A década de setenta foi, sem dúvida, a época de ouro para as orquestras da África Ocidental. Em meio ao turbilhão do pós-independência, países como o Mali viveram uma verdadeira explosão sonora com apoio dos Estados.
Sob a consigna da “autenticidade”, movimento para afastar a influência colonial e projetar a cultura africana para o futuro, orquestras de todas as regiões do país começaram a misturar suas raízes rítmicas profundas com a eletricidade, os metais e a atitude moderna.
Foi nesse caldo fervente que nasceram gigantes como a Rail-Band de Bamako, Les Ambassadeurs e L’Orchestre Kanaga de Mopti. Mas, entre os sulcos dos vinis daquela época, repousava um segredo magnético vindo do deserto, o lendário e raríssimo álbum da “Le Mystère Jazz de Tombouctou“.
Durante a gestão de Modibo Keita (1960-1968), o Mali criou orquestras regionais e trupes artísticas que competiam anualmente nas famosas Semaines Nationales de la Jeunesse (que nos anos 70 se tornariam a Biennale Artistique et Culturelle).
Enquanto várias dessas orquestras regionais (como Mopti, Sikasso e Ségou) ganharam seus registros em LP logo em 1970 pelo selo alemão Barenreiter-Musicaphon, a orquestra da mítica e distante Tombuctu ficou de fora.
Foi preciso esperar até 1977 para que o selo estatal Mali Kunkan lançasse o homônimo Le Mystère Jazz de Tombouctou (Mali Kunkan KO 77.04.17),até então disponível em fitas cassetes “copiadas” a partir dos arquivos da Rádio Mali.
Ao colocar a agulha neste disco, o que se ouve não é apenas música; é a tradução sonora das areias do Saara em atrito com o suingue africano. O álbum traz uma sonoridade rica, envolvente e profundamente ousada.
O grupo entrega o “som do Mali” em sua forma mais pura, com seções de metais gordas, baterias pulsantes e guitarras elétricas em ostinato que criam verdadeiros mantras frenéticos, alinhando a ancestralidade aos grandes mestres do jazz moderno e da psicodelia.
Na abertura, “Leli“, a orquestra ataca com metais grandiosos e uma guitarra solo que já anuncia o calibre dos músicos. A música do Mali dos anos setenta é venerada pela qualidade de seus heróis da guitarra, e o Mystère Jazz não deve nada aos mestres de sua geração.
Ns sequência de “Dina waliji“, um lamento em louvor a Alá, as faixas “Teiduma” e “Walé” entregam a identidade da região norte do Mali. A influência dos povos tuaregues, com flertes quase Gnawa (música de transe do norte da África), puxados por uma linha de baixo densa e percussões hipnóticas.
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O ápice absoluto do disco, no entanto, atende pelo nome de “Tarekh”, cantada em idioma Tamashek, que começa com uma introdução de bateria e saxofone. Uma guitarra rítmica entra em cena criando um loop melódico viciante, preparando o terreno para a guitarra solo brilhar.
Se discos como os do Super Djata Band e da Kanaga de Mopti mostraram o poder de fogo do Mali para o mundo, Le Mystère Jazz de Tombouctou é a joia oculta que completa esse mosaico fantástico da “África Infinita“. Um disco obrigatório para quem deseja mergulhar nas raízes da melhor música feita no planeta.
*Com informações de Rádio África
Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club)






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