A cidade de Fortaleza, capital do Ceará, teve um papel decisivo para a circulação e consolidação da lambada produzida na Amazônia durante os anos oitenta.
Segundo o produtor e músico Manoel Cordeiro, a capital cearense funcionava como uma espécie de “avalista” da música feita em Belém, um entreposto estratégico para distribuir, pelo Nordeste inteiro, os discos lançados pela Gravasom.
Mas a relação não se limitava ao mercado, também gerou artistas fundamentais para a cena do gênero. Entre eles, um nome merece ser resgatado — Deusimar da Guitarra.
Em 1987, Deusimar lançou seu disco autointitulado, gravado no estúdio da Gravasom, em Belém, com produção de seu “padrinho” artístico, José Orlando.
Nascido em Pedreiras (MA) e criado em Fortaleza, José Orlando já era uma figura consolidada na música popular nordestina, desde o início da década.
O disco revelou um dos grandes guitarristas da lambada dos anos 1980 fora dos dois polos principais do gênero, as cidades de Belém, no Pará, e Manaus, no Amazonas.
Com sua Giannini Stratosonic em punho, Deusimar registrou onze temas vibrantes, nos quais mescla a pulsação amazônica com fortes elementos das sonoridades nordestinas.
Um dos exemplos é “Pra lá e pra cá”, faixa marcada por riffs ágeis e levadas que dialogam com ritmos do Nordeste, ou “Frevo do Pará”, “Corda Bamba” e “Agarradinho com você”.
Embora ainda pouco lembrado pelo grande público, Deusimar é, para muitos pesquisadores e músicos, um nome que merece estar entre os grandes mestres da época.
- A Giannini, fundada em 1900, lançou a Stratosonic no contexto do rock das décadas de 60 e 70, inspirando-se na Fender Stratocaster mas adaptando-a à realidade brasileira. Nos anos 80 e 90, o instrumento consolidou-se como uma alternativa acessível e confiável frente às importações caras, com destaque para o aclamado modelo Stratosonic Pro (anos 90). Mais do que uma simples cópia, a guitarra tornou-se um símbolo de resistência da indústria nacional.
A base instrumental que acompanha o guitarrista no disco é formada pelo grupo de Manoel Cordeiro, que também assina teclados, arranjos e regências ao lado de José Orlando.
Junto a Manoel Cordeiro estão Barata (guitarra base); Neca (baixo); Junior (bateria); Sabá Maravilha (percussão), mais Nicinha e Suelene (coros).
O álbum foi lançado pelo selo RCA Victor, reforçando a circulação nacional de um trabalho que, apesar de seu brilho, ainda aguarda o devido reconhecimento histórico.
Além de raro, o disco é um reconhecimento do papel do Nordeste na expansão da lambada e de um músico cuja técnica e criatividade integram memória musical dos anos 1980.
- Discos Raros da Amazônia é uma série de 20 obras raras da música do Norte, abrangendo os gêneros lambada, beiradão, carimbó e brega, lançados nos anos 70 & 80.F Social Club.
Veja a lista completa, com os links das resenhas atualizadas.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).






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