Fundada em 11 de junho de 1954 por José Rozenblit e seus irmãos, a Rozenblit foi mais do que a gravadora mais moderna do país em seu tempo.

A partir de Recife,construiu um projeto industrial e cultural que, conscientemente ou não, operava como um eixo de integração latino-americana em um Brasil historicamente voltado para os Estados Unidos e Europa.

Gravadora Rozenblit, inaugurada nos anos 50, em Recife, estado de Pernambuco, Foto: Fundej.

Assim,a Rozenblit antecipou e fortaleceu a presença da música caribenha na região amazônica e, em particular, no estado Pará, depois aprofundada pela gravadora Gravason.

Com base em Belém, a Gravasom foi importante para a produção e visibilidade da música da região, o que resultou em dois gêneros fundamentais para a música do Norte – a lambada e o brega, além do beiradão (no Amazonas).

Visibilidade para criação amazônica

Em 1972, quando o grupo Os Mocambos, de Macapá, realizou o que é considerado o primeiro registro fonográfico conhecido do marabaixo, ritmo ancestral do Amapá, ligado à memória negra e à resistência cultural, foi a Rozenblit, em Recife, quem deu forma material a esse gesto.

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Pouco depois, o mesmo ocorreria com os dois primeiros discos de Mestre Cupijó e seu Ritmo, pilares da música amazônica moderna. Editados pelo selo independente Escorpião, esses álbuns foram fabricados pela Rozenblit, evidenciando uma engrenagem solidária entre produção regional e infraestrutura industrial nordestina.

Integração latina para além do Sudeste

Ao mesmo tempo, a gravadora ampliava seu catálogo com artistas latinos que escapavam dos circuitos dominados pelas majors internacionais.

A maioria dos discos chegaram ao Brasil por meio do acordo de distribuição entre a Rozenblit e a Seeco, gravadora americano-canadense que detinha um vasto catálogo de música latina.

A Rozenblit operava por meio de diversos selos. Eram eles Mocambo, Passarela, Artistas Unidos, Arquivo e Solar, sendo Mocambo o principal vetor da música latina.

Firmada ainda nos anos 1950, essa parceria permitiu que ritmos caribenhos circulassem em um país marcado pela censura, pelo conservadorismo cultural e, mais tarde, pela repressão política.

Merengue e cumbia em discos

A presença do dominicano Luis Kalaff, intérprete de merengue, no mercado do Norte e do Nordeste brasileiro não foi apenas um dado comercial, mas um sintoma de circulação cultural Sul-Sul, em que o Caribe dialogava diretamente com o Brasil periférico, sem a mediação do eixo Rio–São Paulo.

Outro nome fundamental desse intercâmbio foi o cubano Bienvenido Granda, cantor de boleros conhecido como El bigote que canta. Granda se apresentou no Nordeste brasileiro e, segundo relatos recorrentes, teria passado uma temporada em João Pessoa.

O mesmo ocorreu com a cumbia colombiana. Los Corraleros de Majagual, lançados pela Discos Fuentes, de Medellín, tornaram-se referência para músicos do Norte do Brasil. Sua influência ecoou em gravações como “Caballo Viejo”, de Pinduca, e “La Pollera Colorá”, registrada por Aldo Sena.

Nos anos 1960, a gravadora Rozenblit chegou a responder por cerca de um quarto do mercado fonográfico brasileiro. Além da música regional e latina, a Rozenblit contava em seu católogo com lançamentos de frevo, artistas e bandas independentes nacionais, além de nomes internacionais alternativos.

Seu fim, nos anos 1980, foi resultado tanto da concentração do mercado nas mãos das majors quanto das sucessivas enchentes do rio Capibaribe, que atingiam suas instalações industriais — metáfora involuntária de um projeto cultural submerso pela lógica centralizadora.

A influência permanece até hoje

A latinidade impulsionada pela Rozenblit sobreviveu ao longo das décadas seguintes. Em Recife, festas como a tradicional “Noite Cubana”, do Clube Bela Vista, no Alto do Céu, seguem mobilizando a periferia da cidade.

Celebradas, reinterpretadas e atualizadas, essas experiências foram homenageadas pela banda Academia da Berlinda, mostrando que a integração cultural latino-americana proposta nos discos da Rozenblit não foi episódica, mas fundacional.

Mais do que uma gravadora, a Rozenblit foi um projeto de escuta, de um Brasil que se reconhecia no Caribe, na Amazônia e na América Latina popular, muito antes de isso virar discurso.

Fotos: Senhor F Social Club (acervo Senhor F); Fundaj.

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