores.

É nesse cenário, onde o ritmo não é apenas música, mas “estilo de viver”, que encontramos uma verdadeira relíquia: o LP Carimbó – Irmãos Coragem “Icoaraci”.

Lançado sob o obscuro e cultuado selo Tape-Som (catálogo LPT 12.005), o disco tornou-se, com o passar dos anos, um item de desejo nos sebos e feiras de vinil.

A bolacha não é apenas um compilado de faixas; é a captura crua e direta da energia dos salões e das festas de terreiro que agitavam a região metropolitana de Belém na década de 1970.

A sonoridade impressa nos sulcos do vinil reflete a ancestralidade cabocla, sem filtros, documentando a estética dos conjuntos de “pau e corda” e elétricos que faziam a base da cultura ribeirinha e praieira.

Para além do valor como artefato físico, o álbum dos Irmãos Coragem serve como peça-chave para entender a linha evolutiva do carimbó em Icoaraci. A banda funcionou como um celeiro de talentos fundamentais para a cena.

Um exemplo claro dessa importância histórica é a presença de Raimundo “Jaci”. Antes de liderar o aclamado grupo Os Caçulas da Vila, o mestre iniciou sua trajetória emprestando sua voz aos Irmãos Coragem.

Leia mais: Amazônia sonora: gêneros regionais, Caribe e indústria musical

Ou então do Mestre Curica, que participa do disco com seu banjo, e assina três composições, hoje reconhecido como um dos três nomes fundamentais da guitarrada paraense, ao lado de Mestre Vieira e Aldo Sena.

Essa conexão revela uma continuidade cultural que resiste ao tempo e às dificuldades do mercado, provando que a tradição se renova através de seus próprios agentes.

Embora as informações sobre a trajetória completa do grupo sejam escassas nos grandes portais — o que apenas aumenta a mística em torno da obra —, o LP sobrevive como um testemunho de resistência.

Veja a lista completa, com os links das resenhas atualizadas.

Em tempos onde a música paraense experimenta uma nova onda de valorização e reinvenção global, o resgate de obras como a dos Irmãos Coragem é vital.

Ele reafirma a potência de Icoaraci como polo criativo e oferece às novas gerações e aos pesquisadores a base sólida sobre a qual a identidade sonora do Pará foi construída.

O LP dos Irmãos Coragem permanece, portanto, como um documento vivo. Um convite para dançar e, ao mesmo tempo, uma aula de história popular brasileira.

Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Trending