No início dos anos setenta, enquanto o Brasil do “milagre” olhava para outras direções, a lendária gravadora pernambucana Rozenblit, através do selo Escorpião, prensava verdadeiras pérolas que o tempo trataria de consagrar.
Entre as preciosidades, estão os dois primeiros álbuns do paraense de Cametá, Mestre Cupijó, “Dance o Siriá” e “Dance o Siriá, Vol. 2”, lançados pelo selo Escorpião, sem data oficial, mas provavelmente ambos em 1972.
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Em “Dance o Siriá, Vol. 2”, uma faixa brilha com luz própria: “Mambo do Martelo”. É a síntese do gênio de Cupijó, seu passaporte para o futuro. A mesma música ganhou nova versão mais apurada tecnicamente em 1975, no álbum “Siriá”
A releitura feita pela Orquestra Brasileira de Música Jamaicana (OBMJ) só confirmou o que os ouvidos atentos já sabiam. Mestre Cupijó dialoga de igual para igual com o ska, o highlife e a cúmbia. É som universal.
- A receita de Mestre Cupijó: A tradição das orquestras europeias nos sopros; peso rítmico dos quilombos e aldeias; o tempero “caliente” do Caribe (mambo e merengue).
Naquele momento, talvez o país não estivesse sintonizado na frequência visionária de Mestre Cupijó. Mas ali, nas ranhuras daquele vinil, com uma capa ousada, embalado pelas águas do Tocantins, estava a pedra fundamental da modernização do siriá.
Joaquim Maria Dias de Castro, o Mestre Cupijó, não fez apenas folclore; ele fez revolução sonora. Nascido no berço do gênero, em Cametá, ele bebeu da fonte ancestral, o banguê, o samba de cacete, a pulsação indígena e o batuque africano.
“Cupijó reinventou o Siriá, ritmo que antes somente era escutado nos finais de festejos de grupos de Samba de Cacete, como ele viveu na região do Baixo Tocantins, extraiu isso da melhor forma, e traduziu para uma banda o que hoje conhecemos como Siriá” – músico JP Cavalcante ao jornal O Liberal.
Mas o “pulo do gato” estava na sua formação. Criado dentro da histórica Banda Euterpe Cametaense, sob a tutela do pai (Mestre Sicudera) e do avô, Cupijó entendeu a força dos metais. O resultado é um som elétrico, de fricção cultural pura.
No disco, acompanhavam Mestre Cupijó (saxofone), os músicos Dicozinho (trombone), Dico (banjo), Santos (piston), Mata (piston), Gabriel (sax tenor), Cinito (bateria), Pitaica (ritmo), Mundicão (baixo), Boca (guitarra), Coréia (cantor) e Edel (cantora).
A contracapa do disco ainda traz um texto de apresentação do “jovem músico de Cametá”, assinado por José Carlos Castro, e registra a autoria da direção de gravação por Antônio H Barra e da técnica de som por José Ferreira.
Mais de cinco décadas depois, o som permanece moderno, urgente e, acima de tudo, dançante, animando repertórios de DJs mundo afora. “Dance o Siriá, Vol. 2” não é peça de museu. É um clássico vivo, onde as três raças se encontram para fazer o futuro dançar.
- Discos Raros da Amazônia é uma série de 20 obras raras da música do Norte, abrangendo os gêneros lambada, beiradão, carimbó e brega, lançados nos anos 70 & 80.
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Foto: Senhor F Social Club (acervo Senhor F Social Club).






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