Lançado em 1986 e hoje cultuado como um artefato precioso da discografia nortista, a estreia do manauara Chico Cajú, vai muito além de um mero registro de época. Nas prensagens do lendário selo paraense Gravasom, comandado por Carlos Santos, repousa um documento histórico fundamental para a compreensão dos primórdios do “beiradão”. Para tornar a obra ainda mais antológica, o saxofonista contou, nos estúdios em Belém, com o peso do clássico conjunto de Pinduca como banda de apoio.
Na efervescente cena instrumental da Amazônia daquele período, cada mestre forjou sua própria assinatura sonora. Enquanto pesos-pesados como Teixeira de Manaus flertavam abertamente com a latinidade caribenha e Chiquinho David promovia a eletrificação do gênero, Chico Cajú esculpiu um caminho singular. Pelos sulcos de seu vinil, ele destilou uma fusão azeitada que amalgamava choro tradicional, sonoridades paraenses e o balanço das levadas nordestinas.
Batizado Francisco Ferreira do Nascimento, Cajú traz a poeira dos bailes em seu DNA. Nascido em 3 de outubro de 1943, na zona rural de Manaquiri (a 80 km de Manaus), nas margens do Lago do Ajará, ele deu seus primeiros sopros no sax soprano em família, animando os beiradões amazônicos ao lado do pai e dos irmãos. O ofício o levou a Manaus, onde integrou a banda da Polícia Militar até se render definitivamente à música popular.
- Discos Raros da Amazônia é uma série de 20 obras raras da música do Norte, abrangendo os gêneros lambada, beiradão, carimbó e brega, lançados nos anos 70 & 80.
Veja a lista completa, com os links das resenhas atualizadas.
O salto dos salões populares para as prensas da indústria fonográfica teve um padrinho essencial. Zé Milton, radialista manauara, produtor e autêntico garimpeiro de talentos, que capturou a energia de Cajú incendiando as festas locais e apontou a bússola para Belém do Pará. A capital paraense era, nos anos oitenta, a grande engrenagem de produção musical do eixo Norte, e a Gravasom o destino natural para ecoar aquele balanço por toda a região.
Ao lado de gigantes como Mestre Cupijó, Teixeira de Manaus, Agnaldo do Amazonas e Pantoja do Pará, entre outros, Chico Cajú forma a realeza intocável das festas do interior amazônico. Hoje, quando a “lambada de sax” e o instrumental nortista passam por uma vigorosa e merecida arqueologia musical, puxada por pesquisadores, colecionadores de vinil e novos novos artistas, “Chico Cajú e seu Super Sax” é a prova viva da genialidade de um Brasil profundo, que se mantém atual.
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)






Deixe um comentário