Domingo, 22 de agosto de 1965, 16h30. No auditório da TV Record, na Rua da Consolação, em São Paulo, entrava no ar o programa Jovem Guarda, anunciado como “o maior show de música juvenil do país”. Na plateia, jovens com menos de vinte anos aguardavam em estado de excitação a chegada de seus ídolos.

  • Partindo das mesmas influências dos Beatles e da beatlemania, ou seja, rock and roll americano, Motown, surf music e pop internacional, com a Jovem Guarda Roberto e Erasmo construíram a identidade mais sólida e popular do rock brasileiro.

A televisão brasileira, até então dominada por formatos conservadores, assistia ao nascimento de um fenômeno cultural que extrapolaria a tela e marcaria definitivamente a música, o comportamento e a indústria cultural do país.

  • O álbum Jovem Guarda (1965) não foi apenas um sucesso comercial de Roberto Carlos. O disco ajudou a redefinir o lugar do rock no Brasil, inaugurando uma nova relação entre juventude e música popular e pavimentando o terreno para debates estéticos e políticos que marcariam o final da década.

No palco, Roberto Carlos comandava o espetáculo e, logo de início, anunciava “o meu amigo Erasmo Carlos”. Ao lado de Wanderléa, os três formavam o núcleo do programa, que ainda recebia convidados de peso. Na estreia, passaram pelo palco Os Incríveis, Tony Campello, Rosemary, The Jet Black’s, Prini Lorez e Ronnie Cord.

Erasmo Carlos canta “Pode vir quente que eu estou fervendo” no programa Jovem Guarda, em 1966.

Embora resultado direto da visão empresarial de Paulo Machado de Carvalho, proprietário da TV Record, o programa foi, sobretudo, fruto de uma ebulição cultural que conspirava em favor da juventude. Um ano antes, os Beatles haviam tomado de assalto os Estados Unidos e, embalados por A Hard Day’s Night, disco e filme, completavam sua invasão mundial.

Roberto Carlos foi o primeiro artista da ‘media’ pop a sentir a panamericanidade de nosso ser. Ele uniu a batida do rock dos USA com toques de samba naquela de melancolia de bossa-nova sofisticada com lamentos de modinhas antigas e outras saudades da alma nacional – Jorge Mautner (em 72, na Rolling Stone brasileira)

No Brasil, Roberto Carlos já era um ídolo juvenil antes mesmo da chegada dos novos heróis ingleses, impulsionado por sucessos como Splish Splash (1963), Parei na Contra Mão (1963), É Proibido Fumar (1964) e O Calhambeque (1964). Ao mesmo tempo, milhares de jovens migrantes, como o próprio Roberto, rumavam aos grandes centros urbanos, embalados pela industrialização, em busca de emprego, ascensão social e pertencimento à sociedade moderna.

O futuro, de fato, parecia pertencer à Jovem Guarda. Esse foi o mote para a criação do programa e também para a transferência estratégica de Roberto Carlos do Rio de Janeiro para São Paulo, condição, segundo a mídia da época, essencial para “estourar” nacionalmente. Roberto e Erasmo vinham da chamada “Turma do Matoso”, grupo de jovens que incluía Tim Maia e Jorge Ben e se reunia na esquina das ruas Haddock Lobo e Matoso, em frente ao Cine Roxy, na Tijuca.

Na íntegra, programa de aniversário de um ano, em 1966, com participação de vários artistas.

Dali surgiram grupos como Os Sputniks (Roberto e Tim Maia), Os Terríveis (Roberto, Carlos Imperial e Paulo Silvino) e The Snakes (Erasmo Carlos). Foi também ali que Roberto ganhou sua primeira alcunha: “o Elvis Presley brasileiro”. Antes da Jovem Guarda, ele ainda flertou com a bossa nova, presente em seu compacto de estreia, com João e Maria e Fora do Tom, ambas de Carlos Imperial.

A ideia do programa Jovem Guarda também respondeu a uma necessidade prática: ocupar o espaço deixado na grade da Record pela proibição da transmissão dos jogos do Campeonato Paulista de Futebol. Inicialmente, o programa se chamaria Festa de Arromba, título de um hit de Erasmo Carlos, mas o nome foi descartado por receio de envelhecer com a música.

O nome do programa e do movimento carregava uma ironia histórica e sinalizava a chegada do futuro. Por sugestão do publicitário Carlito Maia, adotou-se o nome Jovem Guarda, expressão atribuída ao revolucionário soviético Vladimir Lênin. Em um texto interno, Lenin argmentava que o futuro pertencia à jovem guarda do partido.

O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada – Vladimir Lênin.

A formatação também fugiu do padrão. A ideia inicial previa Roberto Carlos ao lado de Celly Campello, ex-Rainha do Rock, que havia se afastado da carreira artística para casar-se e recusou o convite. A escolha de Wanderléa consolidou um trio que se tornaria icônico.

O sucesso foi imediato. Nas primeiras semanas, o programa chegou a atingir 90% de audiência segundo o Ibope. Com padrão de produção inédito, a Jovem Guarda não apenas lançou músicas, mas criou uma verdadeira indústria ao seu redor: botas, calças, jaquetas, anéis, bonecos e uma infinidade de produtos que ajudaram a moldar o consumo juvenil no Brasil.

Em 1966, aproveitando o êxito dos filmes dos Beatles, Roberto Carlos retomou sua paixão pelo cinema. Iniciou as gravações de SSS Contra a Jovem Guarda, projeto inacabado que serviria de base para Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, sucesso absoluto de bilheteria em 1968.

Em 1967, surgia a versão carioca do programa, Rio-Jovem Guarda, exibida pela TV-Rio, associada da Record, a mesma emissora que havia retirado o programa do ar dois anos antes, alegando baixa audiência.

Na esteira do sucesso, a Record promoveu o Festival de Conjuntos da Jovem Guarda, mobilizando milhares de grupos em todo o país. A final, em São Paulo, consagrou o grupo psicodélico Loupha, seguido por Os Cleans, enquanto o mineiro Vic Barone venceu entre os intérpretes.

Lançado em 1965, o LP Jovem Guarda consolidou Roberto Carlos como fenômeno nacional. O álbum trazia o megahit Quero Que Vá Tudo Para o Inferno e a marca sonora do tecladista Lafayette, cujo órgão Hammond B3 se tornaria assinatura do movimento. O caminho aberto por É Proibido Fumar estava definitivamente pavimentado.

  • Hammond B3 – Para além do carisma dos apresentadores, a Jovem Guarda consolidou uma identidade sonora única. O uso do órgão Hammond B3 por Lafayette tornou-se a marca registrada das gravações de Roberto Carlos.
  • Fuzz guitars – Outro pilar fundamental foi o grupo Renato e Seus Blue Caps. Liderados por Renato Barros, o grupo funcionou como a principal ponte com a “beatlemania”, introduzindo a guitarra “fuzz” que definiria a sonoridade do movimento.
Registro de Roberto Carlos para a TV em Portugal cantando Quero Que Vá Tudo Pro Inferno (1966).

Resposta brasileira à beatlemania

Apesar da sintonia comportamental, a Jovem Guarda funcionou como uma resposta brasileira à invasão britânica. A reação aparece explicitamente em Beatlemania, do primeiro LP de Erasmo Carlos. Partindo das mesmas influências, rock and roll americano, Motown, surf music e pop internacional, Roberto e Erasmo construíram a identidade mais sólida e popular do rock brasileiro.

Distante dos conflitos políticos que se intensificaram após o golpe de 1964, mas longe de ser culturalmente alienada, a Jovem Guarda preparou o terreno para a Tropicália, que a partir de 1967 fundiria rock, MPB e discurso político.

A cantora Wanderléa canta o megahit “Prova de fogo”, no programa Jovem Guarda, em 1967.

Com linguagem direta e poesia aparentemente ingênua, falava de carros, solidão urbana, amores impossíveis e personagens excêntricos. Se Chico Buarque representou a consciência crítica dos “anos de chumbo”, Roberto Carlos foi o poeta popular que confortou a juventude, enquanto Erasmo encarnava o lado irreverente e mais radical do movimento.

A rejeição da MPB tradicional culminou na famosa “passeata contra as guitarras elétricas”, protagonizada por nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo e Geraldo Vandré. O episódio envelheceu mal, e a própria Elis mais tarde se redimiria gravando canções de Roberto Carlos.

A Jovem Guarda é a bandeira de todos os jovens do Brasil. Já não é um programa, é um movimento” – Erasmo Carlos

Erasmo, apontado como o mais rebelde da turma, antecipou tendências ao incorporar o órgão Hammond B3 e flertar com sonoridades mais ousadas. Wanderléa, por sua vez, redefiniu o papel feminino no rock brasileiro, tanto pelo visual quanto pela atitude, tornando-se referência comportamental.

Além do trio central, a Jovem Guarda revelou uma constelação de artistas, como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Sérgio Reis, Vanusa, Leno & Lilian, Renato e Seus Blue Caps, entre muitos outros — e consolidou uma cena de grupos de garagem que dialogava diretamente com o pop internacional.

Em 1968, com a saída de Roberto Carlos, o programa chegou ao fim. Com ele, encerrava-se um ciclo, mas não sua influência. Ainda hoje subestimada por parte da crítica, a Jovem Guarda teve para a cultura jovem brasileira impacto comparável ao dos Beatles no cenário mundial.

Como definiu Erasmo Carlos nos anos sessenta: “A Jovem Guarda é a bandeira de todos os jovens do Brasil. Já não é um programa, é um movimento”. E assim permanece, não como nostalgia, mas como parte estrutural da história da música popular brasileira.

Foto: Reprodução.

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